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António Luís Marinho 23/10/2020
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

Um dia na cidade

Quando chega ao emprego, o cidadão avança para o seu lugar, onde experimenta o primeiro “argasmo”, isto é, a satisfação plena pela inalação direta de ar pelo nariz.

O cidadão cumpridor acorda pelas sete horas da manhã e enfrenta a cidade uma hora depois.

Antes de sair de casa, coloca a máscara, desinfeta as mãos, confere a carteira e atira-se a mais um dia.

Vai de metro para o emprego e recorda sempre a frase publicitária de Alexandre O’Neill, que nunca foi aprovada: “Vai de metro, Satanás!” E pensa que Satanás pode agora bem ser a pandemia.

O metro, continua o cidadão a pensar, é um exemplo interessante de “distanciamento social”, uma vez que, em média, são os cidadãos com menos posses que o utilizam. Por outro lado, no que respeita a “distanciamento físico”, nas horas de ponta é tudo aquilo que não deve ser em tempos de pandemia. Vão todos bem apertadinhos, quase máscara com máscara.

Quando chega ao emprego, o cidadão desinfeta de novo as mãos e também as solas dos sapatos, compõe a máscara e avança para o seu local de trabalho onde, por estar a distância razoável da colega de trabalho, experimenta o primeiro “argasmo”, isto é, a satisfação plena pela inalação direta de ar pelo nariz.

Quando faz a pausa do meio da manhã para o cafezinho, põe a máscara e desce as escadas até à rua para fumar o seu cigarro. Atento, procura o local apropriado para deixar a beata, não vá o diabo (de novo Satanás) tecê-las e chocar com uma autoridade fiscalizadora e ser talvez o primeiro português a ser multado por atirar a beata para o chão.

Entretanto, de regresso ao local de trabalho, recebe um telefonema do hospital a avisar que a consulta que pediu há um ano foi de novo adiada, neste caso para mais dois meses.

Quando sai do emprego, ao final da tarde, vai a correr à loja de telemóveis mais próxima para, finalmente, trocar o seu modelo antiquado por outro mais moderno que permita instalar a aplicação StayAway Covid, obrigatória, não vá outra autoridade fiscalizadora aparecer e transformá-lo também no primeiro português a ser multado por “ausência de aplicação”.

Com o novo telemóvel, vai aproveitar também para instalar a aplicação IVAucher, que lhe vai permitir acumular créditos correspondentes ao montante do IVA pago em restaurantes para gastar num bom jantar com a família.

Concluída a compra, segue para o metro e para novos apertos sociais. Durante a viagem, perde-se em divagações: onde irá gastar os dois euros que vai poupar por mês, no próximo ano, pela baixa da taxa de retenção do IRS?

Quando chega a casa, compara o seu dia com o da mulher, professora, e os dois filhos, também regressados da escola.

Depois do jantar, cada um vê programas diferentes nas televisões ou nos tablets. As notícias falam da novela do Orçamento para 2021, enquanto as outras novelas falam de tragédias e algum amor.

Quando o cidadão, por fim, se deita e adormece, sonha com um mundo longínquo, irreal, de festas com muitos amigos que se cumprimentam, imaginem, com beijos e abraços.

 

Jornalista

 


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