30/11/20
 
 
José Paulo do Carmo 23/10/2020
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

Obrigado, João Almeida

Este menino com ar de Clark Kent teve a ousadia de levar um país inteiro na sua roda, reacendendo paixões e colando muitos às televisões. Foram dias de uma profunda energia que nos fez transportar através da esperança no final de cada etapa. Este estava destinado a ser o ano em que os desportos de duas rodas fariam as delícias do povo. 

Esta quinta-feira foi um dia duro nas aspirações do João no Giro (Volta a Itália em bicicleta). Mas foi um dia duro porque o ciclista português fez nestas quase três semanas aquilo que a todos parecia impossível. Ninguém conseguiria prever, nem nos seus melhores sonhos, que um “miúdo” de 22 anos, virgem em Grandes Voltas (de três semanas) pudesse seguir 15 dias com a camisola rosa (o equivalente à amarela portuguesa e envergada por quem vai na frente). Foi o seu desempenho estoico que colocou as expetativas a um nível inimaginável, que surpreendeu tudo e todos, nacional e internacionalmente, e não há quem não lhe faça uma vénia ou lhe dê o merecido reconhecimento.

Este menino com ar de Clark Kent teve a ousadia de levar um país inteiro na sua roda, reacendendo paixões e colando muitos às televisões. Foram dias de uma profunda energia que nos fez transportar através da esperança no final de cada etapa. Este estava destinado a ser o ano em que os desportos de duas rodas fariam as delícias do povo. Primeiro, Miguel Oliveira na principal categoria do MotoGP, e agora, para além da nossa pantera cor-de-rosa, a fantástica conquista da camisola azul pelo Rúben Guerreiro. É a história dos próximos 50 anos do desporto em Portugal a ser escrita em letras douradas e, ao contrário do que muitos velhos do Restelo muitas vezes vaticinam, são gerações de portugueses desempoeirados e sem medo de competir com os favoritos a darem cartas um pouco por toda a parte.

Esta prestação, independentemente do lugar em que João Almeida terminar (relembro que a prova ainda não acabou), é já um motivo de orgulho para todos nós e deve ser encarada como uma pedrada no charco da monotonia onde se encontrava o ciclismo português. Esperemos que se inicie aqui uma época brilhante e uma página de grandes feitos e conquistas. Todos nós vibrámos com as subidas de montanha, com a classe do português voador no contrarrelógio e com a expetativa que nos foi criada dia após dia. O que João Almeida fez na sua primeira Grande Volta foi “só” a melhor prestação portuguesa de sempre com os 15 dias na liderança e colocou os olhos do mundo, uma vez mais, arregalados com a nossa capacidade de sofrimento e com a nossa sede de vitória enquanto povo que nunca vira a cara à luta nem dá nada como perdido.

O Giro ainda não terminou. Ainda faltam etapas que podem ser importantes para o desfecho final. Mas o que João Almeida fez jamais poderá ser esquecido. Não é, por isso, altura de deixarmos de apoiar ou de nos desiludirmos, mas sim de estarmos todos eternamente agradecidos pelo que ele já nos fez viver nestes dias emocionantes. Num desporto tão querido por cá e que durante tantos anos foi seguido com tanto fervor, o ciclista das Caldas da Rainha deu-nos um grande exemplo de como conjugar a humildade com a classe, a capacidade de superação e a magia de acreditarmos nas nossas capacidades mesmo contra todas as apostas. É um exemplo de determinação e de sacrifício que nos deve servir de lição a todos. De como na vida nada pode ser dado como perdido à partida e que somos nós, com o nosso esforço e a nossa resiliência, que determinamos a nossa sorte. Obrigado, Rúben Guerreiro. Obrigado, João Almeida. Pelo exemplo, pela coragem, pela postura, por honrarem a nossa bandeira e nos fazerem sonhar. Que seja o princípio de um grande futuro. Não baixemos os braços e continuemos na sua roda e na roda dos que tanto fazem por elevar Portugal ao ponto mais alto.


Especiais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×