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António Galamba 07/09/2020
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

A confissão da falta de civismo no debate da cidadania

Falhámos no passado e estamos a falhar para o futuro. É agir nas causas, deixar de querer acorrer a questões acessórias, por mais emblemáticas que possam ser para nichos eleitorais ou sociais.

Em Portugal, quase nada se questiona e debate-se pouco a fundo e com seriedade, mas proliferam os que se pelam por uma efusiva polémica. A do momento é a da disciplina de Cidadania, num debate ridículo que sublinha diversas insuficiências da sociedade portuguesa.

A cidadania é um pressuposto fundamental de uma sociedade democrática, participada e livre. Ter uma disciplina de Cidadania no elenco de encargos atribuídos à escola significa, desde logo, que no processo de crescimento e de aquisição de conhecimentos fora do contexto escolar das crianças e jovens existem insuficiências que a comunidade escolar tem de resolver.

Sim, a escola, em muitos casos, tornou-se um repositório da esperança na superação das insuficiências familiares e comunitárias. É uma espécie de último reduto quando falham os pais, as instituições, os outros serviços públicos e as comunidades. Ter uma disciplina de Cidadania quando os pais mal têm tempo para estar com os filhos à noite, quando a superficialidade é superior à essência e quando existe tanta gente alheada dos direitos, dos deveres, da participação e das dinâmicas das comunidades, seria, por princípio, um contributo positivo para a formação e para a reafirmação do compromisso das crianças e jovens como parte integrantes de uma comunidade.

Como acontece em tantas outras questões, uma boa iniciativa pode ser desvirtuada pelas tentações de colonizar a boa ideia com ideologia inconsequente, pelos preconceitos sem sentido ou pelas distorções das realidades por inação ou por efervescência mediática ou digital.

Em Portugal, boa parte da alteração dos comportamentos ambientais, por exemplo em casa, na separação do lixo, deve-se ao poder de influência das crianças junto dos seus pais, na sequência do trabalho dos educadores junto da comunidade educativa. Não foi preciso uma disciplina de Cidadania para termos mais reciclagem e maior consciência ambiental, mas a necessidade sente-se em demasiadas áreas da nossa vida em comunidade.

Há muito que defendo que precisamos de equilibrar o balanço entre os direitos e os deveres, persistindo demasiados cidadãos com escasso conhecimento dos seus deveres, mas também dos seus direitos. É um resquício do Estado Novo em que quase não existiam direitos, só deveres, e do período pós-Revolução, em que se propagandeou uma visão de supremacia total dos direitos. É nesse desequilíbrio que radicam as tentativas de contornar ou de encontrar escapatórias quando sai uma lei, o esforço de criatividade para não cumprir obrigações fiscais ou as múltiplas incivilidades que pontuam as vivências em comunidade, algumas com evoluções para o domínio da criminalidade e da lesão do interesse comum. Falta ética, civismo e compromisso individual com a comunidade, e tudo isso não é possível aprender-se na escola. O problema é que, por diversas demissões do exercício de responsabilidade, estruturais ou de circunstância, em muitos lares também não se aprende no âmbito da família, qualquer que seja a sua configuração.

Sob o ponto de vista cívico, estamos confrontados com um enorme problema: há uma formação cívica deficiente em muitos dos cidadãos adultos, expressa nos comportamentos em comunidade, e não se está a fazer o suficiente para transmitir a ética, o civismo e o espírito comunitário aos mais novos. Falhámos no passado e estamos a falhar para o futuro. Não resolvemos as entropias no presente e hipotecamos o futuro, mas o importante é mesmo uma disputa ideológica em torno de conteúdos da disciplina de Cidadania. Enquanto dirimem mais uma polémica nas redes e nos média, muito pouco se continua a fazer para deixar sem sentido de apelo para os mais jovens as narrativas dos populistas e da extrema-direita. É ouvi-los nas conversas para perceber que o risco existe e precisa de resposta cívica e democrática com senso. Não é gerar circunstâncias para que a narrativa possa fazer algum sentido nem oportunidades parlamentares ou de governação para aproveitamentos populistas. É agir nas causas, focar no essencial e deixar de querer acorrer a questões acessórias, por mais emblemáticas que possam ser para alguns nichos eleitorais ou sociais. A pandemia e o confinamento reconduziram-nos ao essencial, as suas consequências económicas e sociais vão sublinhar a importância de não perdermos o foco, o sentido de justiça social e o senso na salvaguarda do acesso ao básico. Debates estéreis, por mais emblemáticos que possam ser, nada resolverão, sobretudo se não se gerarem condições para que os conteúdos e os tempos de aula da Cidadania sejam preenchidos com temas sem relevância para a importância do desafio, para substituir ou complementar a formação cívica que deveria der ministrada noutras instâncias. Convenhamos que é capaz de ser carga a mais para a escola, quando tantos se demitem das suas funções pedagógicas e cívicas.

A polémica em torno da disciplina de Cidadania, nos termos em que prolifera, é uma enorme confissão de falta de compromisso cívico com a valorização da importância da ética e da educação cívica. E como precisamos de cidadãos formados para separar o trigo do joio e gerarem melhores impulsos de participação, de escrutínio e vivência comunitária. Se todos continuarem a falhar, as redes sociais, os novos hábitos e as dinâmicas individuais e de grupo continuarão a fazer o seu caminho.

 

NOTAS FINAIS

TOCAR ÀS CAMPAINHAS O drama da esquerda da anterior solução de Governo é que, se não viabiliza o atual quadro de governação, ainda gera uma crise política que pode abrir a porta ao ziguezague do bloco central de António Costa e Rui Rio.

TAPAR O SOL COM A PENEIRA Começou o julgamento do pirata informático. Continuou o branqueamento da personagem alegadamente justiceira defendida pelo mesmo advogado francês do impoluto Michel Platini, sempre com a cumplicidade dos acólitos do Norte, incluindo o megafone insolvente e o solvente transmontano. O ridículo aparato de segurança é proporcional ao desespero do exercício de condicionamento da justiça por parte de responsáveis da administração da justiça. O que não fazem uns discos encriptados com comunicações de pilares do sistema judicial.

 

Escreve à segunda-feira


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