26/9/20
 
 
José Paulo do Carmo 11/09/2020
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

Amigos amigos, telemóveis à parte...

Vieram dar toda uma nova vida à celebre frase “não é o que estás a pensar”, criando também a nova moda do “querida, estás a ler isso fora do contexto”. Todos sabemos de alguém que já conheceu a pessoa com quem está através das afamadas aplicações de encontros e também quem já se separou por causa delas.

Cada um de nós tem três vidas. A pública, a privada e a secreta. Sendo que os telemóveis vieram alimentar a terceira, por vezes expondo cada vez mais as outras duas e seguramente baralhando cada uma delas… A verdade é que, para o bem e para o mal, tornou-se o centro das nossas vidas. E se é a principal causa de divórcios, de confusões e de mal entendidos (bem entendido…) é também, nos dias que correm e segundo vários estudos, a forma mais comum de conhecer pessoas ou de mandar aquela mensagem malandra “a ver se pega”. Vieram dar toda uma nova vida à celebre frase “não é o que estás a pensar”, criando também a nova moda do “querida, estás a ler isso fora do contexto”. Todos sabemos de alguém que já conheceu a pessoa com quem está através das afamadas aplicações de encontros e também quem já se separou por causa delas. Ou de alguma coisa que encontrou no telemóvel do companheiro(a) e não gostou.

Imaginem sete amigos que se conhecem há muito tempo. Três casais e uma sétima pessoa. Num dos seus habituais jantares de amigos o tema vem à baila e alguém afirma que não guarda segredos dos outros, que são como família e conhecem a sua vida de trás para a frente. Todos concordam, mas alguém desafia para que, se assim é, que coloquem todos os telemóveis em cima da mesa e que, quando algum  tocar, seja mensagem ou chamada, isso seja atendido ou lido em voz alta. Tudo o que aparecer é partilhado por todos. Está claro como acabou esse jantar. Desde relações entre pessoas do mesmo grupo ao assumir de diferentes orientações sexuais, passando por segredos sobre os filhos e intimidades com colegas de trabalho, tudo vem ao de cima numa confusão instalada com agressões e casamentos acabados. É assim, desta forma crua e atual, que o filme italiano com o mesmo nome do título da crónica retrata a influência que estes pequenos objetos têm na nossa vida e na nossa privacidade.

Na realidade devemos ser nós a assumir o controlo e a não nos deixarmos levar pelas inúmeras tentações. Lembro-me bem dos tempos em que vivia fora e que se revelava tão importante para o meu equilíbrio emocional as videochamadas que fazia para a família e as mensagens constantes que me aproximavam dos amigos. Sem isso teria sido incomensuravelmente mais difícil. Da mesma forma que foram os meus amigos que me fizeram perceber que estava a ir longe demais com a dependência que me fazia alhear-me de conversas e encontros fantásticos, desperdiçados a olhar para um ecrã, sem nada de urgente para fazer. O telefone deve ser uma ferramenta fantástica para o nosso trabalho e a nossa vida pessoal. Mas não se deve transformar na nossa vida.

É preciso ter muita atenção aos perigos que nos traz a internet e, por inerência, o telemóvel. As redes sociais e as aplicações de chats vão criando cada vez mais rasteiras e caminhos escorregadios com que temos forçosamente que saber lidar. Como são disso exemplo as mensagens mágicas que agora se podem enviar e que se apagam em cinco segundos, como se se auto destruíssem, como na Missão Impossível. Assim como existem inúmeros burlões escondidos entre números privados e perfis falsos, prontinhos para nos sacar dinheiro ou chantagear. O melhor mesmo é aproveitarmos as diversas vantagens que nos trazem na comunicação e na capacidade que têm de nos aproximar - ou de resolver problemas através de uma simples chamada ou de aplicações que nos facilitam o dia a dia -, mas nunca nos esquecermos de que eles não substituem os diversos momentos que temos para viver com as pessoas que nos são mais próximas. E que aqueles que se perdem não se voltam a recuperar…

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