25/10/20
 
 
Afonso de Melo 22/09/2020
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Na primeira pessoa do verbo chover

A chuva surgiu hoje, bisonha, pela manhã, batendo em gotas nas janelas do meu quarto virado a sul, e eu nunca sei ao certo em que lugar preciso começa o sul. Podiam ser dedos, as gotas, quero dizer. É nesta cadência que os teus dedos tamborilam na vidraça da minha memória. Eu tinha uma gabardina larga, muito antiga, que pertencera ao meu bisavô Afonso, o Grande Afonso, como lhe chamavam, que abria as asas das mangas para que coubéssemos ambos debaixo delas. “Oggi me sembra che/ Er tempo se sia fermato qui”, canta o Antonello Venditti lá na sua Roma, que é bela quando chove. Águeda não tem fontes, mas tem fantasmas. Um deles é o meu. “Quanto sei bella Roma quann’è sera/ Quanno la luna se specchia dentro er fontanone/ E le coppiette se ne vanno via/ Quanto sei bella Roma quanno piove...” O casal que sai da letra da música fomos nós. Mais fantasmas para me encherem a vida de ectoplasmas, esta vida ectoplásmica que só encontra na chuva lágrimas que vi brilhar um dia na vidraça dos teus olhos. 

 

 

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