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Reguengos de Monsaraz. “Retirar médicos do SNS para irem trabalhar para o lar de um amigo”

Reguengos de Monsaraz. “Retirar médicos do SNS para irem trabalhar para o lar de um amigo”

DR Rita Pereira Carvalho 19/08/2020 13:05

Sindicato Independente dos Médicos diz que não houve no país situação semelhante à de Reguengos de Monsaraz. “A Segurança Social devia obrigar os lares a terem médico e enfermeiro”.

Apesar de António Costa dizer que “não há razões para alarme”, os especialistas olham para a situação dos lares com preocupação. O caso de Reguengos de Monsaraz foi, até agora, o mais grave, mas todas as semanas são detetados surtos nas instituições que acolhem idosos. Os lares “geram mais preocupação”, alerta Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. Tudo porque “o contexto do lar é difícil. Sabemos que há pessoas mais vulneráveis, quer para desenvolver a doença, quer para desenvolver consequências mais severas. A mortalidade é mais elevada e o internamento também”, acrescentou o médico especialista em saúde pública.

Aliados à identificação de casos positivos nos lares estão os múltiplos problemas destas instituições, sobretudo a nível de recursos humanos. No Alentejo, o caso foi mais longe, havendo “ameaças de processos disciplinares a médicos que não cumprissem deliberações totalmente ilegais”, explicou Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, a propósito da mobilização de médicos do Serviço Nacional de Saúde para o lar de Reguengos de Monsaraz.

No relatório, divulgado pela Ordem dos Médicos, sobre a auditoria feita ao lar situado no Alentejo consta que os médicos foram ameaçados com processos disciplinares. “Nenhum dos médicos se recusou a ir para lá, apesar de poderem não ir”, explicou Jorge Roque da Cunha, acrescentando que “em nenhum lar do país se viu esta atitude de retirar médicos do Serviço Nacional de Saúde, que estão nos cuidados intensivos e médicos de família, para irem trabalhar para o lar de um amigo”.

Já José Robalo, diretor da ARS Alentejo, defendeu-se: “Eu não pressionei. O que eu disse foi que tinham de cumprir uma escala para prestarem vigilância e cuidados às pessoas que estavam neste lar. Se efetivamente não cumprissem, seria instaurado um processo disciplinar”. À TVI, José Robalo garantiu que “não existiu qualquer ameaça e não houve nenhum processo disciplinar”.

Segundo informações a que o i teve acesso, o conselho diretivo da ARS Alentejo determinou, a 1 de julho, que seriam deslocados do SNS um médico e quatro enfermeiros para a Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, diariamente, com horário das 8h00 às 20h00. “Foi o único sítio do país onde aos profissionais do Serviço Nacional de Saúde foram dadas instruções para trabalharem 12 horas”, explicou Jorge Roque da Cunha.

Médicos e enfermeiros nos lares As instituições de apoio a idosos não são obrigadas a ter um médico e um enfermeiro nas suas instalações. Esta é uma lacuna, diz Jorge Roque da Cunha, favorável ao aparecimento de surtos e de problemas quando são identificados casos. E o exemplo dado é sempre o de Reguengos de Monsaraz, uma vez que os profissionais de saúde não eram contratados pelo lar, mas pertenciam ao SNS. “A segurança social devia obrigar os lares a terem médico e enfermeiro. Existe uma comparticipação por cada utente, bastaria aumentarem um euro num lar de 50 pessoas por dia para garantir um médico e um enfermeiro para acompanhar essa situação”, explicou o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos.

Sobre a falta de profissionais, também o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses denunciou na semana passada que os enfermeiros do hospital e centro de saúde do Barreiro foram deslocados para a Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Este lar registava ontem três mortes e 48 pessoas infetadas – 35 utentes e 13 profissionais.

Surto em Odivelas e o perigo dos assintomáticos O último surto conhecido foi detetado na Casa de Saúde e Repouso da Amoreira, concelho de Odivelas, mas, ao contrário daquilo que aconteceu nos restantes lares, em que se registaram internamentos ou mortes, nesta instituição nenhum dos 71 infetados apresenta sintomas. Do total de 60 utentes, 37 estão infetados e, relativamente aos funcionários, testaram positivo 34 pessoas de um universo de 54.

Uma vez que ninguém apresentava qualquer sintoma, o surto foi identificado “por acaso” quando um dos utentes se deslocou ao Hospital Beatriz Ângelo e, “por protocolo, foi testado”, explicou ao i Edgar Valles, vice-presidente e vereador da saúde da Câmara Municipal de Odivelas.

Durante a tarde de ontem, as entidades responsáveis estiveram reunidas para perceber se a instituição tem condições para separar os utentes que testaram positivo dos utentes que não estão infetados. “Foi validado pelo senhor delegado de saúde que o lar tem condições para garantir esse isolamento e, nesse sentido, não há necessidade de tirar ninguém”, explicou Edgar Valles.

Uma vez que os utentes vão permanecer no lar e há 34 funcionários em isolamento, a autarquia avançou que a Segurança Social vai garantir a substituição dos profissionais. “Neste momento, a Segurança Social aguarda o resultado dessas testagens para poder substituir os profissionais”, acrescentou o vice-presidente.

Tendo em conta que há dezenas de pessoas sem sintomas num lar, “a questão que se coloca é que podem estar ainda assintomáticos e depois vir a desenvolver a doença”, explicou Ricardo Mexia.

Relativamente aos assintomáticos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) sublinhou ontem que, neste momento, as pessoas abaixo dos 40 anos que não apresentam sintomas de infeção por covid-19, não sabendo que estão infetadas, são um dos principais focos de preocupação. “A pandemia está a mudar”, disse Takeshi Kasai, diretor da região do Pacífico Ocidental da OMS, acrescentando que “as pessoas com 20, 30 e 40 anos estão a liderar, cada vez mais, as transmissões”. O desconhecimento de infeção aliado a comportamentos de risco aumenta o risco de infeção, sobretudo junto dos grupos mais vulneráveis, onde estão incluídos os idosos.

 

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