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Amanhã serão lançados 600 novos livros no Reino Unido

Amanhã serão lançados 600 novos livros no Reino Unido

Diogo Vaz Pinto 02/09/2020 15:04

Depois da pandemia, e do período de confinamento que levou ao encerramento das livrarias e ao adiamento dos festivais literários e de tantos lançamentos, a rentrée deste ano será marcada por uma “avalanche” editorial que irá evidenciar mais que nunca a obesidade deste sector.

 

O nosso tempo é um susto. E o pior é como mal se dá conta disso. Acometido de uma angústia suja e embriagadora, cada rombo, no mesmo momento em que o afecta, dá-lhe ainda mais balanço, e, por isso, prossegue, adianta-se aos próprios factos. Amanhã não trará nada que o faça arrancar a pele, onde se sente cada vez pior e que tanta comichão lhe dá. Este 3 de setembro está a levantar, contudo, uma nuvem de pó sobre o horizonte. Nesse dia, no Reino Unido, mais de 600 novos livros serão publicados. É um aumento de um terço comparando com o ano passado. E, naturalmente, este surto está a deixar livreiros e editores, bem como os recenseadores e os leitores, um tanto nervosos. Há muito que os balanços e diagnósticos periódicos da actividade nesta área apontam para um excesso absurdo, uma obesidade que caminha para a morbidez, na medida em que a vertigem alucinante da produção industrial claramente começa já a estragar os leitores, sujeitos à pressão constante de tantas novidades. E o que esta vertigem inspira são essas imagens que se associam aos desastres naturais. Assim, jornais como o “The Guardian” ou o “Financial Times” usaram a expressão avalanche para se referirem a esta fartura de novos títulos que, num mesmo dia, procuram disputar o espaço disponível nas estantes e ilhotas descontínuas das livrarias.

Quanto ao motivo do surto, este liga-se naturalmente ao período de retenção provocado pela pandemia. Com as livrarias encerradas, tantos eventos ligados à promoção dos livros e da leitura cancelados ou transferidos para essa ficção truncada que é própria do mundo digital, os editores viram-se obrigados a adiar o lançamento de uma série de livros para a rentrée, fazendo do Outono que se avizinha uma das estações mais congestionadas no que toca à papelada impressa. E o “Financial Times” assegura que o dia de amanhã será apenas o prefácio de uma temporada demencial no que toca à agenda de novos lançamentos, isto porque, na preparação para o Natal, que começa em outubro, haverá uma sucessão de dias como este em que os livros irão participar numa espécie de debandada, tentando impor-se num mercado em que a lógica da concorrência deu origem a um tal desconchavo que muitos títulos prometedores morrem por esmagamento, sem que o público chegue sequer a ter conhecimento de que foram editados. Recorde-se, de resto, que no nosso país as vendas que precedem o período natalício correspondem a cerca de metade dos livros que são comprados anualmente, sendo crucial, por isso, num ano em que houve perdas tão significativas neste sector, que os editores façam de tudo por recuperá-las até ao fim do ano, o que levará a uma corrida desenfreada, tornando ainda mais evidente a forma como hoje o livro se vê transformado em mais um banal produto de consumo, sujeito ao mesmo formigueiro de quinquilharias vagamente obsessivas que caracteriza este consumo que invade toda a vida, gerando aquela passividade indolente que irradia como um narcótico.

Na semana passada, na sua campanha de publicitação da Feiro do Livro de Lisboa, a APEL avançou uma estimativa das perdas que o sector livreiro irá sofrer até ao final do ano, cifrando-as em entre 30 a 35 milhões de euros. São números que não nos esmagam. Pelo contrário, pode dizer-se até que nos fazem sentir quase defraudados, isto numa altura em que os clamores da parte de livreiros e editores se faz ouvir de forma atroadora nas filas da sopa, exigindo que o Estado socorra um sector sobredimensionado, e, em tantos aspectos, parasitário das instituições, depois de décadas em que os índices de leitura continuaram muitíssimo baixos, deixando bem à vista de todos os danos provocados ao nível do tecido cultural do país. Lá fora é mais fácil justificar o recurso a metáforas que remetem para as pragas bíblicas, isto em mercados como o norte-americano, onde o sucessivo adiamento, provocado até por questões práticas, com a incapacidade das gráficas de dar vazão às encomendas feitas pelas editoras, deverá provocar um tal amontoamento neste Outono que poderá levar a uma ruptura por excesso, uma crise de abundância.

E se poderemos começar a virar as páginas do prefácio amanhã, espera-se que no começo de outubro, 800 livros sejam publicados num só dia, e aí sim o crescimento será de 85% face aos números do ano passado. Contudo, é preciso notar que uma boa parte dos títulos serão lançados apenas no circuito académico, não chegando a competir pelo espaço de exposição nas livrarias. De qualquer modo, é importante reflectir sobre as mutações que este regime tem produzido. Pode-se inclusivamente flirtar com a noção de que tudo isto é benéfico, na medida em que permite aos leitores de hoje essa errância lúdica, as possibilidades combinatórias de irem lendo um pouco ao calhas nacos de prosa misturada com versos, fazendo um caderno de recortes, de bocados avulsos, e que os convida a nunca acabarem de ler nenhum dos livros que começam ou contemplam vagamente, cheirando-os de tempos a tempos, num arranjo de miragens e de vagas hipóteses, conseguindo assim compendiar tudo de maneira caleidoscópica. Mas também se pode ir mais longe nesta análise, reconhecendo que este registo de encadeamento é a leitura que resta a um público saturado de estímulos, rodeado de objectos que exprimem, por meio do próprio excesso, “a imagem do dom, da prodigalidade inesgotável e espectacular, que é peculiar à festa”. Jean Baudrillard lembra o quão raros são os objectos que hoje se oferecem isolados, sem contexto de objectos que os exprimam, e isto diz-nos muito sobre a abundância nefasta que caracteriza a indústria editorial, e que cada vez mais nos afasta dos outros homens, ameaçando esse espaço público onde eram possíveis as manifestações que balizavam uma socialização da cultura. Hoje, pelo contrário, o livro, mesmo a mais fascinante das obras literárias, é atingida por este ambiente de profusão absurda, em que “tudo estimula a salivação fantástica”. O livro não tem já forças, não se mostra capaz, por mais desafiante que seja, de levar a cabo essa forma de contra-hipnotismo, de sintonizar de novo o regime da lentidão, e falha, assim, mesmo que heroicamente, a tarefa que exigira dele um rapto do leitor.

E isto é tão tentador e irrecusável porque, como notava Baudrillard, existe no amontoamento uma operação de envolvimento total, a disposição de um canal de satisfações que se orienta para a sucessão frenética, um nirvana artificial que se alcança por meio de uma espécie de trombose, uma deriva narcotizada que se parece com essa apatia do ser refastelado. Baudrillard adianta que, no amontoamento, há algo mais que a soma dos produtos. Desde logo, há “a evidência do excedente, a negação mágica e definitiva da rareza, a presunção materna e luxuosa da terra da promissão”.

Os livros começam hoje a deixar de ser lidos enquanto objectos de excepção, que obrigam o leitor a cavar um fosso à sua volta e a tornar-se inacessível por algumas horas, ou até dias, e são arregimentados, organizando-se também eles no esquema da panóplia. O facto, seja de que modo for que encaremos a questão, é que estamos cada vez mais longe desse leitor possesso que Stefan Zweig viu no seu Jakob Mendel, o alfarrabista com uma memória enciclopédica, que passava os seus dias sentado na mesma mesa de um dos cafés de Viena, e que “lia como outros rezam, como os jogadores jogam e os bêbados atordoados fitam o vazio, lia com um recolhimento tal que qualquer outra pessoa que vi ler depois disso me pareceu sempre superficial e profana. Em Jakob Mendel, naquele pequeno vendedor ambulante galiciano de livros usados, vi pela primeira vez, na minha juventude, o grande mistério da concentração absoluta que faz tanto o artista como o erudito, o verdadeiro sábio como o imbecil inacabado, a tragédia feliz ou infeliz do verdadeiro possesso”.

Então a leitura é menos a ocupação de literatos do que de seres que carregam o peso da sua consciência ferido por essas passagens imortais, esses textos que têm a consistência de corpos, que parece até que respiram, e que nos convertem a essa forma de anacronia, a atirarmo-nos pela borda da época, ficarmos de fora. Enquanto se vai tornando cada vez mais difícil dirigir um protesto ou sequer uma palavra ao nosso tempo, que acelera e nos devora, não faltam exemplos de leitores que se tornaram especialistas na evasão deste presídio de um “presente perpétuo”. Como o do escritor argentino Alan Pauls, que disse certa vez que aquilo que o empurrou para a leitura foi a “necessidade de conseguir uma certa blindagem dentro do seu contexto familiar”. Muitas vezes, o que a literatura providencia é precisamente uma extracção ao contexto perturbador que nos cerca, seja ele de degradação e violência, ou de ruído e constante acosso, essa forma da sociedade moderna revirar os nossos desejos e impulsos contra nós mesmos. O certo é que, para uma consciência começar a ser sacudida no seu íntimo pela fome de horizontes é essencial a prolongada exposição a uma falta, ao tédio, à lentidão das coisas, que desenvolve as percepções, ao ponto de sermos capazes de encontrar esse momento de silêncio entre duas batidas do coração de uma mosca.

 

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