26/10/20
 
 
José Paulo do Carmo 16/10/2020
José Paulo do Carmo

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Na gaiola do teu terceiro andar

Depois disto precisaremos mais do que nunca de momentos que nos façam esquecer este pesadelo e nos façam sonhar novamente. Não deixes que te tranquem irremediavelmente “na gaiola do teu terceiro andar”…

Assim fecha, com chave de ouro, o nosso saudoso Cesário Verde (um dos mais proeminentes poetas portugueses do séc. XIX) um poema de sua autoria e que se intitula “Noite fechada”. Podemos nós interpretar à luz dos dias de hoje e aplicar-lhe todo um novo significado. Guardem bem as vossas recordações dos tempos em que podíamos ir beber um copo, vaguear pelas ruas com cheiro a boémia e um travo a liberdade. Esse tempo não voltará tão cedo, mesmo que tudo passe. Porque nada ficará igual. E o caminho cada vez mais estreito e o espartilho cada vez mais apertado são sinónimos de que querem controlar-nos a vida, dominar-nos os tempos e deixar-nos para ali enclausurados, como numa gaiola de um qualquer terceiro andar.

A noite vive momentos de profunda tristeza, de uma angústia dilacerante e de um profundo desespero. Para lá do confinamento não se vislumbra qualquer intenção de retoma, só uma sombra do que já passámos. Dizia um amigo (dono de espaços noturnos), há uns dias, que enquanto no Verão passado recebia cerca de 300 chamadas e mensagens por noite, quando tinha o mundo aos seus pés, muitos “amigos”, companheiros de festa, irmãos de risadas até de manhã, neste verão, se calhar teria recebido ao longo do mês de agosto 30 chamadas, se tanto. Toda a gente fugiu, esconderam-se na sua azáfama, nas notícias que apregoam o fim do mundo. Ninguém quer saber de quem desde março não pode abrir portas, não consegue desenvolver o negócio onde colocou todas as suas fichas, um negócio legal, que paga impostos e que produz muita da vida que as pessoas refletem durante o dia.

É por isso com preocupação que olho para o canto para onde foram varridos os empresários que trabalhavam em bares e discotecas, mas também artistas, seguranças, músicos, produtores, técnicos e todos os que direta ou indiretamente se dedicam a divertir-nos, a fazer-nos sonhar, e que nos ajudavam a limpar a cabeça perante momentos menos bons. Vejo depressões, desilusões, traições e abandonos. Gente que era importante e perdeu o palco, pessoas que foram esquecidas quando ainda há bem pouco tempo eram desejadas e idolatradas. Não há medidas, escasseia a informação, os holofotes mudaram de sítio. De repente, a noite escureceu ainda mais. Lá fora vamos ouvindo falar de subvenções, de planos de recuperação, de fundos de compensação, de estatutos especiais. Lá fora sabem que o turismo também se faz destes espaços e que não estão lá só quando sabe bem.

Por cá, ninguém quer saber. Ainda arranjam formatos para se abrirem espaços para que mesmo sem faturação se mantenham postos de trabalho. Eu sei que é difícil abrir em condições normais, percebo que não se permitam ajuntamentos e focos de transmissão, mas se as pessoas têm negócios legais, que são permitidos por lei e que pagam impostos, essas pessoas não podem ser esquecidas quando são impedidas de desenvolver o seu trabalho. Essas pessoas têm de ser compensadas. Merecem que lhes deem a mão. Porque a noite representa muitas vezes diversão, loucura e descontração, não podemos de repente apagá-la como se fosse acessória. São vidas que estão tanto em jogo como as nossas. Merecem respeito e atenção. Porque depois disto precisaremos mais do que nunca de momentos que nos façam esquecer este pesadelo e nos façam sonhar novamente. Não deixes que te tranquem irremediavelmente “na gaiola do teu terceiro andar”…

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