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Alexandra Duarte 05/10/2020
Alexandra Duarte

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Sobre moi les hommes, je les déteste

Chama-se Pauline Harmange, francesa, autora de um blog, tem 25 anos e é a mulher do momento, em França e não só.

As razões do mediatismo não são pacíficas e até podem ser consideradas uma provocação ao equilíbrio ambicionado nas relações entre homens e mulheres. Num momento em que a igualdade de género está no topo da agenda política de todos os países europeus, a recente autora publicou um livro com o título moi les hommes, je les déteste. A justificação de tal escolha, pela autora e pela editora, incide no que foi considerado como o melhor resumo do conteúdo do livro. Mais do que provocador, o título em si é agressivo e instigador de um sentimento de ódio para com o outro género.

Antes da sua publicação, houve um pedido formal por parte do secretário de Estado para a Igualdade entre Mulheres e Homens francês para impedir que a obra viesse a público com esta linguagem. Obviamente, que este pedido colocou os holofotes neste livro e, logo que foi publicado, esgotou e fez correr rios de tinta.

Mas afinal, o que leva uma mulher de tão tenra idade a escrever sobre os homens e a incitar à misandria (aversão aos homens), num momento em que qualquer descuido com a linguagem pode ser ofensivo e motivo de acusação de exclusão?

O absurdo de toda a mensagem está no generalismo com que a autora aborda as relações entre homens e mulheres, suportada com números de violência doméstica para com as mulheres e com vivências pessoais que denunciam os seus filamentos ultra-feministas, desencadeando um tratamento de repulsa para com todos os homens.

À autora falta-lhe o conhecimento/experiência de relacionamento com pessoas que reúnem as mesmas características que descreve, independentemente de serem homens ou mulheres. A arrogância de que acusa os homens não é exclusiva deles, homens, mas sim da condição humana. Seguindo este caminho, Pauline afirma que não se trata de um incitamento ao ódio, não obstante o título que cuidadosamente escolheu, mas sim de um reposicionamento das mulheres, todas as mulheres, face aos homens. Isto é, a jovem autora, casada com Mathieu, também ele incluído neste “grupo social”, que são os homens, e que também ele incorre em comportamentos tóxicos que Pauline faz questão de repreender (dito em entrevista pela própria), defende que as mulheres deveriam seguir um caminho distanciado do dos homens, a par com as outras mulheres. Resumidamente, a sua ideia é muito simples e clara: as mulheres têm que deixar de estar sob a influência negativa dos homens, porque estes prejudicam a sua evolução natural e devem procurar as suas pares para este crescimento. A exclusão dos homens neste processo é fator determinante para o sucesso de qualquer mulher. A bem ver, seria um mundo dividido em dois, idealizado por uma militante feminista que vem contrariar toda uma rota que se tem pautado por coordenadas de igualdade, inclusão e não discriminatórias.

O exemplo desta blogger, agora autora, tende a desvirtuar o trabalho de mulheres que todos os dias concorrem e se empenham para proteger outras mulheres que se encontram em situação mais frágil e por motivos bem mais complexos do que uma simples divisão de géneros. Problemas, como o número crescente de grávidas que são dispensadas do trabalho, ou de mães que se sentem condicionadas a gozar a sua licença de maternidade, são exclusivos das mulheres pela sua própria condição. A solução para estas assimetrias não pode passar pela alienação do homem e a sua desresponsabilização no processo; ao invés, os homens devem ser convocados para esta reflexão e, posteriormente, para os compromissos indispensáveis para a alteração destas condições.

As palavras sem propósito contidas nas suas 96 páginas comparam-se à insensatez da diretiva que o Ministério da Defesa emanou com orientações para uma “linguagem não discriminatória” e mais “inclusiva” nas Forças Armadas: elimine-se o coordenador e substitua-se por coordenação; erradique-se o bem-vindos e apresente-se as boas vindas a todas as pessoas; acabe-se de uma vez por todas com o ele e com o ela, com o género masculino e com o feminino e passemos ao uso restrito de substantivos, adjetivos, entre outros, uniformes.

Assim se vai em França e em Portugal no que diz respeito à igualdade de género: só faits divers.

 

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