25/9/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 16/09/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Portugal, país violento

A nossa realidade quotidiana está cheia de violência de toda a espécie, parte da qual é psicológica e social.

Somos um país violento, mesmo que certas estatísticas digam que não. Se olharmos para a violência doméstica (dos maus-tratos à violação de crianças e jovens) e de vizinhança, não há dúvida de que, estatisticamente, somos daqueles em que há mais crimes.

A violência resultante, por exemplo, do alcoolismo é uma verdadeira chaga social. Já se olharmos para o crime organizado, os números não indicam nada disso. No caso de assaltos a pessoas na rua com agressões associadas também não é dramática a nossa média, embora se sinta cada vez mais insegurança nas ruas. Apesar disso, somos um país violento. É que a nossa violência não tem apenas a ver com mortes, ferimentos, tiros e agressões físicas, domésticas ou não.

Boa parte da nossa violência é a que nos desgasta física e psicologicamente, cada dia que passa. Violência é não ter médico e não ser tratado anos a fio. Violência é vermos doentes do IPO à espera de consulta à torreira do sol.

Violência é vermos crianças e velhos abandonados à sua sorte em instituições ou em casa. Violência é vermos o novo vírus da morte ceifar dezenas de vidas em lares. Violência é ligar horas a fio para um hospital para ter notícias de um familiar e a chamada ser desligada do lado de lá. Violência é esperar meses e anos por respostas da Segurança Social. É desesperar perante uma justiça processual e lenta que favorece culpados e destrói a vida de inocentes. Violência são patrões que não pagam e empresas que fecham de um dia para o outro. Violência são classes profissionais ligadas ao Estado que tudo fazem para nada fazerem. Violência é ganhar três euros à hora e ir trabalhar em comboios cheios às seis da manhã. Violência é pertencer a uma minoria étnica e não ter hipótese de progredir na vida, mas ver que há alguns, até dessas minorias, que usam e abusam do sistema. Violência é xenofobia e racismo. Violência são os radicalismos da extrema-direita e da extrema-esquerda moralistas e parasitárias. Violência é andar uma vida inteira a trabalhar e ver que há uns quantos que têm benefícios sem praticamente terem contribuído. Violência são crianças com alto grau de deficiência que não têm amparo do Estado para as suas famílias. Violência são cuidadores de familiares sem apoios, quando poupam milhões ao Estado. Violência é ver que há coisas que só se resolvem quando os jornais as denunciam e as televisões pegam no tema. Violência são os bancos que fazem o que querem com o dinheiro dos cidadãos, cobrando comissões pornográficas. Violência é verificar que há banqueiros que invocam contratos leoninos para o Estado pagar milhões a fim de compensar vendas a pataco, enquanto uma pessoa comum não tem sequer direitos de consumidor garantidos. Violência é ver que há privilégios políticos para uns e obrigações para outros. Violência é ser constantemente perseguido por impostos, taxas e taxinhas e por dezenas de autoridades de toda a espécie a quem foram dados poderes de polícia. Violência é um país onde a corrupção se infiltrou em todo o lado e em todos os níveis e setores, do Estado ao mundo privado. Violência é ver verdadeiros mafiosos de colarinho branco a receberem pensões de milhões, pagas por empresas que eles destruíram. Podia multiplicar-se por muitos outros exemplos os que aqui foram citados. 

Através desta enumeração parcial fica-se com a certeza de que é profundamente errado e uma fuga à realidade os portugueses afirmarem-se como uma sociedade pacífica e de brandos costumes. Não o somos hoje como não o éramos ontem e há algumas décadas.

A violência da pobreza, do abandono e da tristeza está por todo o lado em Portugal. Está nas cidades maiores, onde há crime, abandono, pobreza de sem-abrigo e pobreza envergonhada de jovens e velhos. Mas está também no interior desertificado, onde alguns resistem e vivem à margem, sem se interessarem por nada e sem que ninguém se interesse por eles.

O nosso retrato enquanto povo é, em geral, triste e desolador. Temos, claro, coisas muito boas, mas a realidade manda dizer que estamos cada vez mais distantes do progresso. Entrámos há anos num caminho de regressão que é objetivamente mensurável quando nos comparamos com os nossos parceiros da União Europeia. A crise pandémica e económica só vem agravar as coisas e a nossa desorganização em termos de Estado, a nossa burocracia e a nossa ancestral tentação de viver de rendas e oiros do Brasil ou da União Europeia não ajudaram nunca, nem vão ajudar agora, a mudar as coisas.

 

Escreve à quarta-feira

 

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