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Quino. Morreu o cartoonista que tinha filosofia na ponta do lápis

Quino. Morreu o cartoonista que tinha filosofia na ponta do lápis

AFP José Cabrita Saraiva 01/10/2020 09:49

Os seus desenhos valeram-lhe prémios, honrarias e doutoramentos honoris causa. Quino, o criador de Mafalda, morreu de AVC aos 88 anos.

Com o seu traço, o seu humor perfurante e a sua inteligência, Quino mostrou que até uma miúda rechonchuda da classe média argentina podia fazer um pouco de filosofia. Mafalda, que não gostava de sopa, tinha tiradas memoráveis sobre o mundo e os homens. “Como sempre”, concluía numa das suas tiras, “o urgente não deixa tempo para o importante”. De outra vez declarava: “Devia haver um dia da semana em que os jornais nos enganassem um pouco dando boas notícias”. Por estas e por outras, era elogiada por um intelectual erudito como Umberto Eco, que a apreciava “muitíssimo”.

A rubrica estreou-se na edição de 29 de setembro de 1964 da revista Primera Plana. O seu criador, Quino, morreu ontem, 30 de setembro de 2020, exatamente 56 anos e um dia depois.

“Tudo o que saía de um lápis” Joaquín Salvador Lavado Tejón nasceu a 17 de julho de 1932 em Mendoza, uma cidade próxima da cordilheira dos Andes que o próprio descreveu como “o Mediterrâneo: todos eram sírio-libaneses, italianos, espanhóis”. Os seus pais tinham trocado a Andaluzia (viviam perto de Málaga) pela Argentina em 1919, em busca de uma vida melhor. Tiveram três filhos, Joaquín era o mais novo.

Foi logo aos três anos que percebeu o que queria fazer, quando viu o seu tio Joaquín (por causa do qual desde sempre o trataram por Quino, para não se confundirem) desenhar um cavalo. Ficou fascinado quando se apercebeu de “tudo o que saía de um lápis”, contaria ao El País em outubro de 2014. “Em minha casa tínhamos uma mesa de refeições de álamo, uma madeira muito branca, e eu deitava-me de barriga sobre a mesa e começava a desenhar ali. Fiz um acordo com a minha mãe: eu podia desenhar e depois com [...] sabão e uma escova daquelas grossas apagava tudo”, diria também ao diário espanhol.

Quino era um miúdo tímido e falava com os pais em andaluz, o que tornava mais difícil ser compreendido pelos colegas e amigos; em contrapartida, talvez isso tenha espicaçado a vontade de comunicar através do lápis.

Os bons e os maus neste mundo Ainda passou pela escola de Belas-Artes de Mendoza, que abandonou para perseguir o sonho de se tornar cartoonista. Acabaria por conseguir realizá-lo de uma forma improvável. Começou com uma encomenda de um amigo para uma campanha de publicidade encapotada. As tiras deviam mostrar o quotidiano de uma família, passando a mensagem de como os eletrodomésticos Mansfield eram úteis e fantásticos. Mas o jornal que recebeu a proposta, o Clarín, rejeitou publicar os desenhos. Quino, ainda que sem grande convicção, continuou a desenhar Mafalda, que definiu como “uma menina que tenta resolver o dilema de quem são os bons e quem são os maus neste mundo”.

A série teve um sucesso estrondoso, mas Quino decidiu pôr-lhe um ponto final em 1973, por sentir-se como “um carpinteiro que tem de fazer sempre a mesma mesa, e eu também queria fazer portas, cadeiras, banquinhos”. Aliás, defendia que tinha feito tiras melhores do que as de Mafalda, mas que não tinham sido devidamente valorizadas pelo público. Fosse como fosse, com os seus desenhos aparentemente a brincar, conquistou as maiores honrarias, doutoramentos honoris causa e até o Prémio Príncipe das Astúrias de humanidades em 2004, que recebeu numa cadeira de rodas.

A década de 90 ficou marcada por vários problemas de saúde que o obrigaram a sucessivas intervenções cirúrgicas. Em 2006 a sua mão, que era como “uma criatura com vontade própria”, segunda a jornalista Leila Guerriero, do El País, silenciou-se – o mestre praticamente deixou de desenhar. Já estava quase cego quando em 2017 perdeu a mulher, Alicia, companheira de vida durante 57 anos (casaram-se em 1960 e, por opção conjunta, nunca tiveram filhos). Rodeado de familiares e amigos, regressou à terra onde tinha nascido para se despedir do mundo. É verdade que se considerava-se espanhol, mas, afinal, para ele Mendoza era apenas um pedaço do Mediterrâneo.

 

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