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António Galamba 12/10/2020
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

As bandas, as orquestras e os tiques de Titanic

Um país governado sem visão e sem rumo certo é um navio com uma banda que alegra a populaça enquanto segue em rota de colisão com um icebergue totalmente visível em toda a sua extensão.

O imprevisto é parte da equação dos nossos quotidianos, ainda que os portugueses se julguem dotados de uma incomensurável capacidade de desenrasque que lhes permite suprir a ausência ou insuficiências de organização, método e previsão. A fé infinita no desenrascanço leva-nos a relaxar, abusar da sorte e abrir espaço a toda a espécie de exercícios de aproveitamento das circunstâncias, sem olhar às consequências estruturais.

Alguém que contacte com a atualidade nacional em diversas das suas expressões tem dificuldade em não deixar de constatar que a realidade está pejada de icebergues visíveis e que parece haver uma tentação em provocar as colisões que levam aos naufrágios, qualquer que seja o registo da orquestra. A narrativa não bate certo com a realidade.

Portugal e os portugueses têm enfrentado cíclicas dificuldades que intervalam com a afirmação política de narrativas governativas que geram a perceção de que tudo é possível para todos. Foi assim no início do anterior governo com o suporte de toda a esquerda e, de algum modo, está a voltar a ser assim com a expetativa da bazuca financeira com os dinheiros que Bruxelas dará e emprestará. A realidade é outra. O dinheiro, por muito que seja, não chega para tudo e para todos. E em vez da autoflagelação coletiva de “Portugal, país de corruptos”, deveríamos a estar a estabilizar um compromisso coletivo sobre os critérios e os caminhos para a sua aplicação num quadro e resposta a problemas estruturais, a necessidades presentes e a desafios de futuro. Mas não, montou-se o circo António Costa Silva, tudo é prioridade, tudo quer tudo e tudo é corrupto. E, pelo meio, uma vez mais pela sobrevivência política de António Costa, generaliza-se a perceção de que tudo é possível, entre os ziguezagues de umas vezes à Esquerda, outras vezes com o PSD, 15 minutos depois de diabolizar o bloco central. Um país governado sem visão e sem rumo certo é um navio com uma banda que alegra a populaça enquanto segue em rota de colisão com um icebergue totalmente visível em toda a sua extensão.

É ouvir a banda a tocar com a realidade da covid-19 ao proclamar que o país não vai confinar de novo quando são evidentes no terreno a debilidade da preparação de meses para a segunda vaga, na interseção com o tempo mais frio, o regresso de rotinas escolares e a época da gripe. Na psicologia de alguns, se não há risco de voltarmos ao confinamento, porque razão devem ser mais rigorosos no cumprimento das regras das autoridades de saúde ou porque não conviver se a outros, com maiores responsabilidades comunitárias, é possível que convivam? As narrativas em presença oscilam entre o otimismo irritante das lideranças dos órgãos de soberania e o reiterado negativismo sindical, entre o está tudo bem e o está tudo mal. Falta senso e sentido de equilíbrio que imponha, por exemplo, o uso de máscaras em espaços públicos urbanos de municípios com mais de 10.000 habitantes. Para que se aplique já o que será inevitável com a escalada de casos positivos e mortes, por covid e por outras razões.

É ouvir a banda a tocar, na semana da invocação da República, no caso do Tribunal de Contas, em modo esquizofrénico. O governo resolveu mudar a liderança, o líder do PSD concordou com o nome proposto, o Presidente da República anuiu prontamente, mas elogiou ou condecorou o exonerado, o líder do PSD fez saber que concordou, mas defendia a continuação, o Presidente da República fez saber que concordou, mas valorizava o trabalho realizado e importava manter o combate à corrupção. E siga a banda, como se não se contribuísse para a degradação do sistema e para os populismos.

É ouvir, noutras latitudes, a banda a tocar no processo eleitoral do Sport Lisboa e Benfica, com as alegadas alternativas a desenvolverem narrativas e estratégias de destruição massiva que fazem dos adversários, dos crimes de Rui Pinto em julgamento e das distorções judiciais meninos de coro. Um alienígena, com base na conversa de café e das redes sociais elevadas a propostas alternativas à atual liderança, concluiria que o Benfica jazia de novo no fundo do oceano como depois do choque com o icebergue Vale e Azevedo. O drama é que a realidade, da obra, das conquistas, da solidez, do conhecimento e do que é preciso fazer no futuro, desmentem as narrativas do bota-abaixo, dos embustes e de um elitismo serôdio sem sentido no século XXI. O drama é que não há orquestra, porque se admite que nem tudo correu como pretendido, mas também não existem os acordes “nada se aproveita” da banda do bota-abaixo. Vieira debateria certamente com todos se as campanhas visíveis e invisíveis estivessem centradas no futuro, nas propostas para o mandato, em vez do esforço de implosão institucional daquilo que até os adversários desportivos e as instâncias internacionais reconhecem ter sido feito. Fazê-lo, com as bandas bota-abaixo em presença, era elevá-las a orquestra do Titanic, sem dúvida, rumo a um icebergue visível, o da autoflagelação institucional do Sport Lisboa e Benfica. Se querem mais, é colocarem-se na rota da afirmação positiva das propostas alternativas, até porque se o desgaste fosse o que dizem, o poder cair-vos-ia no regato, quase sem esforço.

Portugal precisa de orquestras que toquem peças musicais para a realidade, não para entreter, mas para a transformar em função do uso racional das disponibilidades. Persistir nas bandas de sempre, dos nichos, dos egos, dos interesses particulares e dos bota-abaixo é ir ao encontro dos icebergues. Tudo o que não precisamos.

NOTAS FINAIS

EMERSO. O caldense de A-dos-Francos, João Almeida (Deceuninck-Quick Step) continua a brilhar no Giro de Itália, afirmando-se como uma referência do ciclismo nacional. Parabéns.

SUBMERSO. Uma (publi)reportagem numa revista sobre a estrutura de uma candidatura de campanha às eleições do SLB sublinha a parolice da invocação frágil de pessoas e entidades que alegadamente fizeram campanhas eleitorais. Por esse critério enriquecia o currículo internacional. Duas campanhas presidenciais norte-americanas, duas britânicas, três espanholas, uma presidencial francesa e duas legislativas; duas alemãs, duas suecas, duas italianas, uma norueguesa, uma austríaca e quatro campanhas eleitorais para o Parlamento Europeu, enfim, um fartote.

AFUNDADO. O inacreditável modus operandi de Donald Trump sublinha as fragilidades dos funcionamentos comunitários perante os desvios das criações democráticas. E o problema é que a criatura, continua a ter criadores e pode voltar a ganhar. É esperar que não.

Escreve à segunda-feira

 

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