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29 de setembro de 1966. O sr. Cordeiro, os touros e o juiz com coração de manteiga

29 de setembro de 1966. O sr. Cordeiro, os touros e o juiz com coração de manteiga

Afonso De Melo 30/09/2020 09:31

O dia foi infinito para o magistrado sem mãos a medir. E começou com uma criança morta à pedrada e com as trafulhices do sr. José Cordeiro da Silva, que vendia bilhetes no Campo Pequeno sem ter autorização para o fazer.

A polícia de Lisboa andava numa atafona. A época da tourada à antiga portuguesa trouxera, esse ano, uma série de chatices. Meia dúzia de meliantes atacaram o Campo Pequeno com uma descaramento formidável e trataram de vender bilhetes falsos ao desbarato a todos aqueles que estavam ansiosos por ver a estrela do momento, o grande Ricardo Chibanga.

Nesta coisas de trafulhas há sempre uns mais trafulhas do que os outros. Ou, se preferirem, há sempre uns mais ingénuos que se deixam pescar nas longas e finas redes da lei. Um deles foi o sr. José Cordeiro da Silva, de 52 anos de idade. Caminhava por entre os que se apressavam em direção aos seus lugares, ao sol ou à sombra, conforme a capacidade das carteiras, e anunciava a venda de vigésimos de lotaria. Com tanto azar ou tanta pontaria que foi fazer a oferta ao sargento Dinis, da Polícia de Segurança Pública, que estava de serviço e à paisana. O nosso agente perguntou-lhe, melífluo, quantos bilhetes tinha para vender e qual não foi a sua surpresa quando o sr. Cordeiro saca do bolso interior do casaco um molho de entradas que quase dava para encher o recinto. Foi pelo cano. Ou pela canalização completa.

Metade dos bilhetes eram falsos, a outra metade não, mas, em compensação, o bom do Cordeiro não tinha licença para venda do que quer que fosse. Como não podia deixar de ser, foi parar à esquadra para as respetivas identificações e declarações. Enquanto ao longe de ouviam os “ooohs!” de espanto pelas festas que o enorme Ricardo Chibanga gostava de fazer no focinho dos touros, o sr. Cordeiro cantarolava como um passarinho à secretária do chefe de posto. Suava em bica e exibia um nervosismo de dar pena.

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