1/12/20
 
 
Luís Newton 22/10/2020
Luís Newton

opiniao@ionline.pt

Que se lixe o défice

A reestruturação da economia deve ficar para depois, porque a prioridade deve ser assegurar os rendimentos das famílias.

Foi com enorme espanto que registei as declarações do Governo de Portugal apontando para a redução do défice como uma prioridade.

Ficou-me a imagem de um cangalheiro a regozijar-se pelos bons resultados da sua atividade.

Não, senhor primeiro-ministro, o défice não deve ser a prioridade. A reestruturação da economia deve ficar para depois, porque a prioridade deve ser assegurar os rendimentos das famílias.

O mundo está perante uma nova crise social e económica, em tudo semelhante à crise de 1929 (que, curiosamente, foi precedida de uma pandemia).

A covid-19 veio destruir as regras do jogo, ameaçando fazer colapsar o sistema financeiro vigente. E este Governo continua a querer implementar as doutrinas clássicas, como se tudo estivesse igual a 2019.

O sistema assente numa economia de massas insiste neste modelo de oferta, procurando adaptar-se, apenas e só, aos rácios da DGS. Isto favorece a incerteza laboral e social.

A ansiedade económica e a miséria são o maior perigo social conhecido.

Empregados e empregadores veem-se muitas vezes entre as regras de saúde pública e a necessidade de gerar receita, algo que potencia o incumprimento de quem está desesperado para sobreviver.

Temos de evitar que não tenham de escolher entre cumprir as regras ou alimentar os seus filhos.

Precisamos de medidas extraordinárias para proteger todos. Medidas que se querem tão eficazes como pontuais.

Neste momento extraordinário temos de proteger os vencimentos, fator basilar no equilíbrio familiar (principal pilar do equilíbrio social).

Por um lado, aproveitar a bazuca europeia (a fundo perdido) para garantir vencimentos com quebras de faturação, neste período, superiores a 30%, protegendo assim as remunerações familiares (e os empregos). Em situações como a que estamos a viver, as comunidades não podem ser as primeiras vítimas do sistema económico.

Deve ser também criada uma linha de apoio financeiro para todo e qualquer comércio local que tenha visto o seu funcionamento limitado a níveis altamente prejudiciais para o negócio e que compense até 50% da receita perdida neste período.

O regresso ao teletrabalho é para muitos, mas não para todos. Há quem não possa proteger-se em casa nestes momentos porque precisa de estar na rua para o país continuar a funcionar.

É, por isso, imprescindível legislar a criação de um subsídio (extraordinário) pandémico para os profissionais de saúde, bombeiros, polícias, profissionais de educação e profissionais do retalho que represente um aumento de 25% do seu vencimento durante o estado de calamidade pública” ou outro mais gravoso.

Com este foco nas profissões essenciais, muitas vezes esquecemos uma parte importante do mundo que não pode parar: as instituições de solidariedade social e os seus voluntários. Têm-me chegado inúmeros testemunhos de pessoas cujas instituições de que dependiam para sobreviver fecharam, seja por falta de apoios seja de voluntários.

É, por isso, fundamental assegurar condições às IPSS. Para tal deve ser criada uma linha de apoio financeiro a fundo perdido, também com as verbas que estão orçamentadas na grande bazuca europeia.

Portugal teve de decretar a suspensão da sua economia, mas as vidas das pessoas não se suspendem.

Devem ser elas as principais destinatárias das verbas a fundo perdido.

Por isso, senhor primeiro-ministro, neste momento extraordinário, que se lixe o défice.

 

Presidente da concelhia do PSD/Lisboa e presidente da Junta de Freguesia da Estrela


Especiais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×