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Rui Patrício 23/10/2020
Rui Patrício

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À beira de um inverno de descontentamento

A culpa é de uns e/ou de outros, até talvez seja de todos. Menos nossa. Nossa, de cada um, não é. Nunca é.

Aproxima-se o (um) inverno do nosso descontentamento – e muito, pode supor-se –, mas, ao contrário das ilusões de Ricardo iii na sua fala inicial na peça de Shakespeare, nenhum filho ou sol (muito menos um filho solar) de Iorque o tornará um verão glorioso. Nem de Iorque nem de outro lugar ou família quaisquer. Sempre gostamos, e gostámos, de esperar e exigir que nos salvem, e protejam, na mesma medida em que somos muito lestos e generosos na procura e na atribuição de falhas e culpas. Agora, então, que somos uma vez mais assolados pela novidade assustadora e incerta e pelo desconhecido sombrio, essa tendência tão antiga e natural cresce em proporção geométrica. Todos temos frustrações, medos, raivas, fragilidades, cansaços e opiniões (muitas, tantas opiniões). E apressamo-nos a endereçar responsabilidades e culpas. Isto esteve ou está mal, aquilo também, com A não concordo, B deveria mandar, recomendar ou orientar assim, C tem de decidir assado ou obrigar cozido, D errou ou não andou lá muito bem, E errará por certo, e “não sabem nada, só fazem asneira, que choldra”, como sempre, e assim sucessivamente. A culpa é de uns e/ou de outros, até talvez seja de todos. Menos nossa. Nossa, de cada um, não é. Nunca é. E a responsabilidade também não. Sempre à espera de um filho de Iorque, pai e mãe que ponha ordem no mundo. E alguns creem mesmo que são esse filho, sabedor e salvífico, predestinado e sempre certo; como Ricardo iii, um corcunda mais moral do que físico (apesar da caricatura – ou figura de estilo – do dramaturgo inglês), que acumulou erros atrás de erros, até ser vítima principalmente de si mesmo em Bosworth Field.

Não é tempo de prescindir do escrutínio e da exigência. Não é tempo de aceitar ou recusar tudo, e muito menos de prescindir da consciência crítica e da cidadania atenta. Mas também não é tempo de esquecer – mesmo que estejamos em estado de saturação pandémica e habituados a décadas ou séculos de sobrevalorização dos encargos e das culpas de (dos) outros – que antes de tudo o mais há a responsabilidade individual. Não é altura da deformação da coluna, mais ou menos metafórica, do último rei Plantageneta, que nos alivie do fardo da nossa responsabilidade, como se tudo residisse e repousasse, pesado, nos ombros de outros – sejam eles o Estado, esta ou aquela pessoa ou um grupo mais ou menos informe de conhecidos e desconhecidos que consideramos inimigos, incompetentes ou os autores, por ação ou por omissão, do que nos assola, perturba e acossa. Cada um no seu papel, em seu sítio, e há responsabilidades e responsabilidades. Mas a individual, a de cada um de nós (todos) – ponderada, equilibrada e calibrada com sentido de si e dos outros –, está, como sempre deve estar, no princípio e no fim de tudo. Isso não nos salva necessariamente, mas o contrário também não. Seguramente. Aliás, só piora.

 

Escreve quinzenalmente à sexta-feira

 


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