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António Cluny 20/10/2020
António Cluny

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A maledicência e a intriga como estratégia política

Com o acumular insinuações irresponsáveis e mesquinhas, se vai erodindo o edifício institucional da democracia e quem acaba por ganhar são apenas os que estão declaradamente contra ela e não o omitem ou disfarçam.

Varre o país – muito pouco inocentemente – uma vaga de pura maledicência e de intriga política, que, além do mais, danifica, muitas vezes injustamente, a honra e prestígio pessoal e profissional de pessoas que nelas são apenas aleatoriamente envolvidas e tidas, se necessário, como danos colaterais.

Vários têm sido os casos, manifestamente artificiais e maldosos, que afetaram, mais recentemente, desta vez, alguns profissionais da justiça de grande qualidade e conduta irrepreensível.

Em outras situações, outras pessoas, de outros setores profissionais – por exemplo da saúde – foram e são, também, envolvidas e manchadas, crua e friamente, pelos mesmos promotores de factos políticos.

Os pretextos são, aliás, despiciendos: o fim útil e imediato justifica tudo.

Casos há, em que tal estratégia consegue mesmo associar alguns ingénuos ávidos de se apresentarem constantemente como politicamente corretos e que, à partida, nada faria suspeitar capazes de a integrarem; mas nem esses, descoberto e exposto publicamente o embuste em que se deixaram envolver, têm, mesmo assim, coragem e a honradez de se justificarem.  

Toda esta maneira de agir, longe de contribuir para a transparência, para o controlo institucional e para a salvaguarda do prestígio e isenção das instituições do Estado - como, por vezes, se apresenta ser sua intenção - propicia, afinal e tão só, o descrédito do regime democrático.

Em rigor, tais fatos só existem enquanto são discutidos e remexidos ante a opinião pública, morrendo logo que, para eles, é apresentada – por vezes tardiamente, reconheça-se - uma justificação lógica, verdadeira e definitiva.

Acontece, porém, que, se muitas vezes essa resposta é – sempre foi - evidente a quem lança as atoardas, ela não é tão óbvia para quem não conhece ou não está inserido no mundo em que, supostamente, tais casos ocorreram, ficando, pois, a pairar uma aura de suspeita sobre os alvos laterais que foram visados pelas campanhas difamatórias.

Em política, o que parece é – já alguém dizia – e, nos nossos tempos, a existência e duração dos factos políticos factos são as que os media lhe quiserem emprestar.

Aí, reside a sua vantagem corrosiva, a possibilidade da subsistência do seu efeito maligno: aí também as alianças cada vez menos inocentes.

Quando, por fim, a realidade emerge, manifesta e brutal, os autores de tais fatos, em vez de assumirem os erros próprios, vão mudando a sua configuração e, se aquilo que inicialmente parecia ser o motivo real de escândalo cai, para manter o seu efeito inicial, muda-se-lhe rapidamente a forma.

Em tal situação, e como sucedâneo do escândalo inicial, procura-se, então, no esclarecimento, entretanto dado por quem é atacado e sabe do que fala, uma possível deficiência na forma de comunicar a resposta.

Passa, então, a atacar-se resposta que foi dada: os factos mudaram, mas o escândalo pode assim persistir, sem que muitos deem conta da mutação operada.

E isso acontece sem se dar o braço a torcer sobre o fundo da questão, mesmo quando se reconhece, explicitamente, que o alvo principal visado não podia, em rigor, ter agido de acordo com o que foi acusado, pois não estava na sua intenção fazê-lo e nem sequer tinha poderes institucionais ou possibilidades reais para isso.

A razão de ser da invenção e do evidenciar de tais factos políticos imaginários pode ser múltipla.

Em algumas situações, visa apenas evidenciar quem, num dado grupo político, se encontra numa posição minoritária e quer, por isso, mostrar aos seus como se deve agir vigorosamente, para atacar a força política realmente opositora.

Noutras, pretende-se apenas desviar a atenção pública dos problemas essenciais que a afetam.

Nada disto é novo em política, e é sabido que acontece, até com mais frequência, quando certas forças têm dificuldades em encontrar soluções visivelmente alternativas às da maioria e têm, por isso, de se contentar com artifícios deste género.

No final, a força política opositora, mesmo quando convincente e vencedora do debate, não deixa, ainda assim, de ser beliscada, mas, se exerce funções de poder, tal beliscadura propaga-se, inevitavelmente, às instituições públicas que, nesse momento, serve.

No chão ficam, por fim, inutilmente maltratados, os que nada têm a ver com tão ardilosas estratégias, pessoas que, em muitos casos, sempre dignificaram as funções que exercem. 

Acontece que, com o acumular de tais atuações irresponsáveis e mesquinhas, se vai erodindo o edifício institucional da democracia e quem acaba por ganhar são apenas os que estão declaradamente contra ela e não o omitem ou disfarçam.

Talvez tenha chegado a altura de pensar, com seriedade, sobre esta forma de fazer política em democracia e as consequências que ela tem para as instituições democráticas e as forças que as defendem.

No desfazer de tais métodos perniciosos de agir em democracia, os media podem ter um papel relevante: retificando publicamente, pelo menos, os erros em que os induziram e propalaram.

Quererão fazê-lo?

 

 

 

 

  


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