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José Paulo do Carmo 21/08/2020
José Paulo do Carmo

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Nacional-parolice ataca as novas matrículas

Infelizmente, não existe no nosso dicionário uma palavra que traduza tão bem o que vou contar como a inglesa wannabe. Por isso escolhi a parolice, porque a tradução usual é “novo-rico”, aquele que enriquece rapidamente e tem necessidade de mostrar ou de parecer como os outros, embora não seja uma escolha justa porque, além de nem todos serem assim, de facto, nem todos os parolos são ricos. É, aliás, um problema transversal na nossa sociedade. Neste caso específico falo das matrículas novas que vamos vendo nos novos automóveis que circulam nas estradas portuguesas. Quer dizer, a palavra “novos” talvez seja exagerada.
Este novo desenho das famosas chapas que usamos para identificar os nossos carros vem agora com quatro letras e dois números, ao contrário de antigamente, mas, visualmente, o que mais chama a atenção é o facto de “perderem” a data e a queda do hífen que separava cada dupla. E uma vez que é permitido (mas não obrigatório) trocar as antigas pelo novo formato, o que é que alguns parolos foram a correr fazer? Trocá-las, pois claro. Porque não há nada mais importante na vida, sobretudo nos dias que correm, do que esconder o facto de o carro já ter uns aninhos, tentando iludir os mais ingénuos e levando-os a pensar que é novo. O pior é que, em alguns casos mais flagrantes, nem se dão ao trabalho de arranjar as marcas que ficam como sinal dos tempos.
Foi, por isso, uma viagem animada até ao Algarve no último final de semana. Era vê-los passar em carripanas que tinham no mínimo dez anos, com um ar todo orgulhoso, achando que desta forma enganam toda a gente. Chegou ao cúmulo de vermos alguns modelos que já nem se fabricam com a carcaça toda suja e cheia de riscos, mas a matrícula brilhante e lustrosa. Parece que, depois do gel pastoso no cabelo, que mais pareciam ter sido lambidos por uma vaca, e dos famosos carros todos alterados com vidros fumados e frases como “Need for Speed” atrás, aparece agora a nova moda que os faz sair do armário para se revelarem ao mundo. 
São os mesmos que bajulam os donos dos restaurantes mas tratam os empregados com indiferença e altivez, que não respeitam as casas de banho públicas e sujam tudo porque acham que já estão a pagar o serviço de limpar a porcaria que fazem (o que demonstra um pouco do que fazem em casa). São os que querem o que os outros têm mas não percebem porquê, não sabem o que é solidariedade e só consomem o que está nos topos das prateleiras. Que se acham vítimas de tudo e mais alguma coisa, que veem a alegria e a leveza de espírito como arrogância. Que acham sempre que o mais caro é melhor que o mais barato e vivem obcecados com o estatuto, a imagem e o que os outros pensam. Que só estabelecem relações por interesse e que adoram usar corsários até à canela. Veem religiosamente todos os programas dos comentadores na televisão para, no dia seguinte, debitarem as opiniões como se fossem suas. Que fingem não saber o que é o Big Brother mas, depois, descrevem ao pormenor o que cada personagem fez. Os que só sabem viver perante padrões e que usam as redes sociais para criticar tudo e todos. Que utilizam a ofensa para esconder a mediocridade, que não sabem ser genuínos, que só sabem apreciar a arte mediante o custo de cada peça e que acham a tecnologia a panaceia para todos os problemas. Ah, e querem sempre sempre que os filhos sejam aquilo que eles queriam ser… mas não são!

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