1/12/20
 
 
Intelligence estratégica e comportamento geopolítico

Intelligence estratégica e comportamento geopolítico

Estando a compreensão do comportamento geopolítico dos Estados centrada nas perceções dos seus líderes estratégicos, os estudos de intelligence apontam também para a importância do cruzamento de vários níveis de análise.

No quadro da intelligence estratégica (IE), o estudo da forma como os Estados realizam os seus objetivos estratégicos, em especial através de instrumentos operacionais de política externa, implica a compreensão do comportamento geopolítico dos seus agentes político-diplomáticos, militares e económicos, i.e. perceber o que estrutura e influencia as narrativas geopolíticas dos governantes e a sua perceção das relações internacionais e dos outros protagonistas.

Sob o insight da IE, com os contributos dos estudos políticos e estratégicos e da psicologia política, a análise do comportamento geopolítico compreende a apreensão dos elementos-base da mundovisão e do contexto das interações com adversários e aliados, e a identificação de processos cognitivos e socioculturais que definem atitudes e convicções.

Estando a compreensão do comportamento geopolítico dos Estados centrada nas perceções dos seus líderes estratégicos, os estudos de intelligence apontam também para a importância do cruzamento de vários níveis de análise, que compreendem o crescente papel de atores informais e a influência da designada “geopolítica popular”nacional e estrangeira (mass media, opinião pública, redes digitais) na ação dos líderes e na agenda da política externa dos Estados.

Baseado em OSINT, num exercício tentativo de sistematização de elementos de perceção de comportamento geopolítico, úteis ao desenhar de um constructo analítico, consideraram-se como estudos de caso quatro players geopolíticos: Angela Merkel, Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping.

Angela Merkel – A sua interpretação geopolítica da Alemanha combina uma perceção ética de base religiosa (o pai era um pastor protestante) com uma socialização política feita na ex-RDA, marcada pela rigidez organizacional leninista do Estado.

O equilíbrio entre uma diplomacia de valores e uma diplomacia de interesses é uma constante na conceção que Angela Merkel tem do papel de Berlim na cena internacional (vide a política adotada face aos refugiados e o pragmatismo nas relações com a China).

Aprofunda os conceitos de mitteleuropa e de mittellage – a Alemanha é força motriz do progresso da Europa e crucial para a estabilidade das relações EU-Rússia, através de uma forte aposta na diplomacia económica

A Mutti (mamã), como é apelidada pelos alemães, é reconhecida como exímia gestora de crises. Sustentada na narrativa do “equilíbrio”, usa a sua capacidade de gestão para posicionar a Alemanha entre o euro-atlantismo e a linha de projeção estratégica euro-asiática.

Donald Trump – Possui uma visão darwinista e hiper-realista das relações internacionais assente no self-interest – a ordem global é aquilo que cada ator conseguir fazer impor. Não há comunidade internacional, mas Estados individuais que lutam pelos seus interesses, pondo o multilateralismo num segundo plano.

 Na narrativa de Trump, a política externa não é um prolongamento, mas consequência da política interna (America First) – as doutrinas do “excecionalismo” e “soberanismo” sustentam a tese da Casa Branca de que os EUA podem gerir sozinhos as crises com impacto global (ambientais, económicas, securitárias). O mindset de empresário leva o Presidente a aplicar princípios da microeconomia à macroeconomia (a barganha dos negócios projetada na diplomacia económica).

O périplo que realizou por Riade, Jerusalém, Belém e Vaticano simboliza uma conceção pararreligiosa (evangélica) que tem da política externa, transformando o poder numa virtude: a perceção missionária do papel dos EUA nas relações internacionais (We are protected by God). Tal está presente na narrativa da disputa geoeconómica com Pequim, com referências ao “vírus chinês”, e na demonização do Irão, ao mesmo tempo que promove a aproximação entre Israel e alguns Estados árabes.

Xi Jinping – Faz parte dos taizidang (elite dos descendentes dos históricos do Partido Comunista Chinês). No seu percurso político, Xi vivenciou a China como um poder revolucionário e como um poder revisionista. Já no comando do PCC, aprofunda a condição da China como poder sistémico geoeconómico e como poder militar emergente.

É um “idealista prático”, misto de Mao (no PCC é tratado como lingxiu – líder. Só Mao Tsé-Tung era assim referido) e de Deng, mas também influenciado por Confúcio. Usa o nacionalismo tecnocrático como ideologia funcional do “sonho chinês”: modernizar a economia e tornar a RPC num major player geoestratégico, tecnológico e científico (liderar o digital).

Xi Jinping tem uma leitura geopolítica da China inspirada na Longa Marcha (do campo para a cidade, da periferia para o centro). Tal é aplicado às duas faixas de progressão geoeconómica da Belt Road Initiative (marítima e terrestre) que têm o seu terminus no centro (espaço euro-atlântico), expressão de uma política externa gradualista de inspiração maoista (só através da experiência se alcançam ideias justas).

Vladimir Putin – Como oficial do KGB em serviço na ex-RDA, assistiu à queda do Muro de Berlim e ao que descreve como a “paralisia do poder” na ex-URSS e a sua captura pela ideologia do Ocidente.

 Como Presidente, Putin defende que o poder da Rússia é aquilo que for o poder do líder ao serviço do engrandecimento da pátria. Sustentado no nacionalismo, numa etnicidade eslava e na Igreja Ortodoxa (Moscovo é a Terceira Roma) e apoiado pelos siloviki (elite da intelligence e da segurança), Putin adota o “excecionalismo” (derzhavnost) como a base das políticas interna e externa da Rússia.

Inspirado no Império Bizantino, Putin vê o mundo segundo a lógica das esferas de influência, o que torna o “estrangeiro próximo”( Ucrânia e Bielorrússia) e o arco Mar Negro-Mediterrâneo vitais para a segurança e defesa da Rússia. Seguidor da teoria do heartland e de um destino geopolítico russo, Putin põe a Rússia como o centro de gravidade de uma geopolítica euro-asiática que minimize a pressão chinesa na Ásia central. Defende o fim do Washington Consensus. Tem na exploração de contradições entre a UE e os EUA e numa pipeline diplomacy os vetores da sua política externa para o espaço euro-atlântico, apoiados numa estratégia de desinformação.

No quadro da produção de intelligence estratégica orientada para a análise prospetiva e para a gestão de fatores de surpresa estratégica, a realização de estudos sobre comportamento geopolítico constitui um valor acrescentado no apoio à tomada de decisão em política externa.

 

Licenciado em Antropologia, especialização em Sociologia das Regiões Tropicais (ISCSP-UTL), mestre em Estudos Africanos (ISCSP-UTL), doutor em Ciência Política (ISCSP-UTL) e agregado em Estudos Estratégicos (ISCSP-UL)

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