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Morreu E.M. de Melo e Castro, o poeta que fez de tudo para nos reensinar a ver

Morreu E.M. de Melo e Castro, o poeta que fez de tudo para nos reensinar a ver

Diogo Vaz Pinto 31/08/2020 16:59

Morreu, aos 88 anos, de complicações renais, o fundador e principal cultor do “concretismo” em Portugal. Poeta, ensaísta e artista plástico, Melo e Castro foi uma das figuras centrais da cultura portuguesa na segunda metade do século XX, e desaparece nem esquecido nem lembrado, como o protagonista de um sonho de liberdade de que o país, hoje, por vergonha mais de si que do sonho, se ri.

 

Vai ser difícil puxar este fio, essa história que se conta quando um homem chega ao seu fim, da qual tantas vezes só ficam as margens, e não se sente o curso de água na água, mesmo porque a alguns assiste essa habilidade de darem a volta, tornarem-se mais vivos entre aquilo que tantas horas clandestinas produziram como assombração para o futuro. Vai ser difícil puxá-lo, vai dar demasiada luta, e o mais provável é que a biografia nem seja a espinha do que foi a vida e toda a intervenção poética, teórica e o raio que ilumina tudo isso, na maior misturada, no fértil desacato dos seus impulsos. Por isso, talvez, é que E.M. de Melo e Castro dizia que todos os poetas são desconhecidos desde que nascem até que morrem. Nas suas tantas vidas, desde a juventude que este poeta era grande, e teve um papel interventivo que o encima como uma das figuras de maior relevo no pensamento sobre a poesia e as artes entre as décadas de 1960 e 1970. Expoente das vanguardas, o poeta, ensaísta e artista plástico português E. M. de Melo e Castro, morreu na noite de sábado, em São Paulo, onde vivia. Tinha 88 anos. A notícia foi dada pela filha, a artista e cantora Eugénia Melo e Castro, nas redes sociais.

Um provocador nato, a obra de Melo e Castro é um interrogar constante de tudo, nas suas inúmeras, grandes voltas, aborrecido com o deve ser, amotinado face ao que tem de ser, foi tomando o leme numa épica da profanação, actos incessantes de recriação, buscando “in-novar” o discurso, explorando as brechas, lacunas, convidando tantos, na crença até que o que há de mais desejável, o que marca decisivamente a épica é o desaparecimento do autor do texto, que cria personagens e habita o mundo plenamente. E isto naquela tradição que retorna a palavra ao seu exercício mágico, a nomeação que responde ao apelo das coisas, e gera esse efeito de vulnerabilidade entre si e o mundo. Tomava a poesia enquanto função de manter viva a língua, ser o laboratório dos grandes ensaios da comunicação entre os homens dum tempo com os homens doutros tempos passados e futuros. “Laboratório esse em que as próprias experiências são os factos postos à prova na dialéctica das razões, na probabilística da comunicação, no precário da vida dos indivíduos.”

A propósito de uma recolha de textos publicados ao longo dos anos na imprensa portuguesa, Alberto Pimenta destacava a importância indagadora do ensaísmo de Melo e Castro, sublinhando que “aqui estamos no centro de acção e de interesses da vanguarda, que joga e se joga contra a acção e os interesses da ‘guarda vã’ do instituído, do que já nos não pertence e continua apesar disso a dominar-nos”. Com aquele ar de monstro revirado pelas musas, a barba que lhe fazia o rosto alongado, ao mesmo tempo distinto e evocativo, alguém que parecia deslocar-se entre os ramos de uma vasta genealogia, irmanando-se de tantos desses inventores que vão adulterando o próprio sangue para seguir o curso das suas pesquisas. A filha contou ao “Público” que até há dias mantinha o seu labor frenético. Até que uma complicação renal lhe impôs um fim. “Estava imparável, imparável, com uma lucidez, parecia que cada vez estava mais lúcido”, diz Eugénia Melo e Castro, adiantando que continuava a fazer os seus vídeo poemas e videogramas, e que tinha quatro livros preparados. Um livro de ensaios, dois livros de poesia inéditos e as obras completas (três volumes). “Estavam absolutamente prontas. Tinha tudo organizado. Temos um espólio brutal para mostrar e relançar e muitos inéditos. Coisas maravilhosas”, adianta a filha.

Nascido na Covilhã em 1932, Ernesto de Melo e Castro deixou a meio o curso de Medicina em Lisboa, rumando a Inglaterra para se formar em Engenharia Têxtil na Universidade de Bradford. Depois do curso, a par do trabalho como tecnólogo têxtil, montou o seu laboratório para pesquisas poéticas e artísticas, publicando livros de poesia e de crítica literária, com uma obra que logo deu provas de um carácter aberto e dinâmico. No início da década de 1960, trouxe para Portugal a Poesia Concreta, que havia irrompido anos antes no Brasil, tornando-se o principal cultor do "concretismo" entre nós, e estabelecendo ligações importantes com os pioneiros brasileiros, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari. Foi, assim, percursor desta crise ardente, que, em nome da liberdade, atraiu os poetas a um sentido de ruptura extremo, numa poesia que se afasta dos sinais de decadência para se refazer num regime de experimentação desaustinada. E.M. de Melo e Castro foi pioneiro e impulsionador da Poesia Visual, que definiu como uma forma de “destruição do discurso tradicional, através da desarticulação sintáctico-semântica”, a qual se afastou do regime mimético, numa reacção à estética de tipo realista, que estava envenenada à partida ao desvalorizar a linguagem enquanto construção, alinhada muitas vezes com um discurso carregado de ideologia. O poeta tinha, assim, clarezas dessas que sujam o que se toma por óbvio, como nesse poema de letras recortadas, como era próprio dos criminosos, com as mensagens enviadas à polícia e à imprensa, quando iam a meio do seu jogo ameaçador, notando que “a lucidez/ É uma luz ácida/ que ilumina de escuro/ tudo/ o que vês”.

Além do empenhamento crítico, como destaca Helder Macedo, Melo e Castro pautou sempre o seu percurso criador por um trabalho de divulgação dos poetas da sua geração, e chegou a criar uma colecção de poesia, “Pedras Brancas”, sediada na Covilhã (onde a sua família tinha a sua base comercial, ligada à produção de lanifícios), onde publicou vários poetas mais ou menos marginais. Ainda antes da amizade que viria a uni-los, Macedo recorda a este jornal que foi naquela colecção que viu publicado o seu segundo livro, “Das Fronteiras” (1962). “Não nos conhecíamos, mas ele soube que eu tinha de sair de Portugal e escreveu-me a insistir que lhe mandasse os poemas que tivesse escrito depois de ‘Vesperal’ (1957). Foi importante para mim ter sido lembrado. E significativo da sua generosidade que ele se tivesse lembrado”, recorda o poeta que dirigiu durante mais de vinte anos a Cátedra Camões no King’s College, em Londres.

No seguimento deste trabalho de divulgação, Melo e Castro editou com a escritora Maria Alberta Menéres (com quem se casou muito jovem, e que lhe deu duas filhas), em 1959, a primeira edição da “Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa”, a qual foi a 4.ª publicação de um dos mais prestigiados selos da época, a Colecção Círculo de Poesia, da Moraes. A editora fundada por Alçada Baptista e co-dirigida por Pedro Tamen, que iniciou a sua actividade com a publicação de “Fidelidade” (1958), de Jorge de Sena. Helder Macedo, um dos últimos sobreviventes do grupo do Café Gelo, lembra que “essa primeira edição começava com Alberto de Lacerda e ia até aos então recentíssimos (e ainda mais ou menos indefinidos) jovens poetas associados ao Café Gelo (passando pelos surrealistas, neo-realistas e os nem uma coisa nem outra, como, por exemplo, os dos ‘Cadernos de Poesia’ e os da ‘Távola Redonda’)”. Assim se distingue o perfil de um dos raros autores que, no contexto das nossas letras, não se serviu do míster de crítico, e da sua influência, para asfixiar essas obras e vozes que não partilhavam afinidades com o seu projecto poético.

“O Melo e Castro combinava uma genuína curiosidade com uma raríssima generosidade. A Antologia foi sendo reeditada e gigantescamente aumentada, passando a remontar a 1945 e a prolongar-se a sucessivas gerações de jovens”, frisa Helder Macedo. “O que terá perdido como intervenção crítica de uma geração passou a ganhar como representação de todas as tendências da poesia portuguesa (incluindo muitos nomes actualmente esquecidos). Foi-se tornando, nos seus sucessivos alargamentos, o mapa mais completo da poesia moderna portuguesa. Também de assinalar são os sucessivos e actualizados prefácios críticos que acompanharam as diversas reedições aumentadas.” Macedo adianta que “não se pode fazer a história da poesia portuguesa mais ou menos moderna sem recurso a essas antologias e prefácios críticos”.

Macedo recorda ainda que, uns anos mais tarde, e no esforço de diálogo com os poetas e leitores brasileiros, Melo e Castro publicou “O Próprio Poético” (1973), “um excelente livro de crítica literária no Brasil, em que chamava a atenção para o que eram então jovens poetas portugueses desconhecidos lá”. Hoje, a sua obra e influência na cultura portuguesa parecem cada vez mais reduzidas a notas de pé de página no rótulo dos enlatados académicos, ensaios que fixam vagamente os pontos que, num mapa que parece remeter para um território imaginário, ilustram a ausência de uma relação histórica sobre a evolução da nossa literatura. Para Helder Macedo, que há dois anos foi distinguido com o Prémio D. Dinis pelo volume de ensaios “Camões e outros contemporâneos”, o considerável esquecimento que tem sido devotado a Melo e Castro em Portugal “confirma o que tenho dito muitas vezes: somos um país de longa história e de memórias curtas”.

Além de sublinhar a influência do seu modo de digerir e encadear as vanguardas num regime quase respiratório, que liberta e renova o mundo, nomeadamente na obra de Ana Hatherly, Macedo garante que ele também “contribuiu muito para o reconhecimento do Herberto Helder mais ‘experimental’ (e não só) antes de o Herberto se tornar na argamassa poética da nação”. E nas declarações que prestou a este jornal, o poeta de 84 anos põe em foco a acção política e cultural que o amigo teve no pós-25 de Abril, tendo dirigido “o (ao tempo importantíssimo) Suplemento Literário do Diário de Notícias (no tempo do Saramago). E, ao contrário do que se esperava (e lhe teriam sugerido) manteve lá a publicação semanal das críticas literárias do Gaspar Simões (embora transferidas para um local menos proeminente...)”. E isto, segundo Helder Macedo, “é significativo, tendo em mente a triangulação Saramago/Isabel da Nóbrega/Gaspar Simões”.

Na segunda metade dos anos 1990, depois de separar-se de Maria Alberta Menéres, Melo e Castro viria a fixar residência em São Paulo, casando-se com Elza Miné, académica especialista em Eça de Queirós. E, em 1998, obteria o doutoramento em Letras, na Universidade de São Paulo, defendendo a tese “Poesia dos Países Africanos de Língua Portuguesa: Percursos Comparatistas com as Poesias Portuguesa e Brasileira”. Em 2006, tendo regressado do Brasil para dar aulas na Escola Artística do Porto, apresentou no Museu de Arte Contemporânea de Serralves uma grande retrospectiva da sua obra intitulada “O Caminho do Leve”. Ao esquecê-lo, nesse modo de somar asneiras e descasos, uma senilidade que tem, paradoxalmente, algo de infantil, é Portugal que parece fechado num sonho que teve o poeta, um país que nem acorda nem dorme, nem se experimenta, e, assim, fechado por dentro, a reboque do mundo, parece que cumpre uma longa sentença. Mas Melo e Castro não parecia importar-se. E numa entrevista que deu em 2012, dava sentido aos versos do poema “Críptica”: Para quem não sabe ler/ Toda a escrita é críptica (...) Para os economistas/ A poesia é críptica// Para os imbecis/ A inteligência é críptica”... Na tal entrevista, dizia: “Quando Fernando Pessoa começou a ser um pouco mais conhecido, as pessoas achavam que ele era um poeta cómico, que fazia rir, eu ainda sou desse tempo... O que é uma coisa absurda, e que acontece porque não sabiam o código de Fernando Pessoa. Depois aprenderam, evidentemente. (...) Ora, a poesia experimental é justamente isto. É o abrir os olhos às pessoas, o reensinar a ver mas também a ler.”

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