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Afonso de Melo 23/09/2020
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O escritor que não lia

Agora que já demandei a Terra de Tombuctu a Oulan Bator, de Tiruchirappaly a Tegucigalpa, do vale do Nilo ao sopé das montanhas do Pamir, sento-me junto à varanda do quarto grande da Casa de São Bernardo, em Águeda, e sei que foi daqui que parti em busca dos calores da Índia, das florestas do Camboja e do delta do Irrawaddy através do dedo do meu avô Joaquim, que me mostrava onde ficavam todos os lugares do mundo em mapas coloridos para que pudéssemos reconhecer por tons as fronteiras de todas as nações. Era setembro e havia sol. Eu era ainda muito pequeno, e o universo muito grande. Um odor a dióspiros subia do jardim misturado com o das uvas, cujas parras se colavam ao muro que dava para a Estrada Nacional n.o 1. Os pássaros cantavam, debicando os pêssegos e os figos, a panela da marmelada arrefecia sobre o parapeito da janela da cozinha, e ficava triste por ainda não saber ler francês para pegar no L’Inde (sans les Anglais), no Un Pèlerin d’Angkor ou no Vers Ispahan, do Pierre Loti, que me prometiam imagens que só o Salgari do Sandokan e do Corsário Negro me faziam desfilar ao ritmo com que o dedo do meu avô atravessava a longitude da Cochinchina. 

 

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