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Uma janela de oportunidade

Uma janela de oportunidade

Joana Bento 14/10/2020 14:15

A pandemia causada pela COVID19 importou para todos uma nova realidade cujo desenrolar é preocupante pelas consequências nefastas para a sociedade, as diferentes comunidades nos diferentes territórios.

Os números desta nova realidade global impressionam, quer pelo número de fatalidades, quer pelo impacto de tantos que testaram positivo a esta maleita, com ou sem sintomas, bem como pelas respostas que foram implementadas para “achatar a curva” e preparar o “desconfinamento” desejável e necessário. 

O vírus SARS-Cov-2 trouxe uma crise económica e social tão intensa, tão avassaladora e  asfixiante a todo o planeta que obriga a ter respostas incisivas e determinadas em várias frentes, a diversos níveis, imprescindivelmente alavancadas num estado social forte e capaz de ser assertivo para as famílias, para os trabalhadores e para as empresas, de forma integrada perante as necessidades existentes!

A par do visível planeamento atempado e adequação versátil das respostas sociais para a retoma das nossas vidas, existiram dúvidas, legitimas, de alguns cidadãos perante o seu presente. Normal. Natural. Compreensível! Importa responder e esclarecer.

A COVID19 levou, por exemplo, os nossos emigrantes a contactar, por diversos meios, os familiares e amigos antes do regresso a casa para férias. Obrigou os que decidiram vir, e bem, a fazer testes de despiste da COVID19 de forma a chegarem ao encontro tão desejado por todos e afirmar que “fiz o teste, deu negativo”.

Quão bem os percebi! Também eles estavam com receio de serem apontados como “disseminadores” da pandemia. “É o que dá ser estrangeiro na sua própria terra”, afirmaram-me muitos…isto enquanto apontam para as diferenças nas respostas de no combate à pandemia entre os diferentes países dum mesmo espaço comunitário e os preços dos testes a que foram submetidos. Olhados de lado, temem mais um rótulo extremamente injusto. Desta vez um rótulo que acrescenta até…crueldade!

Devemos-lhes tanto, não só as transferências financeiras, que têm sido, e são,  fundamentais para colocar filhos a estudar, para potenciar a construção e a reabilitação urbana, para cuidar dos terrenos (ou pedir para cuidar, a bom preço, dos terrenos dos perímetros periurbanos). Devemos-lhes a forma como cada um deles cultiva com amor e leva Portugal para lá de Vilar Formoso.

É arrepiante a forma como se está a criar um sentimento de rejeição, que condeno veementemente, perante os nossos emigrantes. Há que combater e exterminar essa vil reação. Com urgência e sem hesitação!

Devemos, aos que não desistem de voltar, o arejamento das casas e dos comércios e mercados locais, não só das suas janelas, mas das de todos nós, aquelas que abrimos para deixar entrar a brisa da noite e as certezas de um futuro melhor.

A brisa destas noites, que nos dão conta que não há festa na aldeia, nem nas aldeias vizinhas num “querido mês de agosto” inédito e pouco previsível, pelos menos quando nos despedíamos deles no ano passado.

Há janelas que não se abriram e com elas os movimentos de caixa dos pequenos comércios não é feita da mesma forma, é residual e o consumo maioritariamente feito pelos cidadãos que com tenacidade e obstinação resistem vivendo nas aldeias e vilas de Portugal.

A almofada financeira gerada no Verão pelo aumento de visitantes não permitirá, desta vez, ganhar folgo e folga para o período do Inverno, também ele incerto pela imprevisibilidade da evolução pandémica.

Até os santos ficam mais pobres com as ausências de esmolas nas colchas estendidas à espera do bom contributo.

Esta emergência mundial fustigou as gerações mais jovens que se deparam com uma inesperada crise económica, penalizou as mulheres nas mais diferentes áreas das suas vidas, agravou desigualdades entre homens e mulheres, acentuou assimetrias étnicas.

Importa planificar o futuro, mesmo com o surgimento de surtos localizados, ou até mesmo com eventual “segunda vaga”, com adoção de medidas ajustadas de acordo com a evolução da situação epidemiológica da SARS-COV-2.

O que nos trouxe a pandemia que consigamos aproveitar para futuro?

Em termos de saúde pública e do sistema nacional de saúde a necessidade de continuar a apostar neste domínio é incontornável.

Ficou patente – a urgência a necessidade de acelerar a digitalização em todas as áreas essenciais, como a educação e o ensino superior, na justiça, na agricultura e essencialmente na saúde.

No Turismo os portugueses ficaram mais disponíveis, face às limitações justamente fundadas no seu receio de se deslocar para fora de Portugal, para conhecer melhor o seu território, num espírito mais patriótico, num sentido útil e pragmático, fazendo lembrar o slogan “Vá para fora, cá dentro”. 

Esta reação também se fez sentir na produção agrícola e na opção por consumir produtos locais e nacionais e manter, mesmo em confinamento, os mercados locais abertos mediante a adoção das medidas recomendadas pela Direção Geral de Saúde (DGS).

Esse espírito patriota e patriótico foi sentido. Foi e será positivo.

Neste contexto de dúvida e incerteza, em conversa com os empresários hoteleiros no interior de Portugal, percebemos que há taxas de ocupação muito boas nas unidades hoteleiras. Há vários motivos para a boa taxa de ocupação, afirmam, pela oferta diferenciadora dos serviços que prestam, pela forma como se reinventaram para criar mais segurança e respeitar as normas da DGS para afiançar que é seguro passar os merecidos dias de descanso aqui, no interior. Uma oportunidade a ser aproveitada em plena crise.

É percetível que houve quem sentisse a necessidade de “fugir” do litoral e procurar aqui locais seguros, nas águas gélidas das ribeiras, para muitos desconhecidas, em territórios e comunidades que nunca visitaram antes da pandemia, na era do Instagram ou do TikTok!

Urge, pois, aproveitar esta uma oportunidade para fidelizar os novos descobridores destas paisagens. Se são únicos estes dias por cá, imaginem como eram em tempos sem limitações de distanciamento social, o bem receber sempre esteve presente, o saber-fazer e criar novas experiências sempre estiveram presentes. O tempo dirá o quanto soubemos aproveitar este fluxo de visitantes.

Deputada do Partido Socialista

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