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Eduardo Oliveira e Silva 09/09/2020
Eduardo Oliveira e Silva

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Marcelo e os outros

Tirando Marcelo, as pessoas mais confiáveis não querem ser candidatas a Belém e as que querem avançar não parecem sê-lo, do ponto de vista político.

Aos poucos vão-se conhecendo nomes de candidatos à Presidência da República. Falta saber a decisão final de Marcelo Rebelo de Sousa, mas há uma probabilidade altíssima, para não dizer uma certeza, de que o atual chefe de Estado volta a apresentar-se. E só isso faz sentido, dada a conjuntura de pandemia grave, a crise económica, a exigência de estabilidade política, as responsabilidades próximas de Portugal na União Europeia e, sobretudo, a necessidade de os portugueses terem alguém que conhecem e em quem podem confiar. Não sendo Marcelo, quem poderia ser? A resposta é simples: as pessoas confiáveis são poucas e não estão disponíveis. Já as que estão disponíveis não são confiáveis politicamente nem têm currículos que sustentem o exercício da Presidência.

Por simpáticos que sejam do ponto de vista pessoal, quem poderia confiar em André Ventura ou Marisa Matias, dois radicais de sinal contrário, na chefia do Estado? Que garantias dariam, já não só de respeito pela democracia e quadro constitucional, mas no da justiça social, do respeito do equilíbrio e da equidade? André e Marisa só vão a jogo para marcar posição pelos seus partidos. Avançam sem ilusões, apenas para usarem os tempos de antena e fazerem passar as agendas radicais e inaplicáveis em qualquer circunstância. Há também, claro, a vaidade pessoal e a garantia de assegurar um lugar político no futuro. É sobretudo o caso da candidata do Bloco. Ventura tem outras capacidades e saídas profissionais, como todos lhe reconhecem.

Do lado dos comunistas, que esta semana viram a deserção dos seus militantes da Festa do Avante!, é certo que haverá um candidato. Seja ele novo ou velho, feio ou bonito, homem ou mulher. O discurso será, como sempre, o do alerta contra a suposta e concertada ofensiva reacionária em curso de que todos fazem parte, salvo os comunistas. Dali não virá nada de novo. A melhor prova disso é que Jerónimo de Sousa já anunciou que está para durar e disponível para se manter como secretário-geral e, simultaneamente, dar uma mãozinha ao Governo Costa. Na verdade, tudo concorre para que o espaço do PCP vá sendo paulatinamente dividido a meias pela direita e pela esquerda radicais. Bom para o Chega e excelente para o Bloco.

Já no campo socialista há a confirmação do avanço de Ana Gomes, que era óbvio. Mulher, política e inteligente, Ana Gomes forçou a porta do PS, contrariando a vontade de António Costa e da oligarquia socialista, que preferiam não ter candidato e deixar Marcelo correr sozinho. Gomes é um remake frenético de Manuel Alegre e de Fernando Nobre. Anda pelo espaço ideológico de um socialismo de esquerda não extremista, não marxista, não anticapitalista, mas muito barulhento. Uma coisa que dá para defender tudo e o seu contrário. Ana Gomes tem uma vida ativa, um passado com prestígio, adquirido em lugares resultantes da circunstância de ser uma política profissional, em que se tem exposição mediática e salários simpáticos. Mesmo na diplomacia, o dedo da política partidária esteve e está sempre presente. Desengane-se quem pensar o contrário. As qualidades e a perspicácia não tornam Ana Gomes uma figura capaz de ser Presidente da República Portuguesa. Os seus poucos apoiantes no PS vão da esquerda à direita do partido – de Pedro Nuno Santos (intimado indiretamente por Costa a ficar caladinho) até Francisco Assis. O que os une a todos é já não suportarem Costa e a mão de ferro com que ele dirige o PS, abafando qualquer sinal de discordância e criando na sociedade uma verdadeira asfixia democrática.

Além dos candidatos mencionados, é hoje pouco provável, dado o quadro de gravidade em termos de saúde pública e do panorama económico, que saltem ao caminho uns indivíduos pitorescos, meio trogloditas embora simpáticos, tipo Tino e quejandos. Mas já há dois partidos que dizem ter candidatos, o PDR e o Iniciativa Liberal. Veremos se chegam à concretização.

Sucede que os tempos não estão para se perder dias a fio com retóricas políticas estéreis. A campanha presidencial terá de ser de baixos recursos financeiros e de contacto afetivo junto das pessoas mais carentes e em perigo, mas com o indispensável distanciamento social. Esperemos que não se assista a espetáculos indecorosos junto dos mais indefesos. Mais do que nunca se exige decência política e ética. É imperativo que não haja tiradas demagógicas, sobretudo da parte de quem sabe que vai perder, estando lá apenas para servir desígnios partidários, com a despreocupação de quem sabe que nunca terá de cumprir nada do que promete. É positivo que haja vários candidatos. Mas é essencial que quem se apresente saiba estar à altura da situação portuguesa, europeia e mundial e focar-se naquilo que realmente preocupa a população, sendo certo que o papel do Presidente não é executivo nem o será futuramente. Os portugueses não desejam peixeiradas, muito menos nas atuais circunstâncias. Para degradação, bastam as presidenciais americanas.

Quando Soares foi reeleito com mais de 70%, Basílio Horta entrou na corrida e radicalizou o discurso à direita. Hoje, já quase ninguém se lembra do que ele disse. Talvez nem ele. Se se lembrasse, dificilmente andaria de braço dado com a esquerda e esta com ele. Na política, a memória também é curta. Esperemos que o que aí vem seja mais elevado do que aquilo a que se assistiu na época.

 

Escreve à quarta-feira

 

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