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Eduardo Sá. “As crianças precisam de voltar à vida”

Eduardo Sá. “As crianças precisam de voltar à vida”

Marta F. Reis 04/09/2020 09:21

Contra o slogan de que vai ficar tudo bem, o psicólogo acredita que o próximo ano será duro. Os pais são extraordinários e a pandemia mostrou-o.

Eduardo Sá recebe-nos ao final da tarde no seu consultório em Lisboa, onde já se notam os dias mais curtos de fim de verão. Está aí o regresso às aulas e se as férias foram um grito de liberdade depois de meses de confinamento, acredita que não há pai ou mãe que não esteja preocupado. Admite também preocupação, não tanto pelo vírus, que defende que é preciso enfrentar, mas pelas expectativas e regras “opacas”. Para o psicólogo e psicanalista, autor de vários livros e guia de muitos pais, a quem diz que o melhor caminho para lidar com os desafios da paternidade é não tentarem ser perfeitos, é hora de afastar o slogan de que “vai ficar tudo bem” – que se recusou a pintar à janela – e encarar os receios de frente, como convém fazer com qualquer medo, sem fundamentalismos e com verdade. É o que pede também aos decisores políticos, que acredita que têm sido demasiado paternalistas na gestão da epidemia. Se fosse ministro da Educação, que diz que não seria, mudava “tudo” na escola. Acredita que esta crise pode ser mais uma oportunidade para o sistema educativo ser um local de resgate para a infância e não uma “fábrica de produção de jovens tecnocratas de sucesso” como tem sido nos últimos anos. Não tem nada contra as boas notas, mas acabava com rankings e quadros de honra e proibia o ensino de números e letras no jardim de infância, onde os miúdos deviam aprender a lidar com o corpo e não esquecer de perguntar porquê.

 

Escreveu há dias que as crianças sem as férias grandes murcham. Este ano deu para retemperar energias ou sente que muitas famílias ficaram fechadas com receio de sair?

Acho que sim, o medo vem agora, o que é compreensível. As pessoas fizeram uma coisa notável, que todos nós somos capazes de fazer muito bem quando estamos alarmados, que foi reagir a este tumulto todo da covid-19 de uma forma muito madura, mesmo as crianças. É absolutamente notável como a sala de muitas famílias se transformou numa espécie de open-space.


Caótico…

Seja como for, mas com os pais a trabalharem, a serem pais, a seguirem a tele-escola, a lidarem com os trabalhos de casa em pacotes industriais que algumas escolas entendiam dar, foi algo extraordinário. E tudo isto sete dias por semana. São desempenhos das famílias que para mim não foram surpreendentes porque sei que os pais são capazes de coisas absolutamente magníficas, mesmo quando reconhecem que tiveram de fechar os olhos aos jogos de computador e outras coisas do género – e é óbvio que tiveram – mas para muitos foram surpreendentes. Estamos a falar de muitas casas que nem se sequer uma varanda têm e onde as pessoas tropeçavam permanentemente umas nas outras. Se havia dúvidas em relação ao equilíbrio, ao bom senso e à generosidade dos pais, acho que melhor atestado de qualidade seria difícil.


Parece-lhe que muitos pais se descobriram também nesta fase em que o foram a tempo inteiro?

Todos nós. Lembro-me de estar a pandemia a começar e um colega seu dizia-me isso: “Estou completamente surpreendido porque nunca estive tanto tempo com os meus filhos durante a semana. Fazia um esforço para os levantar, estar com eles, estar em casa à hora que eles vinham, mas só agora é que tenho noção que estou a conhecê-los como não os conhecia.” E conhecê-los mesmo em relação às suas dificuldades claras, aquela coisa de eles estarem a ver conteúdos da escola e de repente parece que existe um curto-circuito e ficava toda a gente um pouco embaraçada. Tudo isto dá aos pais outra perspetiva sobre os filhos.


Não gostamos muito que critiquem os nossos filhos e de repente estávamos a ver as dificuldades em direto, as distrações...

Isso, acho que foi ótimo. Acho que as escolas se portaram lindamente e os professores fizeram um esforço inacreditável. Agora, desde o princípio que tenho cautelosamente chamado a atenção de que o pior estava para vir. Em circunstâncias limite somos capazes de enfrentar as coisas com uma clarividência e uma segurança fora do vulgar. Depois as férias serviram para que nós não mantivéssemos as distâncias de segurança e tivéssemos os nossos próprios gritos de liberdade. E agora temos dois milhões de crianças a voltarem à escola, com muitos pais a deixarem de estar em teletrabalho, com as escolas dos mais pequeninos a exigirem protocolos que acho que não são aceitáveis e exequíveis.


Porquê? 

É tudo. Deixarmos as crianças na escola, terem de mudar de roupa, de sapatos, não se poderem tocar. Isto em julho era possível porque estavam um quarto das crianças na escola, mas agora vão estar todas ao mesmo tempo.


Vai ser muito mais exigente para os pais.

Vai ser caótico, porque depois têm horas para chegar ao trabalho. E depois há outra coisa: finalmente o recreio foi emancipado, passo a vida a fazer lutas por isso e ainda bem que o covid-19 ajudou a que as escolas usassem esses espaços, mas agora não vamos estar em junho. Vai estar chuva e frio. Temos a ideia um bocadinho ao contrário dos países nórdicos de que as crianças não podem apanhar frio, portanto tudo isto vai trazer níveis de dificuldade significativamente maiores.


Há agora um movimento de pais que diz que escola com todas as regras não é escola. Mas qual é a alternativa? Existe alternativa?

Não há. Acho que aquilo que está em cima da mesa é um esforço absolutamente assombroso para o Ministério da Educação. É quase inimaginável. Tenho o maior respeito pelas pessoas que tentam engendrar soluções, mas não é possível. O espaço das escolas não pode multiplicar por três, o número de professores não pode multiplicar por três. Não há como, mesmo nas escolas privadas, dividir as turmas para que haja dois metros de distância.


Mas a tutela não podia ter antecipado um pouco mais o planeamento? Estamos em véspera de ano letivo e ainda há algumas indefinições.

Sim, claro. Acho que o Ministério tem estado exemplarmente em muitos aspetos mas nisso, com todo o respeito pela equipa, está a falhar redondamente. Nós não precisamos de um Estado que nos trate como se não fossemos capazes de conviver com a realidade como ela é e que não nos ajude a adequarmo-nos àquilo que lá vem. Como se compreende, as turmas vão continuar a ser iguais, muitas turmas não têm 25 alunos, têm 30. A ideia de um metro de distância é a mesma coisa que dizer: “pronto, vamos entregar-nos um pouco à divina providência na expectativa de que tudo corra bem”, o que não vai ser assim tão simples. Fico muito preocupado com os efeitos que terá. Percebo que as crianças devam estar de máscara, mas isso altera tudo: as interações, a capacidade de se lerem umas às outras, a maneira de falarem.


Mas acha que não deviam estar de máscara? Esses impactos sobrepõem-se ao risco da covid-19?

O que acho que temos de ter noção é que existem impactos e não é a mesma coisa e isso tem de ser claro. Disse-o em março e toda a gente ficou muito zangada comigo.


Disse que a escola tinha acabado em março.

E acabou. Tudo o resto que veio a seguir foi um esforço e uma generosidade imensa para se tentar contornar um problema grave, mas houve muitos alunos que saíram de circulação, muitos professores perderam-lhes o rasto, e não nos podemos esquecer que, mesmo nas famílias de classe de média, nem todas as crianças têm disponível para si um computador, uma internet capaz.


E pais com a mesma disponibilidade.

Claro. E quando chamei a atenção para isso foi no sentido de dizer cuidado porque não é a mesma coisa. Pela primeira vez desde há muitos anos vamos ter um ano letivo que vai começar de uma forma fantástica pelo simples facto que depois disto tudo os nossos filhos amam a escola como nunca amaram, querem fugir para a escola, que é uma coisa com que sempre sonhámos...

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