26/9/20
 
 
Rodrigo Alves Taxa 11/09/2020
Rodrigo Alves Taxa

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Marisa Matias. Contra o medo explorando o medo

Marisa Matias apresenta-se como a candidata contra o medo, mas, tal como fazem as sanguessugas, alimenta-se da vida do hospedeiro para encontrar viabilidade para a sua.

A semana que agora termina foi repleta de desenvolvimentos no que às candidaturas presidenciais diz respeito, nomeadamente pelas apresentações oficiais de Marisa Matias e Ana Gomes ao sufrágio que a passos largos se aproxima, sendo que a apresentação da segunda foi particularmente sofrível. Mas de Ana Gomes falaremos na próxima semana, dando, nesta, especial destaque a Marisa Matias.

O Bloco de Esquerda e os candidatos que nascem na sua corrente ideológica sofrem todos do mesmo problema que se caracteriza pela natural tendência em se fazerem passar pelos detentores da moral e dos bons costumes quando não são. Tal como em tempos, graças a Deus longínquos, fez o PCP, ainda que o BE o faça hoje de uma forma mais atualizada fugindo aos dogmas procedimentais antigos. Não é portanto de estranhar que Marisa Matias, que não tem conteúdo político absolutamente nenhum, mascare essa total ausência total de substância com uma aparente e tranquilizadora bonomia, aqui e ali criticando Marcelo e o sistema, dando-se até ao luxo, num toque de marketing bem pensado, aparecer sozinha de companhias do seu partido dando a entender que os ares de Bruxelas lhe apaziguaram a alma.

Mas para quem pensa a política de uma forma mais objetiva e, sobretudo, a acompanha na observação das mais requintadas subtilezas, perceberá que a bandeira que Marisa Matias diz transportar não é mais do que o alimento que lhe permite candidatar-se. Passo a explicar: Marisa Matias diz-se candidata contra o medo. Até aí nada de mais. No entanto é muito estranho que quem se diz candidatar contra o medo, tenha apresentado a sua candidatura fazendo-se acompanhar de 17 profissionais de várias atividades que prestaram serviços na linha da frente ao combate à pandemia que, portanto, no medo vivem todos os dias. Deste leque, a exemplo, tanto quanto foi informado, encontravam-se um trabalhador da recolha de lixo, uma cuidadora informal, um médico, um enfermeiro, uma estudante, uma professora ou ainda um micro empresário. Ou seja, Marisa Matias apresenta-se como a candidata contra o medo, mas, tal como fazem as sanguessugas, alimenta-se da vida do hospedeiro para encontrar viabilidade para a sua.

É, portanto, verdadeira e profundamente contracensual a dinâmica em que se diz apresentar a votos, ainda que lhe reconheça engenho tático na forma como embelezou e mascarou a narrativa. Já quando diz ser uma candidata frente-a-frente contra Marcelo Rebelo de Sousa, aí não espanta ninguém. Não espanta porque a grande força de Marcelo reside unicamente na simpática imagem pública por si e por certa imprensa fabricada durante décadas. Enquanto político, puro e duro, é merecedor de respeito, mas desprovido de qualquer capacidade de criar medo em quem o queira defrontar. Marcelo é politicamente fraco. Chamar-lhe-ia mesmo um mito. Algo de que se fala muito sem nunca nada se ver. Tanto é que durante toda a sua vida política perdeu todas as disputas a que se submeteu. Tem uma fortíssima imagem mediática contrastante com uma fraquíssima substância política. Para mais como estes quatro anos demonstraram. Portanto, qualquer pessoa defronta Marcelo com relativa facilidade.

O único capital que eu admito dar algum élan à candidata a que me dirijo são os dez por cento que Marisa Matias atingiu na sua última candidatura. Mas que a própria também não esqueça que só os alcançou porque nessa eleição, todos os demais candidatos a par de si e do atual presidente eram absolutamente banais, diria mesmo que a roçar a mediocridade política. Nas eleições que agora se aproximam será bem diferente até porque se André Ventura é o único nome que pode verdadeiramente apertar Marcelo, acresce que ainda vai ter uma Ana Gomes a roubar-lhe diretamente algum eleitorado.

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