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Afonso de Melo 13/10/2020
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O baloiço está parado

NA PRAIA DA BARRA, MESMO EM FRENTE AO FAROL, havia um baloiço como o baloiço do Mário de Sá Carneiro que nos ensinou que mais vale morrer de bibe do que de casaca. Eu tinha uma amiga chamada Filipa que, ao fim da tarde, trazia a irmã, Minana, de cabelos milagrosamente ruivos, para que eu a empurrasse nesse baloiço de um sol que se põe devagarinho. Não há movimento mais tranquilizador do que o de um baloiço, mas os cabelos vermelhos da menina inquietavam o farol que, de repente, começava a roncar para afastar nevoeiros. Se algo me confunde é a forma como o tempo passa. É estar e deixar de estar. E estar outra vez e voltar a deixar de estar. Não sei do baloiço da Barra, passei por lá todos os dias, em agosto e em setembro, e não reparei sequer se ainda existe. Para mim deixou de existir a partir do momento em que os meus filhos cresceram e deixaram de andar de bibe e de baloiço e eu deixei de ter meninos a quem empurrar à medida que o sol se põe devagarinho lá atrás do mar, o que significa que o tempo vai continuar a passar mesmo que eu não queira, mesmo que eu faça, cá por dentro, um esforço enorme para que páre, carregando no travão dos dias e das noites que nunca me obedeceu. 

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