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José Paulo do Carmo 09/10/2020
José Paulo do Carmo

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Saúde Mental

A verdade é que tratamos os problemas do foro psicológico como algo básico e que como não mostra qualquer ferida ou limitação na capacidade motora tendemos a achar que são invenções ou desculpas da nossa cabeça. Nada mais errado. 

Este fim de semana marca a celebração do Dia Mundial da Saúde Mental. 10 de outubro para ser mais preciso e que visa chamar a atenção da sociedade para o reconhecimento de um problema transversal a todas as faixas etárias, culturas ou fatores sócio-económicos mas também para relembrar a necessidade de combater o preconceito e o estigma à volta da saúde psicológica mas também a desvalorização. E começo pela desvalorização. Esta semana recebi um cartoon onde duas amigas bebiam o seu chá. A primeira, (imagino eu) sabendo do estado da outra diz não perceber como pode ela estar depressiva já que viver é tão bom e a vida é tão bonita. Ao que a outra responde que também não percebe como ela se queixa de asma com tanto ar para respirar.
A verdade é que tratamos os problemas do foro psicológico como algo básico e que como não mostra qualquer ferida ou limitação na capacidade motora tendemos a achar que são invenções ou desculpas da nossa cabeça. Nada mais errado. Precisamente por não se verem (até agora) e por fazerem parte da parte do corpo humano que mais mistérios ainda guarda é que a torna tão imprevisível e difícil de tratar. É por isso um dos maiores desafios do século XXI a que não será alheia esta compulsão pelo consumo e a mudança de valores e princípios. Também porque o mundo se desenvolve nos dias que correm a uma velocidade impressionante que muitas vezes temos dificuldades em acompanhar. Sentimo-nos ultrapassados pelo tempo e pela vida. Frustrados pela falta de resultados e pela aparência do que parecem ser vidas felizes à nossa volta. E perguntamo-nos porque é que não resulta justamente comigo?
A sociedade coloca-nos num patamar de expectativa que nos destrói ao alcançá-la e nos deixa à deriva se ficamos pelo caminho. Sentimentos de inutilidade, de revolta com o mundo, com a sociedade e muitas vezes com a família, com os amigos e os que nos rodeiam mas sobretudo connosco próprios. Vontade de nos auto destruirmos ou tão só de desaparecermos. De nos fecharmos num canto escuro e esperar que o tempo passe e cure tudo. Mas muitas vezes não cura e o tempo vai passando e as nossas sensações piorando. Para piorar vivemos numa sociedade feita de aparências e vezes sem conta chocamos com a aparente felicidade dos nossos vizinhos e amigos. Tudo fachada, tudo parte de um invólucro que esconde a mais pura e dura realidade. Essa necessidade que nos incutem de termos que esconder o que sentimos, de não podermos demonstrar as nossas fragilidades, a nossa ansiedade, o que nos preocupa. Torna-nos num caldeirão de emoções que, quando explode, provoca danos, muitos deles irreversíveis.
Esta pandemia que apareceu do nada e teve o condão de mudar as nossas vidas só acelerou e tornou mais evidente aquilo que se desenhava como um dos grandes temas de saúde pública que mais terá que ser discutido e investigado. O conhecido e bem sucedido banqueiro português António Horta Osório referiu isso mesmo no seu depoimento na inauguração da Fundação José Neves. Sempre achara que os problemas de saúde mental eram para os outros e que quanto menos dormisse mais tempo ganhava no dia-a-dia. Até ao dia em que, assoberbado pelos problemas do Lloyds Bank que se encontrava em pré-falência e que o consumiam ao ponto de não o deixarem dormir, chegou ao ponto de esgotamento. Foi aí que percebeu a importância do sono, da meditação, de que precisamos de tratar a mente como tratamos do resto do corpo. Da necessidade de nos encontrarmos. Do bem estar, da ginástica psicológica, da nutrição e muitos outros componentes que estimulam essa saúde. Hoje em dia, no Banco, têm um programa que acompanha os funcionários e os educa nessas matérias. A Saúde Mental é um problema sério que não deve ser descurado. Ele está intimamente relacionado com a saúde física e com o rendimento em todas as áreas da nossa vida. Fingir que nada se passa não resolve. Existem profissionais para isso. Só quem passou por uma depressão sabe o quão profundo e avassalador pode ser...

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