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Índia. Sistema de castas mantém-se vivo e mortífero

Índia. Sistema de castas mantém-se vivo e mortífero

João Campos Rodrigues 16/10/2020 12:46

A violação de uma rapariga intocável por homens de uma casta superior, perante a apatia da polícia, abalou Uttar Pradesh, governado por um brutal monge hindu. Até em Sillicon Valley, entre engenheiros indianos, as castas são um problema.

Uma rapariga de 19 anos agonizou durante duas semanas, com uma fratura na coluna vertebral e cortes na língua, após ser violada em grupo num campo de milho nos arredores de Hathras, no estado indiano de Uttar Pradesh. Quando sucumbiu num hospital em Nova Deli, no final do mês passado, o seu corpo foi levado pela calada da noite, sem autorização da família, e cremado pelas autoridades, que negligenciaram exames forenses básicos. Hathras explodiu em protesto e manifestantes que exigiam justiça foram corridos à bastonada pela polícia, enquanto dirigentes locais do Partido do Povo Indiano (BJP), o partido governante, participavam em demonstrações de apoio aos violadores.

Esta história poderia ser impensável, não fosse um detalhe crucial. A vítima era de uma família de intocáveis, ou dalit, e os seus violadores eram thakur, uma casta guerreira dominante na região.

O arcaico sistema de castas, saído do caos após a queda do Império Mogol e cimentado pelo colonialismo britânico, está bem vivo na Índia e até mesmo além-fronteiras. Ainda em julho, o estado da Califórnia processou a Cisco, uma empresa tecnológica de Sillicon Valley, por permitir que engenheiros indianos de uma casta superior tornassem a vida de um colega dalit um inferno. Estima-se que mais de 90% dos informáticos indianos nos EUA sejam de castas superiores, apesar de a Índia providenciar bolsas para formação de castas inferiores. Face aos abusos, começa a ganhar destaque nas redes sociais o hashtag #DalitLivesMatter.

“Os indianos no estrangeiro adoram o seu estatuto de minoria modelo, a história do imigrante disciplinado e bem-sucedido. Se há dois problemas na Índia que os envergonham quando fazem manchetes são castas e violações”, escreveu o jornalista Sandip Roy, numa coluna no Times of India. “Como estudante na América, não me perguntaram os clichés habituais sobre ir à escola de elefante. Mas perguntaram-me se havia mesmo ‘intocáveis’ na Índia. Nessa altura balbuciei que a maioria de nós não queríamos saber disso na Índia urbana”, recordou. “Claro que poder não querer saber de castas é, em si mesmo, um privilégio de casta”.

Num país onde foram violadas dez mulheres dalit por dia em 2019, talvez em lado nenhum a situação seja pior que em Uttar Pradesh, o estado com a maior taxa de violência contra as mulheres. É governado por Yogi Adityanath, um monge hindu do BJP, fundador da milícia nacionalista Hindu Yuva Vahini, acusada de ser o músculo dos motins de Nova Deli em fevereiro, quando dezenas de muçulmanos foram abatidos a tiro, queimados e castrados. “A energia pode ser desperdiçada e causar danos se deixada livre e descontrolada. O poder das mulheres não requer liberdade, mas proteção”, disse em tempos o chefe do executivo de Uttar Pradesh.

Após a morte da rapariga violada em Hathras, Adityanath, originário da casta thakur, recrutou a ajuda de uma agência de comunicação de Bombaim. Num comunicado citado pelo Wire, explicou que, afinal, a vítima não foi violada. “Foi revelada uma conspiração para empurrar o estado para um tumulto entre castas”, lia-se.

Castas e horrores

“Fomos punidos duas vezes”, chorou o irmão mais novo da vítima de Hathras, Rakesh, cujo nome foi alterado pelo Hindu para proteger a sua identidade. “A primeira vez quando a minha irmã foi morta por esses rapazes thakur, a segunda vez quando a administração queimou o corpo dela. Tudo o que queria era esperar a madrugada e vestir a minha irmã com roupas novas para a sua última viagem”.

Para a família da vítima, a discriminação não é novidade. Habituou-se a isso em Boolagarhi, uma aldeia nos arredores de Hathras onde são uma de quatro famílias dalit num meio maioritariamente thakur e brâmane, uma casta de sacerdotes, os únicos acima dos thakur.

Reza a mitologia védica que os brâmanes nasceram da cabeça de Brama, o deus criador, enquanto os thakur emergiram dos seus braços. Aos nascidos em castas mais baixas, resultado de um qualquer pecado noutra reincarnação, restava a submissão, em particular para os dalit, significa algo como quebrado, oprimido ou esmagado. No código religioso Manusmriti, o primeiro texto em sânscrito traduzido para o inglês, escrito há cerca de dois mil anos, os castigos para os dalit incluem coisas como a inserção de ferros em brasa na boca, cortes nos lábios, nas nádegas e na língua. Este último tormento foi um dos sofridos pela rapariga violada em Hathras.

Hoje, os dalit constituem cerca de 200 milhões dos 1,3 mil milhões de habitantes da Índia. O sistema de castas foi abolido oficialmente nos anos 50, após a independência, mas os antigos intocáveis continuam relegados para o fundo da sociedade. Já os thakur, descendentes dos antigos nobres e marajás, controlam mais de 50% das terras cultiváveis do Uttar Pradesh, segundo o Print. Mesmo assim, perderam muitos terrenos para castas inferiores nas reformas agrárias dos anos 50 e 60, particularmente no oeste do estado, onde fica Hathras.

Parte desses terrenos foram parar às mãos da família da vítima, que tinha dois búfalos, uma bilha de gás e meio hectare de terra. Não é muito, mas é mais do que têm alguns vizinhos de casta superior, alimentando o ressentimento. Foi o que aconteceu com a família de Sandeep, um rapaz thakur de 18 anos, nomeado pela rapariga nos seus últimos fôlegos, que a violou em conjunto com o seu amigo Luv Kush e os seus tios Ravi e Ram Singh, ambos na casa dos 30 anos. Antes disso, em 2001, o pai de Sandeep já passara uns tempos preso por atacar o avô da vítima com uma foice, juntamente com Ravi.

“Quando o meu noivo voltou para esta aldeia, no final dos anos 90, dei conta de que os lojistas borrifavam com água o nosso dinheiro antes de o aceitar”, recordou Khema Singh Chauhan, que casou com um familiar da vítima e trabalha nas limpezas em Nova Deli. “Não mudou muito desde então. Ainda nos consideram animais”, resumiu ao Hindu.

Mesmo depois de Sandeep e os cúmplices serem detidos, a sua família mantém a sua inocência. Descrevem os vizinhos como neechi kaum (qualquer coisa como escumalha) e riem-se até da ideia de que algum familiar seu tocasse numa dalit, nem que fosse para vender biryani (um prato típico indiano). “Nós vendemos biryani num prato de plástico e não misturamos negócios com castas”, disse ao jornal indiano Bhanu, o irmão mais novo de Sandeep, entre gargalhadas.

 

Negligência e ódio

Não foi apenas a barbaridade do crime que chocou a Índia, mas a ação das autoridades. A rapariga foi encontrada num campo pela mãe, a sangrar da língua, coberta de nódoas negras, e foi levada para a esquadra. Num vídeo visto pela BBC, a vítima foi questionada pela polícia sobre uma laje de pedra, cheia de dores, falando com dificuldade, contando que fora violada e nomeando até os responsáveis. Contudo, a queixa nem sequer foi anotada pelos agentes. “Eles nem sequer chamaram uma ambulância para a levar ao hospital”, disse Swaran Darapuri, um antigo polícia, tornado vice-presidente da People’s Union for Civil Liberties de Uttar Pradesh.

Enquanto a rapariga lutava pela vida não foram usados os kits de violação dentro de período de quatro dias, o necessário para que tenham validade. Os testes foram feitos 11 dias depois, com as autoridades locais a proclamarem que, como não havia sémen, não houvera violação – uma declaração falsa, negada pelos médicos do Hospital Jawaharlal Nehru, em Nova Deli, para onde a vítima foi transferida.

“Violações e atrocidades contra os dalit tornaram-se assuntos políticos em eleições. Por isso, os governos tentam manter os números baixos”, explicou Darapuri ao canal britânico. O assunto é ainda mais crucial no estado de Uttar Pradesh, onde Adityanath é acusado de estabelecer um regime de supremacia thakur.

Uma expressão popular para tal é “thakur hone ka mai” – a arrogância de ser thakur, a nostalgia dos tempos do domínio completo sobre as castas inferiores. “É o sentimento de que 'eles costumavam levantar-se quando entrávamos na sala'. Agora querem afirmar-se”, descreveu Rahul Verma, investigador do Centre for Policy Research, ao Print. “Obviamente, o pior dessa reação, dessa raiva, recai sobre as mulheres”.

 

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