26/9/20
 
 
António Luís Marinho 11/09/2020
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

O pescador e os peixinhos

Ventura podia ter atacado Ana Gomes politicamente, mas isso não teria certamente o efeito que desejava. Portanto, lá foi buscar de novo a comunidade cigana.

Se fizermos uma pesquisa exaustiva, não encontraremos certamente nenhum caso de um partido com apenas um deputado na Assembleia da República ter tido o efeito mediático que o Chega, diga-se André Ventura, tem atualmente.

E o segredo é simples. O líder do Chega dedica-se a lançar comentários polémicos sobre quase tudo, a propósito de tudo e de nada, e os jornais, as rádios, as televisões e, sobretudo, as redes sociais vão atrás, como peixes atrás do anzol escondido no isco.

As suas últimas declarações sobre a candidatura à Presidência da República de Ana Gomes são o exemplo acabado do que afirmei.

Ventura podia ter atacado Ana Gomes politicamente, mas isso não teria certamente o efeito que desejava. Portanto, lá foi buscar de novo a comunidade cigana – tema certo para polémica – para dizer que Ana Gomes era a “candidata cigana destas presidenciais”, acrescentando que ela era “a representante fiel das minorias que não trabalham e dos coitadinhos que clamam o racismo dos portugueses.”

Não contente com a tirada, André Ventura lança a cana de pesca ainda mais longe e “dramatiza”, antevendo já os títulos dos jornais: “Se por acaso ficasse à minha frente, demitia-me de líder do Chega”.

E, claro, lá conquistou uma série de títulos e de notícias.

Como é óbvio, Ventura, que acaba de ser eleito presidente da direção nacional do seu partido com a percentagem digna de um líder norte-coreano – 99,1% –, não faz qualquer tenção de cumprir a promessa, mas conseguiu já, por exemplo, que nas redes sociais se começasse a apelar à desistência de Marisa Matias, para concentrar votos em Ana Gomes.

Na verdade, estão a levar André Ventura a sério. Depois da hipótese de entendimento admitida por Rui Rio, este foi o segundo grande presente oferecido ao líder do Chega.

Já aqui afirmei que o radicalismo populista só pode ser combatido com a resolução dos problemas que ele ergue como bandeira – e para os quais também não tem soluções –, mas isso parece estar fora das capacidades dos partidos tradicionais, entretidos e enredados nos meandros da política tradicional, cada vez mais afastada do cidadão comum, com especial incidência no mais jovem.

Vale a pena refletir sobre esta frase de Jack Shenker, autor de Já Estão a Prestar Atenção! Como se Fará a Política do Amanhã:

“O fracasso por parte de gerações de líderes políticos em fazer uma crítica significativa à ascensão descontrolada dos mercados deixou a porta aberta para a extrema-direita oferecer outras narrativas explanatórias sobre o que correu mal e quem são os culpados”.

Quanto aos jornalistas que estão objetivamente a servir de peixinhos, Vicente Jorge Silva teria para eles um epíteto: “Tontaços!”

 

Jornalista

 

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