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Como veem os jovens este início do ano letivo?

Como veem os jovens este início do ano letivo?

Rita Saias 06/10/2020 15:12

O clima do desenrasca e do deixar tudo para a última reina nas indicações do Ministério da Educação, que se esconde atrás da Direção Geral de Saúde na demora das indicações às escolas, aos professores, aos pais e aos alunos.  

O ano escolar começou. Os pais suspiram pelos filhos que saem do ninho, de alegria, mas também de preocupação. Os sindicatos dos professores dizem-nos que não foram tomadas todas as medidas e exortam ao Armagedão. Já a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas tem opinião contrária e fala sobre o esforço hercúleo que é exigido às escolas em nome da segurança de todos. A Confederação Nacional das Associações de Pais pede comunicação, articulação e voz nas decisões. O Ministério vai criando vídeos e reforça os programas da telescola para que fiquem como biblioteca de conteúdo escolar. O Ministro desdobra-se em aparições com a Ministra da Saúde para garantir que estamos todos juntos nisto. E nós, jovens, como vemos este início do ano letivo?

No início da pandemia o Conselho Nacional de Juventude ouviu as preocupações e os anseios dos jovens, de norte a sul, interior, litoral e ilhas. Hoje em dia, assistimos a uma multiplicidade de respostas importantes, mas que não correspondem às principais preocupações apontadas pelas novas gerações sobre a sua educação. A juventude disse claramente: temos receio da falta de aquisição de competências que o ensino não-presencial criou; temos receio de uma nova vaga; a nossa saúde mental piorou; temos falta de informação sobre o ano letivo que agora se iniciou.

Nada como um momento de pressão para vermos os nossos traços culturais sobressaírem. O clima do desenrasca e do deixar tudo para a última reina nas indicações do Ministério da Educação, que se esconde atrás da Direção Geral de Saúde na demora das indicações às escolas, aos professores, aos pais e aos alunos.  Enquanto isso, nós vagueamos na incerteza sobre se conseguiremos responder ao próximo teste de forma positiva, porque não sentimos que tenhamos adquirido todas as competências durante a quarentena; se conseguiremos aguentar os próximos 10 minutos de aula com os olhos abertos, porque depois de várias aulas sem intervalos a atenção já é humanamente impossível; se estaremos a respeitar todo o espaço pessoal amplificado do nosso colega e todas as novas regras sanitárias que muitas vezes não compreendemos neste estranho regresso à escola.

A escola costumava ser um espaço de aprendizagem, mas também de brincadeira e conversas. E tanto que aprendíamos nesses momentos informais sobre nós, sobre o outro e sobre o mundo! No entanto, preferiram tirar-nos o intervalo, um espaço controlado onde socializamos, empurrando-nos para fora da escola, para cafés vizinhos. Deram-nos a conhecer a vida do professor por detrás do ecrã e tempo para nos aproximarmos, para agora mal os vermos nos corredores das escolas devido ao excesso de carga horária. Dizem que temos de estar em espaços arejados, mas as escolas não têm esses espaços, nem na sala de aula. Não podemos tocar no colega da frente ou do lado, mas a turma é tão grande que isso significa dobrar as regras para cabermos todos. Estamos a cuidar de Portugal ao cumprir todas as regras, mas quem cuida de nós?

Onde estão os equipamentos tecnológicos que nos foram prometidos, para termos todos acesso a uma educação do século XXI de qualidade? Onde estão as equipas multidisciplinares para nos ajudarem a perceber este novo estranho mundo? Onde estão os professores, os psicólogos e tantos outros profissionais para nos ajudarem a recuperar a saúde mental, as aprendizagens, o medo da próxima vaga?

Transformaram o início do ano escolar numa guerra sobre uma disciplina, Cidadania e Desenvolvimento. Trata-se de uma disciplina que pode cumprir um papel importante na sociedade e na escola enquanto elevador social se lecionada de forma plural e atenta às sensibilidades da comunidade escolar. Uma disciplina sobre direitos, sobre uma sociedade democrática, plural, inclusiva, não discriminatória, participativa, com capacidade de análise crítica, empoderada. Mas essa discussão não interessa se não existir uma Escola para onde regressar depois da pandemia. 

Presidente do Conselho Nacional da Juventude

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