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José Paulo do Carmo 04/09/2020
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

Amanhã será...

Não adianta de nada enfiar a cabeça na areia e fingir que não é real. Muitos espaços passam por tremendas dificuldades e várias famílias começam a sentir na pele o que é a necessidade profunda, com a agravante de, em Portugal, a vergonha não permitir que muitos peçam ajuda.

Acredito que muito boa gente neste país se refugiou na ideia de férias para ultrapassar o confinamento de uma forma menos penosa. Várias pessoas com quem fui falando mostravam-se sobretudo preocupadas com um estender das restrições até ao verão que as impedisse de gozar aqueles merecidos dias de descanso. As próprias condicionantes económicas foram sendo camufladas por um período de moratórias que permitiu a muitos não terem de abdicar deste renovar de energias e, à boa moda portuguesa, foi-se aproveitando o dia sem pensar muito no amanhã, agarradinhos ao balão de oxigénio à espera que isto seja só um pesadelo que terminará daqui a nada.

Mas o amanhã está a chegar, e embora (adaptando uma popular frase) metade de mim seja otimismo e a outra metade também, temos de preparar-nos para o que aí vem. Não adianta de nada enfiar a cabeça na areia e fingir que não é real. Muitos espaços passam por tremendas dificuldades e várias famílias começam a sentir na pele o que é a necessidade profunda, com a agravante de, em Portugal, a vergonha não permitir que muitos peçam ajuda. Esse será talvez o nosso grande desafio enquanto sociedade: não deixar ninguém para trás, atentos e vigilantes perante os que nos rodeiam e sofrem em silêncio, sem capacidade e força para se levantarem.

Amanhã será, por isso, um teste imenso ao nosso funcionamento enquanto sociedade, na forma e no formato das nossas comunidades e na resistência das nossas relações. É por isso que temos de encontrar mecanismos de desenvolvimento para construir, muitos de nós, quase do zero. Sem medo, sem a tentação de olhar para trás. Já que não somos propriamente a personagem da formiga do velho conto, que saibamos ser uma cigarra mais criativa e trabalhadora para que, neste novo início, não fiquemos para trás. As gerações deste tempo ficarão indelevelmente marcadas por este fenómeno e a forma como soubermos interagir será por certo a imagem que perdurará no tempo.

Não desistir perante as dificuldades, não sucumbir no desespero, não perder a vontade de viver momentos perfeitos e, muito importante, não deixar que a morte nos apanhe com medo de viver. Esse tempo está a chegar. Veremos como será juntando o inverno e o regresso às aulas ao tal novo normal. É fundamental termos a noção de que ninguém estava preparado para esta situação, mas é nos momentos mais difíceis que se mostra a fibra de que somos feitos. As férias estão a chegar ao fim e, com ele, o regresso à realidade. E se tudo nos faltar, que nos agarremos pelo menos à vontade de desfrutar o próximo verão, o mergulho que nos faltou, a magia do calor, a praia e o mar. Que encontremos sempre boas razões para viver.

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