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Carlos Zorrinho 08/10/2020
Carlos Zorrinho
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O espelho democrático

Uma boa democracia é aquela que dá a voz ao povo.

Perante os tristes espetáculos de fragmentação, radicalismo e baixo nível de debate que nos têm sido proporcionados em muitas democracias consolidadas no mundo e em particular nos Estados Unidos da América e do Reino Unido, há quem expresse a sua confiança que tudo vai acabar bem por causa da qualidade e da tradição das instituições democráticas e há quem se espante pelo facto de democracias de referência não conseguirem filtrar o extremismo e o ódio que as corrói.

Uma boa democracia é aquela que dá a voz ao povo. O problema com as democracias, em particular com as que não foram substantivamente tolhidas por regras manipuladoras e baias autocráticas, é que funcionam, e bem, como espelho das sociedades. Se o tecido social está contaminado pela desinformação, pelo medo, pela ausência de racionalidade ou pelo primarismo do contágio emocional, não podemos esperar que dele possa emergir um funcionamento institucional elevado, moderado e razoável.

Com uma dose de caricatura para acentuar a ideia, não são as democracias dos Estados Unidos da América ou do Reino Unido que estão piores. São as sociedades daqueles países que estão de tal forma frágeis e enfermas, que se entregaram nos braços de líderes erráticos e correm o risco de soçobrar perante a avalancha dos radicalismos populistas.

Aproximam-se (de facto, devido às caóticas leis eleitorais, já estão a decorrer nalguns Estados e por algumas formas) as eleições americanas. Foi constrangedor assistir ao nível rasteiro do debate entre Trump e Biden. Não deveria Biden ter marcado a diferença com um registo mais focado na razão e no eleitorado moderado? A resposta a esta pergunta exige uma reflexão prévia. Se não há dúvida que uma larga maioria do eleitorado Republicano que apoia Trump está fanatizado, isso não terá também conduzido, por reação, a que grande parte do eleitorado que o quer derrotar também esteja? E nesse caso poderia Biden prescindir de falar para esse eleitorado?

As análises de perceção feitas a seguir ao debate seguiram em linha com a maioria das sondagens. A sociedade americana está fraturada com ligeira vantagem de Biden, mas a polarização nunca permitiu uma clarificação ou fixar uma tendência que pouco a pouco fosse definindo o perfil do vencedor. Sendo assim, as ameaças de que as eleições, seja qual for o resultado não acabem em 3 de novembro e se prolonguem por longas querelas judiciais e até mesmo sociais vão crescendo. A este cenário dantesco acresceu o teste positivo de Donald Trump à covid-19 em pleno arranque de campanha, que para além das eventuais consequências pessoais e diretas para a saúde do Presidente dos Estados Unidos, também já foi objeto das mais díspares interpretações, teorias, conspirações e projeções, movimentando um poderoso xadrez político sob a capa fina das palavras de circunstância.

Como é possível isto acontecer numa democracia que se quis exemplar durante décadas, pelo menos no plano da política interna. Não foi a democracia que mudou. Foram os seus atores, cada fez mais afoitos em escrever guiões de elevado risco, que ameaçam deitar fora o bebé com a água do banho.

Vamos ficar ao espelho a ver o mundo desagregar-se? É preciso blindar o espelho e depois ir à luta por uma racionalidade construtiva e com valores.

Eurodeputado

 


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