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Carlos Gouveia Martins 24/09/2020
Carlos Gouveia Martins

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A seriedade dos 75 anos da ONU

A 75.ª sessão da Assembleia Geral da ONU, que abriu terça-feira, terá de ficar para a história como algo que todos devem recordar. Não o digo por bons motivos, na maioria, mas precisamente por isso acredito que não deve cair no esquecimento.

A Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) alcançou a bonita meta de 75 anos. Tal como qualquer comum mortal, embora esperemos que não seja “mortal”, parece que a ONU atingiu a idade em que o corpo começa a precisar de mais cuidados e atenção do que quando era um jovem adolescente.

O diálogo continua, 75 anos depois, a ser o foco e o caminho preferencial para a resolução de problemas. Este pode ser um resumo muito simplista do papel da ONU, é um facto, mas basta vermos que a sua fragilidade de hoje está em causa precisamente devido ao multilateralismo estar em causa também.

Este ano viu-se o que não se quer ver e ouvir da boca de muitos líderes mundiais. É mesmo problemático. Quando cada país se vira para dentro de si mesmo, a ONU perde a razão de ser. Perde o foco da sua essência e, sobretudo, mostra as suas fragilidades.

A 75.ª sessão da Assembleia Geral da ONU, que abriu terça-feira, terá de ficar para a história como algo que todos devem recordar. Não o digo por bons motivos, na maioria, mas precisamente por isso acredito que não deve cair no esquecimento.

Primeiro, porque, respeitando a pandemia que o planeta vive, foi realizada pela primeira vez à distância, via plataforma Zoom. Talvez a ausência de proximidade física entre os líderes mais poderosos do mundo, que habitualmente se juntam todos os anos numa bonita sala em Nova Iorque, para se ouvirem e dizerem o que pensam, tenha feito alguns desses líderes perderem um pouco da noção que se deve ter. O monitor de um computador, como esta sociedade vive, fortalece os fracos que muitos têm e, por trás de um ecrã, qualquer um se julga fortíssimo e dono da razão.

Este ano ninguém foi à casa das Nações Unidas em Nova Iorque. Ficaram todos numa sessão virtual de Zoom. Este distanciamento social trouxe uma maior proximidade aos ataques políticos e provocações.

Primeiro falou o Secretário-geral, o português António Guterres, que não fugiu da mensagem que tem distribuído a cada sessão. Focou, e é evidente, em tom apocalíptico, o maldoso ano de 2020. Como já havia proferido em discursos anteriores, o Secretário-geral da ONU voltou a falar dos “cavaleiros no meio de nós” (começa a ficar célebre a frase) que põem em causa o nosso futuro comum.

Apontou e são aceites os quatro maiores problemas globais que já trazíamos do passado recente: a existência de maiores tensões geoestratégicas globais das últimas décadas (1), a crise climática existencial (2), a desconfiança global profunda e crescente (3) e ainda o lado negro do mundo digital (4). Porém, esta Assembleia Geral trouxe à acta que ficará um quinto problema: um “quinto cavaleiro à espreita nas sombras juntando-se aos outros quatro e aumentando a fúria de cada um”, disse, citando António Guterres, numa clara alusão à pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2.

Mas, esta parte, é salutar, normal e teve robustez política e humana. O pior ficou para outros líderes.

Mantendo o foco na língua de Camões, o Presidente brasileiro Jair Bolsonaro, por exemplo, para além de negar simultaneamente a crise ambiental e a pandemia, afirmou na abertura dos debates da Assembleia Geral da ONU que o seu Governo é uma infeliz vítima de uma campanha brutal de desinformação política e, nomeadamente, referiu, sobre o caso da Amazónia.

Juntando-se no choro de críticas ao presente do líder sul-americano, o líder norte-americano, Donald Trump, no seu discurso, andou sempre alinhado entre o negacionismo – prejudicial até se tivermos em conta o consenso assente na desconfiança global profunda e crescente que Guterres apontou – e as críticas, diretas e indiretas, à China. Do lado chinês, Xi veio meter água na fervura e palavreou politicamente hábil que não quer nem uma Guerra Fria nem uma guerra quente. Quem diria vermos a China a dar lições de cultura democrática aos EUA.

De forma também surpreendente, pela antítese no seu comportamento habitual, o líder francês, Emmanuel Macron, utilizou a sua facilidade com as palavras para tecer duras críticas a quem espalha teorias da conspiração. Apontou fortemente o dedo a todos os que escolhem caminhos por onde possam ir sozinhos, aos que descuram os mandamentos da ciência e, dessa forma, colocam em risco a vida de milhares de pessoas. Vale a pena ouvir, mas fica a nota de que Macron, o entusiasta europeu das “maravilhas da globalização” que ouvimos e conhecemos, escolheu outro tom e registo, porventura muito mais sombrio e menos positivo. “Esta mesma organização corre o risco de se tornar impotente. O Conselho de Segurança, uma promessa de estabilidade, não conseguiu chegar a um acordo sobre uma trégua humanitária em certos locais do mundo. Imagine-se isto: perante tantos problemas não conseguir concordar nem no mais básico”, foi o líder francês que disse. Falhou? Não. Está errado? Não está.

Putim veio falar do “défice de humanidade”, e nunca foi tão fácil concordar com a potência russa, mas assistimos principalmente à inteligente escolha de Vladimir Putim em evitar a via da contenção nesta sessão e elencar a mensagem lapaliciana que esta Assembleia da ONU se realiza numa altura em que todos os países se sentem vulneráveis e, talvez por isso mesmo, os próprios líderes mundiais não costumam poupar nas acusações. Foi pelo caminho inverso, alinhou num registo mais suave e, dizem os especialistas, talvez bom até.

Poderíamos ainda falar dos louros que o Irão defendeu “pelo bem que fez e faz pelo Mundo” mas devemos focar no que fica e ficará de maior relevo para debate e discussão de quem se interessa.

O 75º aniversário das Nações Unidas, o tal organismo criado após a II Guerra Mundial para institucionalizar o diálogo permanente entre as Nações (que sabemos que era para tentar evitar uma III Guerra Mundial), é o aniversário de uma das maiores vitórias da Humanidade. Reiterando a questão do Secretário-Geral da ONU, alguma vez tivemos na história tantos anos sem confrontos militares entre as grandes potências? A resposta é igual em qualquer continente: Não.

Porém, há outras vitórias que passam no escuro destas cimeiras e que deviam ter mais espaço pela luz que trazem à sociedade. Nasceram dezenas de organismos, satélites, como o de defesa das crianças e dos seus direitos, defesa do acesso à educação para as crianças, apoio aos refugiados e… nasceu a tão popular hoje Organização Mundial de Saúde que veio coordenar os esforços de todos os países do mundo nesta pandemia.

E termino com a maior incoerência que temos em volta da ONU. Quando mais precisamos de uma ONU forte é quando ela sofre dos maiores ataques dos seus setenta e cinco anos. A começar pela irrelevância que o seu país fundador, os EUA, lhe conferem. Ou, noutra escala, em que o silêncio por vezes é a melhor palavra, quando o líder da Amnistia Internacional (olha… também é um organismo da ONU!) vem publicamente aumentar a desconfiança e dizer que “O problema é que grande parte do mundo já se questiona se a ONU é relevante aos 75 anos”. Creio que Sherine Trados devia ter dito: “Vamos demonstrar ao mundo que a ONU é muito relevante e será ainda mais nos próximos 75 anos”. É uma questão de perspetiva.

A ONU é importantíssima para o mundo e para todos nós. Porém, é evidente, e foi dito pelos mais clarividentes que estiveram na sessão de ZOOM mais mediática de 2020, nesta terça-feira, não podemos fechar os olhos mais tempo. Não podemos ter um mundo que se contenta com um multilateralismo assente em meras palavras de circunstância, ocas às vezes, que apenas permite que concordemos todos num mínimo denominador comum que vem, infelizmente, esconder apenas as profundas divergências que existem sob a sempre forte fachada da palavra “consensos”.

Que venham mais fortes 75 anos, ganhará a Humanidade.

 

 



 

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