24/10/20
 
 
José Paulo do Carmo 18/09/2020
José Paulo do Carmo

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A mensagem de Fátima que (não) passou

O que não esperava de todo era ouvir um santuário que gastou milhões e mais milhões nas suas recentes infraestruturas, com desvios orçamentais absolutamente absurdos, e que recebe tantos donativos, heranças e outras formas de financiamento, que tem amplos benefícios fiscais, entrando muitas vezes no capítulo da concorrência desleal perante os privados, vir agora dizer que, perante esta pandemia, está em causa a sua sustentabilidade enquanto instituição

É para mim, que nasci em Fátima, profundamente angustiante assistir à forma como a Igreja e, sobretudo, a cúpula do santuário tem lidado com toda esta fase de pandemia. Independentemente das minhas crenças ou da fé que me assiste, sempre vi o espaço como um microclima de paz e de encontro com a nossa própria presença. É isso que nos é transmitido por tantos que por lá passam. A simplicidade dos momentos a sós, a sensação de despojo do acessório e o caráter solidário e profundo na nossa raiz humana. Sempre acreditei, por isso, que Fátima podia liderar na diferença, na união até de várias religiões, que pudesse ser ponto de afluência da discussão transversal do que nos move, mas também do que nos separa, para que mesmo nas nossas diferenças pudéssemos ser mais inclusivos sem deixarmos de ser construtivos.

Mais do que a opulência de determinados símbolos, é o imenso recinto, muitas vezes pejado de pessoas (que procuram uma palavra ou um sinal que lhes dê esperança e força), que transmite uma qualquer sensação inexplicável de magia, mas também de tranquilidade. Pensei, por isso, que na altura em que mais se precisava de uma mensagem forte e contundente, que aproximasse as pessoas e as levasse a acreditar que existe algo mais além que nos dá essa motivação para não desistirmos perante estes tempos tão estranhos, o comportamento fosse outro. A fé deve ser, acima de tudo, uma razão para as pessoas serem melhores, para terem uma razão para seguir as boas práticas, que lhes dê um motivo para lutar por algo que há de vir e que esse julgamento será feito em função das atitudes de cada um.

Mas não temos assistido a nada disso. Ao invés de liderança vimos agachamento, perdeu-se uma oportunidade única para ajudar verdadeiramente tantas pessoas que se sentiram sozinhas e perdidas, dando-lhes um sinal de esperança que lhes mostrasse que vale a pena acreditar. E esse caminho poderia ter redundado numa revitalização da Igreja, do conteúdo e da fé que guia tantos que precisam desesperadamente de se agarrar a algo que lhes dê a força necessária para continuar a caminhada. Mas aquilo a que assistimos foi a pessoas como nós, que sentiram os seus medos, que se resguardaram e fecharam e, mais do que isso, que tentaram aproveitar esta fase para despedir funcionários e para colocar sorrateiramente em marcha uma política fria e arrogante, ao invés de apoiar os que lhes são próximos nos tempos mais difíceis.

O que não esperava de todo era ouvir um santuário que gastou milhões e mais milhões nas suas recentes infraestruturas, com desvios orçamentais absolutamente absurdos, e que recebe tantos donativos, heranças e outras formas de financiamento, que tem amplos benefícios fiscais, entrando muitas vezes no capítulo da concorrência desleal perante os privados, vir agora dizer que, perante esta pandemia, está em causa a sua sustentabilidade enquanto instituição. Isto só mostra das duas uma: ou que a tão proclamada profissionalização chegou da forma errada à maneira como se comunica, ou que foi tal o regabofe que se entrou numa espiral de despesismo sem paralelo que as contas enviesadas procuram agora esconder. Parece que já ouvimos isto em algum lado. Sim, a Festa do Avante! é a outra face da mesma moeda. Nos comportamentos, na forma como se acham superiores e na necessidade urgente que deviam ter de se refundar... É altura de pensarem mais nas pessoas que dizem servir e menos no próprio umbigo.

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