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Nuno André 23/10/2020
Nuno André

opiniao@ionline.pt

Sexo sagrado

O egoísmo leva-nos a decidir mal quando está em jogo o bem comum. Assim será enquanto boa parte da população não for feliz.

“O que é bom ou é pecado ou engorda.” Ouvi esta máxima durante a última semana, pelo menos três vezes, sendo que a última vez foi pela boca de uma jovem que falava sobre sexo e que se destacava dos outros alunos da faculdade por estar a usar uma bandelete enfeitada com dois corninhos vermelhos. Estaria ali a personificação do diabo para me tentar? – pensei.

Confesso que não resisti à tentação de responder a tal afirmação que, sendo conhecida e repetida por muitos, revela uma visão castradora e redutora que por vezes – demasiadas vezes – traduz o que consideramos acercada do sexo. O sexo é bom, faz bem e sabe bem. Dito assim até parece perverso ou provocador sendo que pela parte que me toca apenas me revejo na provocação.

Admitindo a perfeição do Criador, devemos aceitar o reflexo dessa mesma perfeição em cada ação criadora Deste. Entenda-se por isso a sexualidade como participação plena de uma comunhão que, por ser potencialmente geradora de vida, nos torna também criadores de criaturas.

O prazer proporcionado que é inerente ao ato sexual circunscreve-o à problemática do mal. Fruto da herança filosófica e religiosa, que defende a opressão do corpo em favor do espírito, considera-se que o processo ascético necessita da abstenção do prazer carnal para progredir. Porém, por ser este o melhor caminho para uns não significa que seja o melhor caminho para todos. Assim importa, hoje mais do que nunca, educar as nossas crianças e os nossos jovens para o sexo, até porque a maior das crises que atravessamos não é económica mas moral. Confundimos tudo, baralhamos tudo e só me pergunto em que medida o fazemos conscientemente. O egoísmo leva-nos a decidir mal quando está em jogo o bem comum. Assim será enquanto boa parte da população não for feliz. Enquanto se dormir com a pessoa errada. Enquanto vivermos como masturbadores de corpos moribundos quase desanimados.

Num sentido teológico, o diabo é o espírito que pela sua natureza divide, separa, criando assim uma rotura com o suposto caminho do bem, do bom e do justo. Esse espírito de divisão, por vezes irreversível, é que provoca o sentido do mal. Pelo contrário, é no amor que encontramos a solução para religar e unir em absoluto o que desde o princípio não deveria ter sido separado.

Por tudo isto será importante começarmos a repensar o sexo e a forma como o vivemos ou queremos viver. Talvez ensinando valores como honestidade, integridade e liberdade. Se assim for não há dúvida alguma de que então mudaremos o paradigma e expulsaremos qualquer mal que possa haver em torno do sexo. Mal que está necessariamente nas circunstâncias em que acontece – nas traições, nas mentiras, nas violações, nas agressões, na pedofilia, no abuso de poder, no oportunismo, na falta de dignidade humana.

Afinal, quer-me parecer que há coisas boas que não são pecado e que não engordam.

 

Professor e investigador

 


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