28/10/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 19/08/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Saudades do passado recente

Na vida de um povo, também só se atribui real valor a certas coisas quando se as perdem.

1. Saudades de ver chegar ao Tejo cruzeiros gigantescos com milhares de turistas que inundavam a Baixa, mesmo sabendo que eram grandes poluidores. Saudades dos tuk-tuks insuportáveis. Saudades de dizer mal do barulho da cidade e do lixo que transbordava, embora continue sujíssima. Saudades até dos taxistas malcriados e dos TVDE que não sabem guiar nem onde fica o Rossio. Saudades de correr Lisboa para encontrar uma tasca com comida nossa feita por uma cozinheira, e não por um tipo a armar ao chef. Saudades de dar um abraço a um amigo, um beijo a uma amiga. Saudades de apertar a família de perto. Saudades de ver os miúdos a agarrarem-se no râguebi e a abraçarem-se fortemente no futebol. Saudades de achar que este país estava a andar muito menos do que os outros da União Europeia mas que, mesmo assim, ia crescendo. Saudades de achar que a bola era mesmo uma coisa importante e que emocionava. Saudades de achar que a Web Summit era uma treta para a malta vir beber copos. Saudades de ficar irritado com o barulho dos aviões, mas olhar para o céu e saber as horas porque estava a chegar o avião da Qatar. Saudades do tempo em que cada português, por mal que estivesse, podia aspirar a ter algo melhor. Saudades de ficar sem jeito na Igreja quando chegava ao momento do “saudai-vos uns aos outros na paz de Cristo”. Tudo isso e muitas outras coisas parecem distantes, mas aconteciam há muito pouco tempo. Na vida coletiva de um povo, como nas doenças graves individuais, só se atribui o real valor a certas coisas quando as perdemos. Aqui e ali verifica-se alguma retoma. É uma espécie de embrião em desenvolvimento. É um sinal de esperança. Mas todo o cuidado é pouco até que haja uma vacina ou, melhor ainda, um medicamento. Vamos ter esperança.

 

2. As 18 mortes no lar de Reguengos de Monsaraz não podem ficar impunes. Sejam elas resultantes diretamente da pandemia ou não, é excessivamente grave o que se passou aos olhos de toda a gente durante três semanas, sem intervenção eficaz da DGS, da Segurança Social, da autarquia, do Governo e dos políticos em geral. A circunstância de o diretor do lar ser simultaneamente o presidente da câmara tornou as coisas ainda mais sinistras. Lamentavelmente, a oposição pareceu reagir mais a uma entrevista infeliz de uma das Barbies ministras do Governo Costa do que aos factos que se iam prolongando no tempo. Há alturas em que quem quer fiscalizar não deve limitar-se a chamar ao Parlamento responsáveis supostos para conversas que normalmente dão em nada. Às vezes é preciso ter a coragem de ir aos sítios e exigir medidas lá onde as coisas estão a acontecer. Não foi o caso. Depois admiram-se que o populismo cresça.

 

3. É impressionante a preguiça que se instalou nas televisões generalistas e nos seus adjacentes canais noticiosos. Passam horas e dias a repescar notícias do Público, do JN, do i, do Expresso, do SOL, da Sábado, da Visão, do Jornal de Negócios, do Eco, do Observador e, obviamente, da Lusa (embora essa exista basicamente para servir os média). Por vezes, nem se cita a fonte e arranjam-se umas imagens à pressa. Os jornais televisivos (e boa parte dos das rádios) são um massacre de coisas que já se sabem em versão animada ou áudio. Regularmente, para encher, aparecem uns comentadores que acrescentam alguma coisa à matéria, embora nem sempre. Em telejornais-maratona cabe tudo: petiscos, roteiros, feiras e festinhas, moda e até peças tiradas de programas americanos de atualidade. As reportagens de investigação desapareceram no verão. Mesmo no inverno, muitas são adaptadas da imprensa, onde se trabalha duramente. As notícias da própria pandemia são iguais e vêm de fontes oficiais. Os diretos são sobre os mesmos temas. Nesta altura temos reportagens à porta de lares cheios de covid, junto a incêndios ou de acidentes mais ou menos aparatosos. O que muda de canal para canal são os planos e os repórteres. Se as televisões e rádios tivessem de pagar o tempo que usam com notícias de outros média, muitos destes não estariam na aflição em que vivem.

 

4. Dentro de dias abrem as feiras do livro de Lisboa e do Porto. Mudaram as datas por causa da pandemia. Aparentemente, a configuração do espaço em Lisboa é igual à dos anos anteriores. É importante que se informe sobre as regras de circulação, ajuntamento e manuseamento de livros para que todos estejam elucidados, a fim de que tudo corra bem, num espaço que também é lúdico.

 

5. Há que dar a mão à palmatória e reconhecer os erros quando eles acontecem. A vinda para Lisboa da fase final que a UEFA inventou para a Champions tem sido um fracasso. A repercussão interna já se previa diminuta. Mas havia a ideia de que Lisboa poderia ser citada, explicada e vendida a milhões de pessoas em todo o mundo, através dos jornalistas que viessem. Nada disso aconteceu. Ninguém reporta a cidade e o país. Falhou a suposta estratégia de divulgação. Mais grave ainda: nem os portugueses, que pagam parte da festa íntima dos clubes e dirigentes do futebol, viram o que quer que fosse nas televisões generalistas nacionais, uma vez que os direitos estão dados a uma cadeia codificada que praticamente ninguém tem. Nem sequer os cafés e bares que, aliás, estão limitados em termos de espaço, transmitem os jogos. Verifica-se uma completa ausência de interesse que começou nos média, mais interessados no Cebolinha e no Jesus e o seu magnífico léxico. Todo este desinteresse pode repetir-se na vinda da Fórmula 1 e do Mundial de MotoGP. Doravante era bom assegurar que tudo que o que se faça em tempo de pandemia e que possa não ter público nem retorno financeiro tenha como contrapartida uma repetição cá quando houver gente e as coisas trouxerem lucro. Desta vez fomos todos uns anjinhos. Realmente, quando a esmola é grande, o pobre tem mesmo de desconfiar. Já devíamos ter aprendido isso. O mundo não melhorou por Guterres estar onde está ou por Barroso ter sido o que foi. Há coisas que fazem bem ao ego coletivo mas que se apagam num ápice ou nem sequer se dá por elas

Escreve à quarta-feira

 

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