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Louise Glück. Nobel da Literatura atribuído a uma poeta que prefere uma audiência “pequena, intensa e apaixonada”

Louise Glück. Nobel da Literatura atribuído a uma poeta que prefere uma audiência “pequena, intensa e apaixonada”

Diogo Vaz Pinto 08/10/2020 19:04

Para pôr um ponto final no capítulo mais negro da sua história, a Academia Sueca quis este ano evitar polémicas e jogar pelo seguro, o que não obsta a que tenha acabado por fazer uma das suas melhores apostas em muitos anos, dando protagonismo a uma poeta norte-americana que nunca procurou os holofotes, e que sempre se mostrou comprometida com uma só coisa: a força clarificadora da poesia num mundo submerso em ruído. 

Tudo o que não seja literatura, por uma vez, foi empurrado para a borda do prato. Este ano não haverá polémicas, e é possível que, dentro de alguns dias, mesmo aqueles que habitualmente se mostram interessados por estas coisas possam ter dificuldade em lembrar o seu nome. Louise Glück é a galardoada com o Prémio Nobel da Literatura 2020, uma poeta de uma enorme discrição cuja escrita assume por vezes um tom oracular, criando narrativas em que os factos se inclinam para a fábula, numa espécie de refracção da luz em que a mundanidade adquire uma qualidade mítica, e a dor e essas zonas sensíveis, magoadas, conseguem vencer a dificuldade de falar, entrando num transe, tenso, em que o verso se mostra assertivo, tantas vezes duro, permitindo a esconjura dessas experiências. A Academia Sueca justificou a sua escolha exaltando a “sua inconfundível voz poética que, com austera beleza, torna universal a existência individual”. A poeta norte-americana de 77 anos estreou-se há mais de 50 anos, com “Firstborn” (1968) e tem publicados 12 livros de poesia, além de uma poderosa colecção de ensaios (“Proofs and Theories”, de 1994). Nenhum deles foi traduzido na nossa língua, e o leitor potuguês apenas pôde descobri-la através de um conjunto de poemas do livro “Averno” (2006), traduzidos por Rui Pires Cabral, e que saíram no 12.º número da revista “Telhados de Vidro”, a qual é publicada pela editora Averno, de Manuel de Freitas e Inês Dias. Desse mesmo livro, vale a pena citar uns versos que nos dão uma ideia da tonalidade desta poesia, a qual, segundo o júri do Nobel, se caracteriza por uma busca de claridade: “É verdade que não há beleza suficiente no mundo./ Também é verdade que eu não tenho competência para devolver-lha./ Nem há sequer candor, mas nisso talvez eu possa ser útil.// Eu estou/ de serviço, mesmo estando em silêncio.// A sensaboria// miserável do mundo/ prende-nos a cada uma das margens, num beco (...) como se fosse do artista/ o dever de inventar/ esperança, mas a partir de quê? do quê?// a palavra em si mesma/ é falsa, um mecanismo para refutar/ a percepção– Na intersecção,// as ornamentais luzes da estação.// Eu fui criança aqui. Apanhando/ o metro com os meus livrinhos/ como se precisasse defender-me// deste mesmo mundo:// tu não estás só,/ disse o poema/ na escuridão do túnel.”

O presidente do Comité do Nobel Anders Olsson, elogiou a “sinceridade e intransigência” da sua voz, que é “cheia de humor e sagacidade mordaz”. “Nos seus poemas ‘o eu’ escuta o que resta dos seus sonhos e ilusões e ninguém é mais duro ao confrontar as suas próprias ilusões. Mas mesmo que Glück nunca tenha negado o significado do contexto autobiográfico não deve ser encarada como uma poeta confessional. Glück procura o universal e nessa procura inspira-se nos mitos e nos temas clássicos presentes na maior parte dos seus trabalhos. As vozes de Dido, Perséfone e Eurídice – as abandonadas, as castigadas e as traídas – são máscaras para ‘um eu’ em transformação, tão pessoal quanto universalmente válido”, acrescenta Olsson.

Num discurso marcado por uma invulgar e penetrante leitura crítica que lançou uma visão panorâmica da obra premiada, Olsson parecia empenhado em provar o compromisso da Academia Sueca em pôr um ponto final no período mais negro da sua história, com os últimos três anos manchados pelas alegações de abusos sexuais e de desvio de fundos, e que culminaram na condenação de Jean-Claude Arnault, marido da poeta e membro da academia Katarina Frostenson, a ser condenado por violação, em 2018. Frostenson acabou por abandonar a sua posição depois de se ter descoberto que tinha divulgado os nomes de anteriores vencedores, o escandâlo levou à saída de outros cinco membros e abriu um processo de revisão dos estatutos da academia. Depois da entrega do galardão ter sido adiada em 2018, tendo sido entregue à escritora polaca Olga Tokarczuk, o prémio relativo a 2019 ficou nas mãos do austríaco Peter Handke, e uma vez mais levantou-se uma onda de polémica em que inúmeras vozes se uniram num coro de condenação por ter sido distinguido um autor de incontestável mérito literário mas que se tornou um pária no sistema literário depois de assumir posições políticas difíceis de engolir, nomeadamente no apoio que deu ao líder sérvio Slobodan Milosevic na guerra dos Balcãs.

Já se esperava, assim, que este ano o Comité do Nobel jogasse pelo seguro. Isso apenas significa que este foi um desses anos em que, ao invés de um golpe de publicidade, a academia preferiu fazer alguma coisa pela divulgação de uma obra literária que merece ser reconhecida em todo o mundo. E a escolha de Glück funciona como um ponto de ordem depois de disparates como a tentativa do comité de se associar a um ícone como Bob Dylan – Leonard Cohen comentou memoravelmente que era como se quisessem “dar uma medalha ao Evereste por ser a montanha mais alta” –, o que resultou numa tremenda humilhação para aquele conclave, tendo sido difícil para os seus membros manterem a compostura e não revelarem a sua exasperação depois o esquivo bardo andar a fintá-los ao longo de semanas, acabando por aceitar a honraria, recusando, no entanto, estar presente na cerimónia de atribuição do prémio.

Louis Glück é apenas a 16.ª mulher a vencer o Nobel, mas deixando de lado essas contingências que projectam um carnaval de sombras sobre a justíssima atribuição deste prémio, num dos melhores ensaios publicados sobre esta obra, o poeta e crítico William Logan valoriza nesta poesia capaz de ser directa e insólita, cautelosa num momento, desbocada no seguinte, uma lógica oblíqua no rumo confessional que assumiu grande parte da poesia norte-americana desde Robert Lowell e Anne Sexton, e se Glück nunca alcançou o tipo de popularidade que fizesse dela uma presença na lista dos livros de poesia mais vendidos, como acontece com Mary Oliver (1935-2019) ou Billy Collins, conseguiu tornar-se a poeta mais celebrada do país, tendo sido nomeada poeta laureada em 2003, e conquistando uma batelada de prémios, entre os quais o Pulitzer com a obra “The Wild Iris”, de 1992, o Prémio Bollingen por “Vita Nova”, de 1999, e o National Book Award pela sua obra mais recente, “Faithful and Virtuous Night”, de 2014. E isto é um feito tão mais assinalável por esta ser uma poesia que, como refere Logan, está faminta de adjectivos, alimentando de uma dieta de verbos nervosos, numa intensidade que chega a tornar-se sufocante, em composições que se estendem muitas vezes por várias páginas, num registo negro, magoado e do qual é difícil desviar o olhar.

“Vagueias entre a terra e a morte/ que acabam finalmente/ por parecer estranhamente semelhantes. Os estudiosos dizem-nos// que não faz sentido tentar perceber o que desejas/ quando as forças que sobre ti contendem/ são capazes de te matar. (...) Eles dizem que há uma fissura na alma humana/ e que esta não foi feita para pertencer/ por inteiro à vida. A terra/ pede-nos que neguemos esta fissura (...) A canção da terra,/ a canção da mítica visão da vida eterna –// A minha alma/ estilhaçada pelo esforço/ de tentar pertencer à terra –/ O que farás tu,/ quando chegar a tua vez no campo perante os deuses?” (Do poema “Perséfone a errante”, incluído em “Averno”).

“A escrita não é uma decantação da personalidade”, diz-nos Glück no início de um dos seus ensaios. “A verdade, na página, não precisa de ter sido vivida. É antes feita de tudo aquilo que pode ser imaginado”, acrescenta. Contudo, em 2014, numa entrevista que deu à revista “Poets and Writers”, aprofundou esta questão, e defendeu que “tens de viver a tua vida se queres fazer alguma coisa de original”, porque “o teu trabalho tem de nascer de uma vida autêntica, e se suprimires os teus impulsos mais apaixonados em benefício de uma arte que ainda não se declarou, estás a cometer um erro terrível.” No final de um breve e magnífico poema em prosa chamado “Theory of Memory”, Glück assume aquele tom oracular que distingue os mais impactantes momentos desta obra, imaginando um augúrio que alguém ouve de uma praticante das artes divinatórias: “Há coisas espantosas, disse ela, que virão a acontecer-te, ou pode ser que estejam já atrás de ti; é difícil ter a certeza. E no entanto, acrescentou, qual é a diferença? Neste momento não passas de uma criança de mãos dadas a uma quiromante. Tudo o resto são hipóteses e sonhos.”

Logan diz-nos que há uma cautela que rodeia cada desejo expresso nesta poesia, cada prazer é visto como suspeito. “Ela é quase uma poeta feral, observando atentamente a sua presa antes de se lançar num apontamento devastador – a sua forma de cumprimento preferido é a emboscada. Contudo, toda esta cuidadosa tensão acaba por se atraiçoar, revelando um profundo anseio sensual, o qual se sustenta apesar de saber que tudo acabará por conduzir à decepção.” Se esta poesia se força a passar fome, como se quisesse aguçar a sua percepção e sentidos, deixar-se levar pelos instintos, a consciência aqui acompanha aquele fatalismo do mundo natural, e, no entanto, há uma nota de insubordinação que está sempre latente, aguardando o momento certo para alterar o resultado previsto. “Ao nascer, o teu corpo faz um pacto com a morte,/ e desse momento em diante não faz outra coisa senão tentar traí-lo”.

Nascida em Nova Iorque em 1943, Glück cresceu em Long Island, tendo frequentado a Columbia University. Ao longo dos anos, deu cursos sobre poesia numa série de universidade, e é actualmente professora adjunta de Inglês em Yale. Ao receber o Nobel, a poeta mostrou-se surpreendida, até atarantada numa entrevista telefónica que foi disponibilizada pela Academia Sueca ontem à tarde. Admitiu que era uma grande honra, mas mostrou-se também preocupada com o impacto que a visibilidade possa ter na sua vida e das pessoas que a rodeiam, tendo afirmado que gostaria que a sua intimidade fosse preservada. Reconheceu que uma das primeiras coisas que lhe passou pela cabeça quando soube que tinha ganho o prémio é que ia perder muitos amigos, uma vez que a maior parte deles são escritores. Quanto ao dinheiro do prémio, às dez mil coroas suecas (cerca de 950 mil euros), diz que poderá finalmente comprar uma casa em Vermont. O Nobel irá multiplicar as traduções da sua poesia e pode ser até que alguma editora portuguesa se aventure a editá-la por cá. Mas não é de esperar que a poeta abdique da tranquilidade das suas rotinas e alinhe nesse regime dos escritores que gostam de se pavonear nos festivais literários. Quando foi nomeada poeta laureada, deixou claro que não tinha qualquer interesse em que a sua audiência se multiplicasse”, e que preferia dirigir-se a uma audiência “pequena, intensa e apaixonada”.

Em entrevista ao “The Guardian”, o editor da poeta no Reino Unido, Michael Schmidt (Carcanet), disse que por lá que ninguém contava com esta notícia, mas que mais que uma inesperada alegria, ficaram perplexos com este a espantosa justiça desta vitória. “O que a Academia parece ter conseguido foi apontar para uma poeta que emerge, não só esteticamente, mas no que respeita ao imaginário, em contraposição face a esta época. Ela não é uma cheerleader. Não é de nenhum modo a voz de alguma causa – é apenas um ser humano comprometido com a linguagem e a sua relação com o mundo. E julgo que há algo de maravilhoso numa pessoa que não nos quer dar sermões, não se põe em bicos dos pés nem faz por ser polémica, e talvez seja isto o que está a ser celebrado. Ela não quer convencer-nos de nada, apenas quer ajudar-nos a explorar o mundo em que vivemos. É uma poeta que clarifica as coisas.” 

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