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Uma rapariga estranha

Uma rapariga estranha

Ricardo António Alves 26/10/2020 21:05

Série iniciada em 1979 na revista francesa Circus, publicada pela editora Glénat, de Grenoble, logo granjeou a melhor atenção de público e crítica, sendo o autor, François Bourgeon (Paris, 1945) distinguido no ano seguinte com o Prémio Alfred (o pinguim de Zig e Puce) para melhor desenhador, no Festival de Angoulême. 

Os passageiros do vento revelam no mesmo autor o melhor que uma BD pode oferecer: um argumento consistente, um estilo rico, cheio de recursos e o modo criativo e dinâmico como a conjugação de texto e desenho se harmonizam numa prancha, processo que está para a BD como o enquadramento e a montagem estão para o cinema.

O tempo é o último quartel do século XVIII, pouco antes da Revolução Francesa; o espaço é o Oceano Atlântico, com algumas analepses relativas ao percurso da protagonista, a partir daqui uma figura icónica, personagem inesquecível da BD global. A Rapariga no Tombadilho é o primeiro de uma série de cinco álbuns publicados até 1984. A capa mostra-nos uma jovem e estranha mulher empoleirada à noite e à chuva no cordame dum barco que se adivinha de grande porte – uma forte imagem de apresentação duma nova BD. A bordo do “Foudroyant”, embarcação de 74 canhões da Marinha Francesa, capitaneado por Benoît de Roselande, um aristocrata pouco competente como marinheiro, duas jovens mulheres vão resguardadas da tripulação, até serem avistadas fortuitamente por um grumete bretão, o rapaz Hoël. Agnes e Isa, duas aristocratas, uma rica outra pobre, a segunda acompanhando a primeira, não são quem dizem ser, mas estão amarradas a uma falsa identidade, por uma brincadeira que correu mal. A vítima e heroína é Isabeau, a rapariga da capa, insurrecta, aprendeu a usar de toda a manha, violência, argúcia e dissimulação que lhe permita sobreviver num mundo de homens, em que da mulher se espera apenas o exercício das funções de fêmea. Mas Isa não tem nenhuma dessas vocações, pelo contrário, é libérrima, o que dará ensejo ao autor de enveredar por um erotismo à época transgressor, embora elegante.

Um dos grandes méritos de Bourgeon é a forma como encaixa a informação histórica na narrativa, a erudição com que emprega os termos técnicos de navegação, não apenas no nomear de tudo o que compõe um grande veleiro de guerra, como também as manobras navais, incluindo tática de combate. A informação flui com naturalidade, e é assim que podemos perceber as tensões sociais que anos mais tarde iriam desembocar na violência revolucionária dos sans-culottes, do povo miúdo, ou o mundo antagónico que opunha tradicionalistas e iluministas, nos diálogos e picardias travados entre o capelão e o médico de bordo.

Bourgeon trabalha numa sequela centrada numa descendente de Isa, que já aqui noticiámos. Os Passageiros dos Vento é uma série cuja presença é imprescindível numa biblioteca essencial de banda desenhada.

 

Os Passageiros do Vento – 1. A Rapariga no Tombadilho
Texto E desenho:
François Bourgeon
Editora Meribérica / Liber, Lisboa, s.d.

 

Balada para Sophie. Um concurso de jovens pianistas, oriundos da mesma localidade, um de família rica, outro filho dum funcionário modesto, cruzam-se pela primeira vez em 1933, num concurso de jovens talentos, em que apenas um foi premiado. Em 1997, uma jornalista entrevista o primeiro, tecendo uma narrativa com a presença dum espetro tornado rival 64 anos antes. Texto de Filipe Melo – também pianista de jazz – e do argentino Juan Cavia. Edição Tinta da China, Lisboa, 2020.

 

Umbra #2. Segundo número da publicação periódica pela editora do mesmo nome, com quatro histórias de fantasia e realidades alternativas: O coração atómico de Jan, do canadiano Simon Roy; Camping Gás, de Pedro Moura, Filipe Abranches e Bárbara Lopes; Duas espadas, de Pedro Moura e Jorge Coelho; e Os pesadões, com nova legendagem, do malogrado Fernando Relvas (1954-2017).

 

 

Pratt. Os Escorpiões do Deserto é outra série maior de Hugo Pratt, iniciada em 1969, logo após Corto Maltese. Apesar de reminiscências pessoais, familiares e dum precário domínio italiano em África, o relato é feito por Koinsky, um oficial polaco a combater com os ingleses. A Ala dos Livros está a publicá-la em três volumes, tendo saído o segundo, incluindo Um Fortim em Dancália e Conversa Mundana em Mulhoule.

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