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Elísio Estanque. A praxe e as tradições académicas

Elísio Estanque. A praxe e as tradições académicas

Pedro Miranda 22/09/2020 18:33

Fenómeno controvertido, desde há um bom par de anos, em Portugal, a temática da praxe académica mereceu um estudo sério e extenso, publicado pelo Professor Elísio Estanque (Praxe e Tradições Académicas, FFMS, 2016). Ao dispor de qualquer cidadão interessado na matéria, mas, sobretudo, daqueles que lidam, ou irão lidar com a praxe fica, pois, um acervo de importantes elementos de análise histórica, simbólica e sociológica daquele ritual

 

1.A praxe, de acordo com o historiador Paulo Archer de Carvalho significa, ainda hoje, "a sobrevivência simbólica de rituais de passagem, de presentificação e de hetero-conhecimento, balizadas por gestos que tentam assinalar a des-bestialização do aprendiz e a sacralização do ofício intelectual, partindo do princípio - consagrado na própria nomenclatura (o burro, a cabra, o chocalho, a "magna besta", etc.) - de que o ser humano é à nascença uma besta e que só pela formação intelectual ou espiritual se liberta dessa primitiva condição" (p.20).

2.A praxe estudantil é um produto de Coimbra, cidade que viu a sua Universidade fundada em 1308. A quando da sua fundação, o rei D.Dinis fez "publicar um decreto instituindo horas de estudo e de recolher obrigatório para os estudantes, estabelecendo que os infratores fossem vigiados e sancionados pelos estudantes mais velhos" (p.16). A Universidade, durante séculos, como sabemos, foi lugar de frequência para uma ínfima parte da população, uma elite, proveniente das "melhores famílias". Neste contexto, deve, pois, entender-se a frequência universitária como próxima da vida dos Liceus, dos Seminários, dos Colégios Internos, dos Conventos - com suas normas, rituais, vida de caserna. Dificilmente, pois, esta tradição, com o ensino massificado, e, em princípio e concomitantemente, com uma (aparente) dessacralização da frequência do Ensino Superior e/ou obtenção de um título académico, faria o mesmo sentido neste tempo. 

3. A primeira vez que se usa o termo praxe ocorre na segunda metade do séc.XIX, com o sinónimo de selvagem.

4. Ainda que sem o nome "praxe", a condutas deste género, no século XVIII chamava-se investidas. Ora, estas, em 1727, chegaram a ser proibidas por D. João V, devido à morte de um novato - sendo infligidas fortes sanções aos infractores. "O fenómeno da violência e do "abuso" é, pois, um problema antigo", regista Elísio Estanque.

5.Com o Iluminismo e "as revoluções liberais, os reformadores fizeram publicar interdições oficiais que foram policiadas por militares, tribunais e forças de segurança pública". 

6.Um inquérito em 23 países ibero-americanos, através da rede universia, evidenciou resultados como: 73% dos jovens portugueses afirmam terem passado por uma praxe pesada quando entraram na Universidade (a média no conjunto de países é de 25%); para 59% dos estudantes portugueses tais actos "tiveram consequências psicológicas"; 20% disse que estes determinaram, mesmo, o seu abandono dos estudos. 31% indicaram que as instituições académicas não lhe deram a devida relevância. Em suma, há um "maior enraizamento [da praxe] no caso português" (p.16).

7.Participação voluntária na praxe?, questiona o sociólogo. Que responde assim: "A justificação mais invocada é a do voluntariado. O que só se confirma se considerarmos apenas a letra da questão. Não é o caso se a dimensão psicossocial for levada em conta. O jovem sente-se frágil, acabou de cair num território desconhecido, precisa acima de tudo de se sentir integrado e protegido. Ele sabe que o preço a pagar para ser aceite naquele círculo "superior" é aguentar firme, levar a coisa "na desportiva" e alinhar com os outros. Aí reside a demonstração de força e o caminho a seguir para receber a bênção da sua instituição, no caso, a colectividade estudantil que o vai acompanhar" (p.29)

8.Mas, questionamo-nos, ainda: E nenhum espaço para a liberdade? "Por vezes, o caloiro pode revelar desde cedo a sua força de carácter e estabelecer, logo ali, uma linha limite até onde pode ser "calcado". Noutros casos, a postura é mais submissa e o sofrimento é maior, porque, geralmente, em "terreno mole" pisa-se mais fundo. O poder do opressor depende da sujeição do oprimido. E há ainda aqueles e aquelas que, quando saem da posição subalterna de caloiros/as e atingem o estatuto de "doutores/as" alteram radicalmente a sua pose" (pp.29-30)

9.Se, dada a massificação no Ensino Superior, pouco compreensível parece qualquer reivindicação do estatuto de elite pelo facto de se ser universitário, porquê, então, o envolvimento na praxe, se ligada, esta, tradicionalmente, a esse - à reivindicação desse - estatuto? De acordo com um estudo promovido pela Assembleia da República, em 2008, eis o paradoxo, como forma de compensação pela perda desse mesmo estatuto: "o ressurgimento da praxe no final do século XX associa-se a um período de massificação do ensino superior e à abertura de novas universidades privadas. Este regresso da praxe corresponde a uma ritualização que parece compensar simbolicamente o próprio esvaziamento do estatuto social de estudante enquanto forma de distinção social e garante de posições elevadas na estrutura do mercado de trabalho. A relativa desvalorização social dos títulos académicos (que deriva da própria massificação da certificação escolar) e a necessidade de legitimação de novas instituições foram um poderoso factor de renascimento das praxes enquanto retórica de tradicionalismo".

10.Que outras explicações para tal adesão, ainda? Em sociedades extremamente individualistas, duas consequências podem advir: ou a anomia social, ou, inversamente, o reforço de identidades colectivas. Neste contexto, a praxe corresponderia a um desejo de pertença e de identidade: "talvez a sua força atractiva - mesmo que na versão punitiva - resida simplesmente numa necessidade de pertença e identidade colectiva que a sociedade já não garante, ameaçada que está pelo deslaçamento dos antigos vínculos sociais e fatores de coesão duráveis" (p.115). Todavia, se assim for, ter-se-á que reproblematizar o dito individualismo das novas gerações. As suas necessidades e propensão gregárias ficam, pois, inevitavelmente assinaladas ("este ponto parece contrariar a ideia comum de que os jovens têm uma propensão individualista e se isolam. Pelo contrário, a aceitação massiva dos rituais da praxe ilustra bem a vocação gregária da actual juventude", assinala o académico). No olhar do sociólogo, "as sucessivas gerações de jovens recém-chegados à Universidade, oriundos de famílias de classe média-baixa e trabalhadora, em muitos casos ainda próximos do mundo rural, facilmente se deixam render à euforia de um apelo 'identitário' lançado pela comunidade estudantil. Ser um 'verdadeiro' universitário é demonstrar uma total dedicação e capacidade de sacrifício tal como qualquer recruta ou novato. Tudo isso lhes é oferecido e funciona como oportunidade não apenas de fazer amigos, conviver e criar fortes laços pessoais, mas, também, de lhes elevar o 'ego' ao entreabrir as portas de um possível estatuto de 'elite' (ou de simulacro de elite). Do ponto de vista de uma tal subjectividade, a condição de universitário só pode, de facto, ser vivida plenamente se a entrega ao colectivismo for incondicional" (pp.97-98)

11.Quanto à história recente de Portugal, e em centrando-se a observação do investigador, primordialmente, sobre a realidade coimbrã, a praxe, na década de 60, chegou a desempenhar "um papel importante como instrumento político na oposição à ditadura de Salazar e à Guerra Colonial, uma vez que foi usada para disfarçar de tradições académicas as intervenções antirregime". Todavia, no contexto da crise académica de 1969, e com o luto estudantil em manifestação contra o Estado Novo, a defesa da praxe e tradições académicas estavam ligadas "à direita mais reacionária" (p.99).

12. "A maioria dos estudantes valoriza positivamente a experiência da praxe por que passou" (p.116)

13.Contudo, se "o ponto de vista dos estudantes não pode, evidentemente, ser menosprezado" (p.144), "o registo objectivo também não pode confundir-se com os olhares subjectivos de quem vivencia as situações da praxe" (p.144). Neste sentido, pois, cumpre registar que "existe toda uma rotina de comportamentos que ocorrem no contexto das praxes aos caloiros, onde se tornou evidente, pelo menos para qualquer observador externo, que não podem ter outro sentido senão o da humilhação e abuso de poder" (p.137)

14.No domínio simbólico, as leituras feitas, por diferentes actores, relativamente aos rituais da praxe, oferecem-nos curiosas interpelações (e, neste contexto, Elísio Estanque cita o blogue “Notas e Melodias”): "A Latada é o início de um ciclo cuja fertilidade volta a ser invocada na Queima das Fitas, não por acaso, durante o período de floração primaveril. O baptismo dos caloiros no fontanário e o ir beber a água à Fonte do Castanheiro na noite de São João, são actos de vivificação que invocam a maternidade. "Mas, e as serenatas, que clamam a noite, a lua, as estrelas, a mulher amada, a mãe? Não são ilustrações categóricas da presença/ausência da feminilidade num mundo de homens? (...) O que significava esse velho ritual de rasgar as vestes e ser violentamente sovado com palmadas no momento em que se acabava o curso e se fugia em correria pela Porta Férrea? O sair da mãe, nu, adulto, emancipado..."(p.84) (...) "na opinião de alguns dos intervenientes, [as tradições académicas] apelam aos afectos, à alegria juvenil, à adesão espontânea dos 'filhos' que correm alegres aos braços da mãe/a Alma Mater (a Universidade), embora por vezes se mostrem despeitados quando ela se torna 'Madrasta'; de outro lado, as 'praxes iniciático-punitivas', aplicadas aos caloiros, vincadamente masculinas, castigadoras, reproduzindo a imagem tradicional do pai tirano, de palavras grossas, cinto de couro ou vara de marmeleiro em riste...".

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