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Presidenciais dos EUA. Donald Trump ou Joe Biden?

Presidenciais dos EUA. Donald Trump ou Joe Biden?

AFP jornal i 30/09/2020 10:21

O programa de Biden anda na corda bamba entre a ala mais conservadora dos democratas e os mais progressistas, que ganham ascendente. Já não se fala tanto do famoso muro, após o Congresso o ter bloqueado financeiramente. Desta vez, a aposta de Trump é “lei e ordem”.

Nos últimos anos vimos a América de Donald Trump. Nos próximos anos podemos ter mais uma dose de “America first”, caso o Presidente saia vencedor das eleições de 3 de novembro. A proposta é semelhante à de 2016, mas de um “nacionalismo nativista, mais fechado, mais desconfiado dos estrangeiros”, nas palavras de Tiago Moreira de Sá, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA). Com algumas adições de peso, como a sua intransigente defesa da “lei e ordem”, face aos protestos massivos contra o racismo, após a morte de George Floyd.

Até ao início de 2020, o grande trunfo do Presidente era a sua aposta no protecionismo económico, prometendo pôr fim à saída de empregos do país para o estrangeiro. Com Trump, houve aumentos nas tarifas para produtos importados dos mais diversos países, em particular da China – um dos muitos fatores por trás da longa guerra comercial entre os EUA e a outra grande potência mundial.

De facto, o PIB norte-americano cresceu de forma estável desde 2016, uma tendência que já vinha da Administração de Barack Obama e que se quebrou brutalmente com a pandemia de covid-19.

Até agora, para lá do rasto de devastação económica, o novo coronavírus já infetou mais de sete milhões de pessoas e matou mais de 200 mil nos EUA. Não espanta que Trump esteja atrás de Joe Biden nas sondagens. Contudo, não só os Presidentes norte-americanos tendem a ser reeleitos, historicamente falando, como o complexo sistema eleitoral norte-americano depende muito dos swing states, os estados indecisos, onde tanto ganham republicanos como democratas – basta uma pequena margem aí para se sair vencedor a nível nacional, como aconteceu em 2016.

Já a proposta central da campanha de Trump em 2016, o seu famoso muro na fronteira com o México, ficou como pano de fundo desta vez. Não é de espantar: no seu mandato, Trump construiu uma extensão muito curta de barreiras fronteiriças, após sucessivos bloqueios no financiamento pela maioria democrata no Congresso. Em vez disso, Trump aposta noutro tipo de barreiras: quer limitar os vistos para familiares de imigrantes, em prol de um sistema “baseado no mérito”, bem como o acesso à cidadania a crianças que foram ilegalmente trazidas para os EUA e cresceram no país.

Ganhe quem ganhar, a marca de Trump na América poderá durar uma geração. Com a morte da juíza Ruthe Bader Ginsburg, Trump poderá ter o raro privilégio de nomear três juízes para o Supremo Tribunal – os democratas mobilizam-se para o impedir, sem grandes esperanças.

“A nomeação dos juízes do Supremo é uma questão fundamental, por isso é que há esta guerra. Se Trump conseguir substituir a Ginsburg claramente fica um desequilibrio a favor dos conservadores. E os mandatos do Supremo são vitalícios”, avisa Moreira de Sá. Vão parar ao Supremo Tribunal as mais diversas questões, desde o direito ao aborto aos direitos dos migrantes e pessoas LGBT+, ou o acesso à saúde.

Joe Biden. Um centrista numa América polarizada

A América de Joe Biden, o adversário de Donald Trump nas presidenciais, é um projeto centrista de compromisso entre a ala mais à esquerda dos democratas, que ganhou fôlego nos últimos anos, e os mais conservadores dentro do partido, entre os quais se inclui o próprio Biden.

“Essa talvez seja a grande questão que torna muito imprevisível o que seria uma presidência Biden”, explica Tiago Moreira de Sá, investigador do IPRI-NOVA, especializado em política norte-americana, ao i. “É muito difícil perceber como é que Biden, se for Presidente, pode conciliar as suas propostas com as de outros como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren”, salienta. “De facto, são visões completamente diferentes da América”.

No plano imediato, face à pandemia, o partido democrata está em relativa harmonia. A grande proposta é testes gratuitos à covid-19 para todos, contratação de cem mil pessoas para rastreio de contactos e orientações firmes do Governo federal quanto aos estados, no que toca ao uso de máscaras, por exemplo. Pode parecer censo comum, mas arrisca ser polémico. Muitos norte-americanos são ciosos da autonomia dos estados, que têm sido os principais responsáveis pela resposta à covid-19.

As questões mais espinhosas dentro do partido de Biden dizem respeito ao longo prazo. Veja-se o caso do combate às alterações climáticas, um tópico premente da campanha presidencial devido aos gigantescos incêndios na Califórnia e aumento dos tornados no Atlântico. Todos os democratas concordam que é urgente, mas os mais progressista defendem o Green New Deal, uma proposta para criar milhões de empregos verdes e transitar completamente para energia limpa até 2030. Já Biden propõe investir 1,7 mil milhões de dólares em investigação e conseguir uma economia verde até 2050.

A dinâmica é semelhante no que toca à reforma da polícia. Desde a morte de George Floyd que surgem apelos ao corte de fundos da polícia. Face aos protestos, Biden recusou apoiar uma medida do género. Ainda assim, está longe de se mostrar o Biden dos anos 90, apologista da política “dura quanto ao crime” de Bill Clinton. As suas propostas focam-se um diminuir o encarceramento em massa com redução de penas e combater a disparidade racial e de género no sistema judicial, bem como algum investimento extra no tratamento de doenças mentais.

Outro ponto fulcral é a saúde – há anos que mais de metade dos norte-americanos querem uma cobertura universal, segundo as sondagens da Gallup. Foi um dos grandes temas que projetaram a ala mais progressista dos democratas, e mais uma vez Biden optou pelo meio termo. Defende a expansão do chamado Obamacare, que dá subsídios estatais para compra de seguros a preços controlados.

Já aos olhos dos republicanos, o programa de Biden mais parece um filme de terror. “Vão desarmar-vos, esvaziar as prisões, prender-vos em vossa casa e convidar o MS-13 [perigoso gangue de salvadorenhos nascido em Los Angeles] para viver na porta do lado”, hiperbolizou o congressista Matt Gaetz, durante a convenção republicana, onde o tom foi quase apocalíptico.

 

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