29/10/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 30/09/2020
Eduardo Oliveira E Silva

opiniao@newsplex.pt

Marcelo contra Marcelo

Ultrapassar os seus próprios resultados é o único desafio objetivo que Marcelo deve ter. Não faz sentido fazer comparações com a reeleição de Mário Soares.

1. Jornalistas, analistas e políticos adoram arranjar parâmetros para comparar situações, mesmo que, na realidade, elas sejam completamente diferentes. No futebol passa-se mais ou menos o mesmo quando se discute se o melhor de sempre é Ronaldo, Messi, Pelé, Maradona ou Puskás. Trata-se de discussões bizantinas porque as circunstâncias de cada um dos jogadores são específicas e ocorreram em tempos diferentes.

Vem isto a propósito das próximas presidenciais. Há quem foque a sua análise praticamente só no suposto desafio de Marcelo ultrapassar o score que teve Mário Soares na sua reeleição, ou seja cerca de 70%, tendo Soares contado na altura com o apoio do PSD e feito o pleno do centro. Foi um resultado fenomenal e dificilmente repetível no ano que vem, visto que há pelo menos um candidato, Ana Gomes, que ocupa parcialmente o espaço do PS. Alguns dos comentadores asseguram que ultrapassar a fasquia de Soares é grande desafio íntimo de Marcelo, uma daquelas coisas que nem às paredes se confessam. É duvidoso. Marcelo sabe bem que não fica na história pela margem com que ganhou uma das eleições. Fica ou não pela forma como se comportou. A percentagem é uma nota de rodapé.

A reeleição de Marcelo só pode ser comparada com os resultados que obteve em 2016. Por isso, são claros e fáceis de identificar. Conseguiu 52% dos votos sem fazer uma campanha formal. Recebeu 2 milhões e 411 mil 925 sufrágios, tendo-se registado uma participação de 48,66% dos inscritos. Convenhamos que foi brilhante para quem se apresentava basicamente com o seu prestígio pessoal de político e a sua popularidade de comentador, nomeadamente na TVI.

Em 2021, o adversário de Marcelo, desde já com o apoio formal, antecipado e não pedido do PSD, será ele próprio. Se tiver mais sufrágios, melhor percentagem dos votos expressos e a participação for superior ao que aconteceu há cinco anos, então ter-se-á superado e os portugueses terão aumentado o seu grau de confiança nele. É por aí que se deverão medir as coisas em relação ao chefe de Estado e à sua função unipessoal. Se ficar abaixo do patamar de há cinco anos, então Marcelo terá razões para pensar que falhou nalguma coisa, apesar da enorme popularidade, da cobertura mediática e da sua empatia genuína, apesar de se estar a assistir a uma certa reserva em relação a ele por parte de certos setores conservadores da sociedade com tendência a acharem-se elitistas.

É óbvio, no entanto, que haverá muitas reflexões a fazer quanto aos resultados das presidenciais. Mas elas não terão a ver com o Presidente reeleito. Dirão antes respeito aos resultados dos seus concorrentes. Não será indiferente a percentagem de André Ventura, à direita, e de Marisa Matias, à esquerda, porque representam basicamente os dois extremos da política partidária. Já o populismo de Ana Gomes será uma radiografia do PS, evidenciando provavelmente pequenas ciumeiras internas como houve outras, designadamente com Manuel Alegre. Quanto a João Ferreira, do PCP, o seu resultado servirá para aferir quantos são, afinal, entre novos e velhos, os comunistas ortodoxos que ainda existem. Outros candidatos que se apresentem e cheguem às urnas entrarão no domínio do pitoresco.

2. Como já várias vezes aqui se escreveu, é óbvio que o Orçamento do Estado vai passar. Seja pela aprovação à esquerda (possivelmente do Bloco e eventualmente do PAN, já que o PCP e os Verdes parecem totalmente indisponíveis) ou pela abstenção patriótica do PSD, teremos OE. Rui Rio terá o sentido de responsabilidade e a maturidade política suficiente para o garantir se os parceiros da geringonça roerem a corda a António Costa. Com o resultado das legislativas e a circunstância de o PS ter falhado a maioria absoluta, Rio ficou na situação de ser muleta dos socialistas. Em circunstâncias normais, já teria de ser assim pelo menos dois anos. Agora, em pandemia, ainda mais. Atirar o Governo ao chão seria um suicídio para o país e para o PSD. Quando se discutir o OE de 2022, então sim, talvez haja condições para abrir uma crise, provocar eleições e, eventualmente, afastar o PS. Mesmo assim, nunca será fácil enquanto à direita o Chega tiver forte expressão, o que impede qualquer acordo parlamentar ou de Governo com ele. É a eterna questão da governabilidade que, hoje, não se atinge só parlamentarmente. Também é essencial que as forças sociais e os movimentos inorgânicos não criem condições de instabilidade nas ruas e na economia para que um Governo exista mesmo.

3. Chama-se Participar+ e é uma nova associação de cidadania que defende os desígnios nacionais. A primeira reunião pública realiza-se no dia 5 de outubro, na Gulbenkian. Os seus integrantes são figuras com provas dadas em muitos setores da vida nacional e que entendem ser fundamental pensar o futuro sem perder valores. Junta nomes como Vítor Ramalho, António Costa Silva, João Ferreira do Amaral, Pinto Ramalho, Ribeiro e Castro ou Ana Paula Martins, entre muitos outros de vários quadrantes e pensamentos. Em boa hora aparece esta iniciativa porque importa manter, desenvolver e divulgar valores de patriotismo, distinguindo-os de opções nacionalistas, normalmente xenófobas e extremistas. Há referências que devem existir em permanência e que estão acima da política partidária, das vaidades e dos Governos. Nos dias de hoje é importante não as perder de vista.

4. Vergonha é a palavra correta para definir as situações caóticas que se registam regularmente nos nossos aeroportos geridos pela ANA, empresa objeto de uma controversa privatização durante a troika. Nas zonas de fronteira, o amontoado de passageiros e a proximidade entre eles é, obviamente, um enorme perigo de contágio. Nem em Fátima, na Festa do Avante!, na CP ou no metro se viu algo assim. Alguém tem de ser responsabilizado por estes atropelos à segurança sanitária coletiva. Se um cidadão recusar a usar mascara em locais públicos é sancionado e por todo o lado há limites de lotação. Já com esta situação nos aeroportos, nada se passa. Quem está acima da lei? Quem são os responsáveis por esta situação gravíssima? Onde param o Ministério Público, a polícia, a DGS e o Governo? Onde?

 

Escreve à quarta-feira

 

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