22/10/20
 
 
A covid-19 como fenómeno estratégico conexo – impacto na tomada de decisão estratégica

A covid-19 como fenómeno estratégico conexo – impacto na tomada de decisão estratégica

É percetível que o ambiente estratégico no presente é fortemente condicionado pelo FEC covid-19, acentuando no plano da decisão estratégica o modelo da lógica de contingência.

Antes da eclosão da crise da covid-19 já a gestão da surpresa estratégica se tinha assumido como um fator determinante na avaliação da capacidade de resposta dos Governos à emergência e progressão de ocorrências que designamos por fenómenos estratégicos conexos (FEC), disruptivos e inesperados, com elevado impacto estrutural na segurança nacional e nas agendas geopolíticas, podendo vulnerabilizar a permanência e a projeção dos interesses críticos estratégicos de um Estado nas ordens interna e externa e nos planos político-diplomático, militar, securitário e económico-tecnológico.

Os FEC, onde se incluem, além das ameaças à segurança humana, outros fenómenos sistémicos, geram um ambiente organizacional, comunicacional e informacional de gestão de crises com impacto nos modelos de tomada de decisão estratégica. No presente, decidir significa antever o futuro, diminuir o grau de incerteza e minimizar o efeito de surpresa. 

O efeito funcional global da covid-19 tornou-a um FEC com grande impacto no jogo geopolítico, visível no confinamento do multilateralismo e em latentes complexos soberanistas, expressos na disputa tecnonacionalista entre os EUA e a China e no ressurgimento de processos de strategic hedging. 

A ductilidade geopolítica gerada pelo FEC covid-19 manifesta-se na justaposição de dois modelos de tomada de decisão estratégica: o modelo do ator racional (lógica das consequências, estudado por um grupo de Oxford) e o modelo que nós designamos por gestão da conjuntura (lógica da contingência). 

O modelo do ator racional, i.e. aquele que avalia os custos/benefícios, é o que tem predominado. Assenta numa ideia básica que é a de que os Estados procuram a eficácia máxima na realização dos seus interesses estratégicos. Por outras palavras, no cálculo que se possa fazer do lucro (gain) que há de ter na competição, é incorporado o objetivo do outro contendor de maximizar vantagens. Mas, no fundo, este jogo em que a “minha” posição pretende prevalecer sobre a posição do “outro” ator é um jogo cujas regras de funcionamento assentam em procedimento e ações que levam a que, no limite, os grandes contendores nunca cheguem, numa lógica de equilíbrio da ameaça e do risco, a um confronto aberto, porque o modelo racional impõe interpretações comuns quanto às consequências das ações. Os atores envolvidos na ordem internacional desenvolvem a perceção das consequências dos seus atos através de um bluff estratégico/ jogo de dissimulação. 
Outro modelo que a covid-19 veio evidenciar é o da gestão da conjuntura (ou contingente) em oposição à lógica das consequências. É aquele em que a tomada de decisão estratégica de um Estado, para salvaguarda e projeção dos seus interesses, não reside num planeamento estratégico prévio, definido no tempo, não reside numa grande estratégia nacional, mas reside na interpretação apriorística das situações, nos planos interno e externo, com que é confrontado. As circunstâncias impõem a adaptação do ator a determinada realidade. Ainda que exista um fio condutor da sua atuação, ele é muito condicionado pela conjuntura e pela velocidade de transformação dessa conjuntura, o que provoca necessariamente a incerteza na forma como entendemos as relações internacionais e na adoção dos mecanismos de resposta aos desafios que são colocados.

É nossa leitura que a retração político-diplomática provocada pelo FEC covid-19 aumentou os fatores de contingência que tenderão a tornar a agenda geopolítica dos Estados condicionada pela surpresa estratégica. Esses fatores de contingência são acelerados por processos de desinformação estratégica digital – entendida como a disseminação intencional de informações falsas ou manipuladas, visando desgastar a reputação externa de um Estado e vulnerabilizar as suas instituições através, designadamente, de narrativas reputacionais geopolíticas hostis, conduzidas por estruturas de intelligence.

É percetível que o ambiente estratégico no presente é fortemente condicionado pelo FEC covid-19, acentuando no plano da decisão estratégica o modelo da lógica de contingência.

A interceção de fenómenos estratégicos conexos com as ameaças tradicionais state-centric e com non-state actors disruptivos requer uma forte aposta em serviços de intelligence de segurança e estratégicos orientados operacionalmente para um quadro de gestão de crises, apostando na ativação de early warning systems (EWS).

A ativação de um EWS implica o estudo de intenções, de capacidades e de meios de um dado ator e a contextualização interna e externa de ações hostis, bem como o estudo do risco e da existência de um ambiente geopolítico e geoeconómico favorável a situações de surpresa estratégica. A análise projetiva, a análise operacional, a ativação de meios e a ação operacional constituem os elementos estruturantes de um EWS, enquanto instrumento minimizador da surpresa estratégica.

Licenciado em Antropologia, especialização em Sociologia das Regiões Tropicais (ISCSP-UTL)

Mestre em Estudos Africanos (ISCSP-UTL)

Doutor em Ciência Política (ISCSP-UTL)

Agregado em Estudos Estratégicos (ISCSP-UL)

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