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Vicente Jorge Silva. O jornalista insubmisso com um toque de génio

Vicente Jorge Silva. O jornalista insubmisso com um toque de génio

José Cabrita Saraiva 09/09/2020 08:39

Definia-se como “jornalista de alma e coração”. Mas os amigos recordam-no também como um bon vivant, um líder nato e um apaixonado por cinema. Vicente Jorge Silva, fundador do Público, morreu aos 74 anos.

Dono de uma personalidade vincada, marcante e sedutora, gostava do confronto de ideias e tinha fama de ferver em pouca água. Era um apaixonado por cinema e realizou vários filmes, entre os quais Porto Santo (1997), a sua primeira longa-metragem, com Ana Zanatti, Leonor Silveira e Beatriz Batarda. Teve uma passagem fugaz pela política, como deputado do Partido Socialista – o que viria a considerar “um equívoco”. Mas foi sobretudo como jornalista que se notabilizou, primeiro no Comércio do Funchal, depois no Expresso e, finalmente, como fundador do Público, em 1990, de que seria o primeiro diretor. Vicente Jorge Silva faleceu na madrugada de terça-feira, de doença prolongada. Tinha 74 anos.

“Marcou a vida de todos os que consigo se cruzaram”, recordou ontem Marcelo Rebelo de Sousa, que com ele conviveu no Expresso. “O Presidente da República, que teve a honra de ser seu aluno em tantos instantes de vida partilhada e seu amigo e admirador sempre, recorda-o com inapagável saudade, mitigada pela sensação de que o seu testemunho continua presente como nunca”, continuava a nota divulgada no site da Presidência. Num tom menos institucional, Marcelo escreveu uma carta aberta ao “amigo e camarada nas fainas de pôr de pé jornais”, em que evocava as “mil memórias comuns”, a “sua gargalhada esfuziante”, a “sua inteligência implacável” e até os “seus excessos – que não há toques de génio sem excessos”.

 

Liberdade e insubmissão

Vicente Jorge Silva nasceu a 8 de novembro de 1945 no Funchal, no seio de uma família de ilustres fotógrafos. O próprio reconhecia que tinha sido uma criança rebelde, um traço de caráter que, aliás, nunca perdeu. “Era um ser insubmisso e livre”, escreveu ontem a jornalista Teresa de Sousa no Público.

Foi essa insubmissão que acabou por levar à sua expulsão do liceu, obrigando-o a prosseguir os estudos no Continente. Aos 18 anos emigrou para Paris, onde contactou com os intelectuais portugueses ali exilados, trabalhou numa fábrica de cola e moldou a sua mundividência. Desejoso de seguir a sua paixão, passou por Londres com o objetivo de estudar cinema, o que nunca chegou a acontecer.

Regressado ao Funchal, relançou ainda no final da década de 60, com um grupo de amigos madeirenses, o Comércio do Funchal, imprimindo-lhe uma nova dinâmica, cativando colaboradores e catapultando-o para a esfera nacional, como referência do jornalismo de esquerda.

Em 1974 instalou-se em Lisboa para continuar a carreira no jornalismo. Como diria a Isabel Lucas (Vicente Jorge Silva – Conversas com Isabel Lucas, ed. Temas & Debates): “Vim um pouco à aventura, pensei primeiro n’A Capital, onde se encontrava o Cáceres Monteiro, mas acabei no Expresso, onde conhecia o Francisco Pinto Balsemão dos tempos em que ele estivera à frente do Diário Popular”. Balsemão não lhe deu “garantias de entrada imediata na redação”, pelo que ficou apenas como colaborador.

 

“Tempos animados”

Naturalmente, a sua energia, carisma e criatividade permitiram-lhe conquistar espaço e influência. De colaborador passou a redator, responsável de secção, chefe de redação (nomeado por Marcelo Rebelo de Sousa, então diretor) e, finalmente, diretor-adjunto e mentor da Revista. “Tive o gosto de trabalhar com o Vicente na Revista do Expresso – foram tempos animados”, resumiu Alexandre Pomar num post no Facebook.

“Tempos animados” pelo fervilhar de ideias, mas também por discussões acaloradas. Vicente falava alto, frequentemente gritava, o que uns atribuíam à sua surdez, outros à facilidade com que se exaltava. “Não suportava o erro. Era incapaz de ser hipócrita, pelo contrário: era de uma frontalidade por vezes brutal. Implacável”, recorda José António Saraiva, seu amigo desde os 18 anos e diretor do Expresso na altura em que Vicente era diretor-adjunto e dirigia a Revista, num texto que será publicado no SOL do próximo sábado. “Quando se enervava, os seus olhos faiscavam, ficava vermelho como se fosse ter uma apoplexia, berrava. Tivemos alguns choques”.

Apesar do feitio nem sempre fácil, Vicente sabia também como cativar as pessoas e reuniu à sua volta um grupo de jornalistas devotados, conquistados pelo seu magnetismo pessoal e capacidade de liderança.

Muitos tornaram-se amigos para a vida e seguiram-no quando deixou o Expresso para fundar o Público, o que provocou uma verdadeira hemorragia no semanário. Um dos que o acompanharam nessa “aventura” foi Jerónimo Pimentel, que escreveu ontem, também no Facebook: “Um grande amigo, um homem genial, criativo, brilhante, afetivo e generoso. Trabalhámos juntos anos a fio e foi das pessoas que mais me marcaram. Surpreendeu-me sempre como amigo e como diretor dos jornais em que com ele trabalhei. Vai fazer-me muita falta não o ver mais, era sempre muito estimulante”.

 

“O que nos vai fazer falta”

A par da capacidade de chefia, Vicente notabilizava-se pelos artigos acutilantes. Foi ele que em 1994 cunhou a expressão “geração rasca”, com que apodou os estudantes que se manifestaram de forma grosseira contra a austera ministra da Educação da altura, Manuela Ferreira Leite. Muitos não gostaram do rótulo, mas a expressão pegou.

Durante a década em que esteve à frente do Público marcou indelevelmente a matriz do diário e o próprio panorama jornalístico nacional, conquistando ainda o Prémio Cupertino de Miranda, à época o mais importante do meio. Acabaria, porém, por acusar um certo desgaste, decidindo afastar-se do jornalismo. Durante o consulado de Ferro Rodrigues, ainda tentou a política. A experiência como deputado pelo Partido Socialista não durou mais de dois anos (2002-2004). “Para quem é jornalista de alma e coração é muito difícil adaptar-se aos constrangimentos do mundo político. Não é possível a gente mudar de pele e de alma”, diria numa entrevista à RTP Madeira. Avesso a “distinções, honrarias, salamaleques e toda essa “tralha” – como recordou ontem Jorge Wemans, seu colega de direção nos anos do Público –, recusou “medalhas, condecorações, homenagens e outras distinções”.

“O que nos vai fazer falta, muita falta, é a tua imensa juventude”, continuava Wemans. “A tua capacidade de te indignares com o errado, o abuso de poder, a ‘safadeza’. A inquietação curiosa. O teu entusiasmo contagiante. A irreverência para desmontar falsas ‘respeitabilidades’. A radicalidade de pensamento. A acutilância arguta. O teu humor culto e cosmopolita. A tua inesgotável e sempre juvenil generosidade…”

A última página Apesar da saída do Público, Vicente nunca deixou de assinar artigos de opinião na imprensa – foi colaborador do SOL, regressando depois ao diário do grupo Sonae, onde publicou o seu último texto na edição de 9 de agosto. Na semana seguinte, fortemente abalado por um tratamento, telefonou a Nuno Pacheco a avisar que já não conseguia enviar o texto que ocupava a última página aos domingos.

Os amigos – e foram muitos os que ontem manifestaram a tristeza pelo seu desaparecimento – recordam ainda o seu lado de bon vivant, que apreciava uma boa refeição, um bom restaurante, um bom vinho, um bom uísque.

E, como cinéfilo incorrigível, também um bom filme, evidentemente. Manteve até ao fim o hábito de ir ao cinema uma vez por semana na companhia de familiares – e por vezes chegava a assistir a mais de uma sessão no mesmo dia. Vicente Jorge Silva deixa duas irmãs (Cristina, a mais velha, vive na Alemanha, e Carolina, a mais nova, é adjunta da direção e administração do i e do SOL) e três filhos, o mais velho dos quais, Miguel Silva, seguiu a tradição familiar e é fotógrafo do i e do SOL.

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