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Covid-19. “Não estamos a aproveitar a época de verão”

Covid-19. “Não estamos a aproveitar a época de verão”

Mafalda Gomes Rita Pereira Carvalho 20/08/2020 10:59

Portugal mantém números de internados nas unidades de cuidados intensivos idênticos aos do início da pandemia, mas também cadeias de transmissão. Outros países da Europa veem números aumentar.

Desde o dia 7 de agosto que o número de internados nas unidades de cuidados intensivos (UCI) se tem mantido abaixo dos 41, atingindo valores semelhantes aos registados até 21 de março, início da pandemia em Portugal. Os dados revelados ontem no boletim epidemiológico indicavam que estavam internadas 35 pessoas nas UCI, menos três do que no dia anterior, tendo em conta um total de 12 786 casos ativos em Portugal. Os números de internados em UCI mantêm-se, enquanto noutros países da Europa têm tendência para aumentar.

Ter 35 doentes internados nas unidades de cuidados intensivos, além de significar que o país não esgotou nem está perto de esgotar os seus recursos nesta área, mostra que “os doentes estão a ter acesso aos cuidados de que necessitam”, avançou Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. E revela ainda que “com a correta abordagem e alocação de meios, nós conseguimos fazer sempre mais e melhor”, acrescentou o pneumologista Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos.

Apesar de ser “bom ter notícias de menos casos” é, no entanto, necessário direcionar os esforços para erradicar a atividade viral, tendo, “por exemplo, zero casos nos cuidados intensivos”. Filipe Froes alerta para o facto de o país não estar a aproveitar o verão para eliminar as cadeias de transmissão, tal como não aproveitou no final da fase de confinamento. Em maio, além de não existir a capacidade de erradicar a transmissão na comunidade, “não havia a noção exata dos portadores assintomáticos”.

“Apesar de estarmos com melhores resultados, continuamos a manter cadeias de transmissão. Isto significa que não tivemos – à semelhança daquilo que não fizemos em finais de abril – capacidade de ir o mais longe possível na erradicação da atividade viral”, explicou Filipe Froes. Neste momento, alerta o pneumologista, o país deveria estar a aproveitar as características da época de verão para se preparar para o outono e inverno e “diminuir todo o impacto social e económico, além da saúde, de uma possível e previsível segunda onda”. “Neste momento, temos condições únicas que correspondem ao verão, que coincide com temperaturas mais elevadas, aumento da radiação ultravioleta, dispersão social, porque as pessoas estão de férias, e uma medida extremamente importante que vamos deixar de ter a partir de setembro: encerramento das escolas”, acrescentou.

Nós e os outros Os casos estão a crescer noutros países da Europa, com o foco de preocupação a voltar-se novamente para Itália, Espanha e França. Relativamente aos internados nas unidades de cuidados intensivos, os números também estão a subir: França tinha ontem 374 pessoas nestas unidades e Espanha admitiu 84 pessoas nos últimos sete dias – a este número somam-se 1336 pessoas internadas. Já Itália registou ontem o número de novos casos mais elevado no período de dez dias – 642 –, 66 pacientes estão em unidades de cuidados intensivos e 866 estão hospitalizados.

Se, no início da pandemia, Portugal teve a oportunidade de olhar para os restantes países da Europa e tempo para se preparar, agora é preciso “tirar daqui as ilações para nos prepararmos para um previsível acréscimo de atividade no outono e inverno”, explicou Filipe Froes, acrescentando que “vivemos num continente de proximidade e, para o vírus, não existem fronteiras”. É preciso, por isso, “monitorizar continuadamente a atividade nos outros países para antevermos o que se pode passar em Portugal e termos, à semelhança do que tivemos em março e abril, capacidade de utilização do exemplo que vinha do estrangeiro”.

Máscaras. O pequeno passo que pode fazer a diferença A utilização de máscara na rua é uma opção que está a ganhar adeptos, desde Espanha à Madeira. E, segundo o gabinete de crise da Ordem dos Médicos, é uma das medidas que podem potenciar a diminuição da transmissão comunitária. Em determinados espaços públicos, em determinadas ruas onde se verifica uma elevada concentração de pessoas, Filipe Froes defende o uso da máscara: “O impacto pode ser pequeno, mas é precisamente com a soma de impactos pequenos que temos um impacto maior”.

Os receios da semana passada não se confirmaram Em alguns dias da semana passada, os números de novos casos confirmados ultrapassaram os 300, sendo preciso recuar até 16 de julho para encontrar valores tão elevados. Os especialistas deram o alerta, mas sublinharam que seria necessário esperar para confirmar a tendência crescente. E, esta semana, os casos voltaram a ficar abaixo dos 300 – ontem registaram-se 253 novos casos, um aumento de 0,5% face ao dia anterior. “Aquele crescimento que se receava parece não ter acontecido e, portanto, mantemos mais ou menos a mesma situação”, explicou ao i Ricardo Mexia. Relacionados com o aumento do número de casos estão também os surtos identificados nos lares, que “têm uma concentração importante no número de casos”, acrescentou o especialista em saúde pública.

 

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