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“Olho para Vénus como o que pode acontecer à Terra se correr mal. Se tivermos tempo podemos semear a vida no Universo”

“Olho para Vénus como o que pode acontecer à Terra se correr mal. Se tivermos tempo podemos semear a vida no Universo”

Marta F. Reis 15/09/2020 09:25

Meio século depois de Carl Sagan levantar a hipótese, uma equipa de cientistas acredita que poderá mesmo existir vida microbiana nas nuvens de Vénus. Pedro Mota Machado, especialista em atmosferas planetárias e estudioso do “gémeo terrível da Terra”, ajuda a perceber o impacto do anúncio feito ontem pela Real Sociedade Astronómica do Reino Unido. No próximo mês vai também andar à caça de fosfina nas nuvens do nosso vizinho. 

A descoberta de fosfina na atmosfera de Vénus – um gás que na Terra está sempre associado a vida – dá fôlego à hipótese de o nosso vizinho do lado ser habitado. Não será bem a vida como a conhecemos: a existir, serão micróbios, suspensos nas espessas nuvens de Vénus, onde os tórridos 460 oC à superfície dão lugar as uns confortáveis 20 oC. Pedro Mota Machado, especialista em atmosferas planetárias, ajuda a perceber o impacto do anúncio feito ontem pela Real Academia Astronómica do Reino Unido. Em outubro, o investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço estará também de olhos postos na atmosfera do “gémeo terrível da Terra” à procura de mais pistas.

 

Depois deste anúncio, há vida em Vénus ou é cedo para ter a certeza?

Nem pensar. É uma descoberta fantástica que vai fazer correr tinta, e bem, mas é cedo para o afirmar. É verdade que, na Terra, a fosfina está associada à vida, à parte anaeróbica da vida, em que não há metabolismo de oxigénio.


Falamos de micróbios apenas?

Sim, micróbios, bactérias do trato intestinal, em alguns mamíferos, em alguns peixes também. É onde se encontra fosfina na Terra, sempre onde não existe oxigénio. Até porque é um gás muitíssimo tóxico, até venenoso. Seriam ETs muito difíceis de dançarmos com eles num baile, seriam extremamente tóxicos para nós e vice-versa. Portanto, é verdade que na Terra, a fosfina que é detetada está sempre ligada à vida e para sabermos isso contribuíram estudos prévios da Dra. Clara Sousa Silva, do MIT, que estuda a fosfina há décadas. 


Há sempre um português ou uma portuguesa…

Uma portuguesa de alto gabarito, e é com muito mérito que ela acaba por estar ligada a esta descoberta. O trabalho da dra. Clara Sousa Silva está na linha da frente do que permite esta descoberta: fez a modelização das riscas espetrais desta molécula que, no fundo, é o que torna possível fazer estas observações. Fizeram estudos de modelização e chegaram à conclusão de que na Terra não é possível formar-se fosfina a partir de queda de meteoritos ou vulcanismo. É sempre sinal de vida.


A questão agora é saber se será em Vénus?

Sim. Generalizam para planetas telúricos e, quanto a mim, creio que aí teremos de ter um pouco mais de calma, porque os planetas telúricos são muito diferentes. Terra e Vénus podem parecer muito semelhantes numa primeira análise, mas são diferentes. Acho que não há propriedade intelectual suficiente para se afirmar isso. Já foi detetada fosfina noutros planetas, em Júpiter e Saturno, que é formada de forma abiótica, em ambientes ricos em hidrogénio, com elevadas temperaturas e elevadas pressões.


É o que se encontra em Vénus?

Temos as altas pressões e as altas temperaturas, mas não o hidrogénio. Mas pode existir hidrogénio e não sabermos. Sendo Vénus o nosso vizinho do lado, poderíamos pensar que sabemos tudo sobre ele, mas não é verdade. Sabemos muitíssimo mais sobre Marte do que sobre Vénus.


Porquê?

É difícil levar sondas à superfície, duram muito pouco tempo. Houve algumas que duraram meia dúzia de minutos, como as Venera (1983/1984). Sendo um planeta inóspito, à partida pensava-se que não haveria vida, pelo menos vida como a conhecemos. Mas a verdade é que no topo das nuvens, onde foi feita esta deteção, já não existem as temperaturas infernais que existem à superfície, são à volta dos 20 oC. E há uma atmosfera de pressão. Vénus não foi sempre esta incineradora que é hoje. No passado, quando o Sol não era tão quente e não havia este efeito de estufa descontrolado que aquece Vénus, devido a uma grande quantidade de dióxido de carbono, o ambiente não era assim. Há indícios de ter havido grandes quantidades de água. Não temos nenhuma evidência, mas pode ter havido vida no passado à superfície de Vénus. Passaram muitos milhões de anos. Pode ter havido uma vida remanescente que passou a flutuar nas nuvens, a ideia propalada por Carl Sagan.

 

Faz mais sentido essa hipótese do que pensarmos que estamos diante de vida que ainda não evoluiu?

Entramos na esfera das opiniões. Tirando o chapéu de cientista, a minha opinião é que é o mais provável. A vida, quando já existe, é muito resiliente. Pensaria numa vida evoluída que hoje tem esta forma resiliente, que conseguiu manter-se a flutuar ao nível das nuvens, uma vida microscópica, bacteriana. Isso é possível? É. O PH3, a fosfina que se descobriu agora, poderia ser um marcador desta vida anaeróbica, sim. Como cientista, temos de testar todas as hipóteses. A meu ver, no comunicado, acho que carregam um pouco na hipótese com a ideia de que na Terra não existe fosfina sem ter origem biológica. Em Vénus pode haver outras causas e por isso digo que é cedo.


É a evidência mais robusta de vida fora da Terra?

Em Marte temos as exalações de metano, penso que estamos ao mesmo nível. Esta é uma notícia fortíssima porque põe o cursor a apontar para Vénus também. Marte tem tido várias missões e tem outras planeadas. Penso que esta descoberta coloca Vénus no carril para ter missões de exploração espacial.

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