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Egito. A repressão que esconde a violência sexual e pune as vítimas

Egito. A repressão que esconde a violência sexual e pune as vítimas

AFP Hugo Geada 09/09/2020 22:27

Autoridades egípcias detiveram seis pessoas que denunciaram crimes de violência sexual.

Em mais um capítulo na luta contra a violência sexual no Egito, tudo parecia alinhado para os nove suspeitos de violarem uma jovem, em 2014, serem detidos. Contudo, quem acabou por ser preso foram… as testemunhas.
Seis pessoas foram detidas nas suas próprias casas pelas forças de segurança egípcias. Entre estas estavam três das mulheres que denunciaram a violação acima mencionada, que aconteceu no Hotel Fairmont Nile City, dois homens que as acompanhavam no momento da detenção e o organizador da festa de 2014 em que aconteceu o crime.

Estas mulheres faziam parte do movimento feminista que, através das redes sociais, procurou denunciar a cultura de violação do país e que chegou a ser mencionado como o “#MeToo egípcio”. Apesar de uma abordagem positiva por parte das autoridades e da promessa de capturar os nove homens acusados (foram emitidos mandados de prisão e três deles chegaram a ser detidos no Líbano), agora, estas testemunhas estão a ser detidas sob a acusação de “violar os valores das famílias egípcias”, “danificar a imagem pública do Egito” e “devassidão”.

“Este é um momento aterrador para a comunidade feminista e LGBTQ”, disse Amr Magdi, investigadora da ONG Human Rights Watch, citada pelo Guardian.

O caso que chocou a nação O crime que aconteceu em 2014 voltou a ganhar relevo após as denúncias feitas em redes sociais, como a conta de Instagram “Assault Police”, com quase cerca de 193 mil seguidores. Um grupo de nove homens drogou e violou uma jovem de 18 durante uma festa e gravou o ato, utilizando-o para forçar a jovem a manter o silêncio.

No entanto, o feitiço virou-se contra o feiticeiro e, através da gravação, os criminosos foram identificados e os seus nomes e fotografias começaram a circular na internet.

No início de agosto, o Ministério Público do Egito anunciou que ia investigar este caso e os acusados, resultando na detenção de três indivíduos, mas, nos últimos tempos, os alvos das detenções voltaram a ser as pessoas que denunciam os atos de violência, de forma a abafar a má reputação do país e para enviar uma mensagem do que acontecerá se mais alguém surgir com estas acusações.

Segundo outros membros do movimento, os denunciadores foram detidos ilegalmente, sem mandados, em locais não identificados, foram impedidos de comunicar com o advogado durante os interrogatórios e as mulheres foram alvo de “exames vaginais” e os homens de “exames anais”.

 

As denúncias e os crimes

Os testemunhos de vítimas de crimes de violência sexual começaram a surgir em força nas redes sociais no mês passado, com inúmeras mulheres egípcias a denunciarem em primeira mão os crimes que foram cometidos contra as próprias.

“Neste momento, a única maneira de combater [a cultura de violação] é através de redes sociais online”, disse ao Guardian a administradora da página de Instagram “Harassers of Cairo” (assediadores do Cairo), Ahmed, cujo nome completo não foi revelado para sua segurança. “Existe corrupção; se o vosso pai for rico e poderoso podem escapar das consequências muito facilmente. Para já, o melhor caminho é o online”.

As ativistas acusam a lei egípcia de ser incapaz de responder a casos de violência sexual e assédio e de não conseguir punir os criminosos. O Guardian relata que apesar de existirem esforços para permitir que se façam queixas anónimas e online, “ainda há muito a fazer antes de os sobreviventes se sentirem confortáveis a relatar estas experiências à polícia”.

O crime sexual é um grave problema no Egito. Um inquérito de 2013 revelou que mais de 99,3% das mulheres egípcias já se sentiram de alguma forma assediadas.

Em 2011, a jornalista norte-americana Lara Logan foi agredida sexualmente por uma multidão de cerca de 200 homens enquanto fazia uma reportagem no Cairo. Logan, que acabou por ser salva com a ajuda de um grupo de mulheres e de soldados egípcios, falou mais tarde, no programa 60 Minutes, da CBS, sobre a experiência, o assédio que inúmeras jornalistas sofrem e a existência de ataques sexuais em massa na Praça Tahrir, no Cairo, como forma de arma contra manifestantes.

Estas injustiças levaram inúmeras mulheres a protestar nas redes sociais. Antes das mais recentes detenções, em 2018, duas mulheres foram presas depois de criticarem o assédio sexual online. Estas detenções foram feitas ao abrigo da lei de segurança abrangente que o Governo usa para reprimir aqueles que criticam o Egito. Entretanto, uma das mulheres continua presa, enquanto a outra, de nacionalidade libanesa, foi deportada. 

Entre abril e julho, pelo menos oito mulheres foram presas por partilharem vídeos com mensagens feministas na rede social TikTok. Um tribunal do Cairo sentenciou Haneen Hossam, Mawada Eladhm e três homens a uma pena de dois anos de cadeia e a uma multa de 16 mil euros.

“O veredicto é chocante, mas era esperado”, disse o advogado de direitos humanos Tarek al-Awadi à AFP. “Este é um indicador perigoso… Independentemente das visões divergentes do conteúdo apresentado pelas mulheres no TikTok, ele não é razão para as prender”.

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