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O adeus a Mercedes Barcha, La Gaba

O adeus a Mercedes Barcha, La Gaba

AFP Mariana Madrinha 18/08/2020 22:28

Foi o “muro de contenção” da vida de García Márquez, a primeira leitora dos manuscritos do escritor e, como o próprio dizia, a sua crítica mais feroz. Mercedes Barcha, viúva do Nobel da Literatura, morreu no passado sábado, no México. 

Ainda hoje, a Fundação Gabriel García Márquez trata, nos seus comunicados, o seu fundador e patrono pelo petit nom que ao longo da vida lhe foi dirigido pelos mais próximos: Gabo. Também Mercedes Barcha, a mulher que partilhou 56 de vida com o escritor colombiano, recebeu o carinhoso epíteto de La Gaba. Mercedes Barcha, La Gaba, morreu no passado sábado, no México, já numa outra casa que não aquela para onde se tinha mudado com marido em 1962, ano em que aterraram a valer no país. Tinha 87 anos e, segundo a imprensa local, sofria de dificuldades respiratórias. 
Foi nesse primeiro ninho na cidade do México, situado no bairro histórico de San Ángel, que o casal “estreitou laços com os intelectuais do país”, recorda o La Vanguardia. Foi o telefone dessa casa que, em 1982, tocou trazendo a notícia de que García Márquez tinha vencido o Nobel da Literatura. Foi nessa casa que criaram os filhos, Rodrigo e Gonçalo. E foi também dali que, juntos, enviaram o manuscrito de Cem Anos de Solidão. Sobre este envio, no obituário que agora lhe dedica o El País, é recordado um episódio curioso muitas vezes contado pelo próprio García Márquez. Cabia a Mercedes a administração do pé-de-meia da família e, como tal, foram juntos enviar o texto. Quando chegaram aos correios, um funcionário pesou o grosso maço de folhas, informando o casal de que custaria 83 pesos. Mercedes retorquiu que apenas tinham 45, e resolveram enviar apenas metade. De volta a casa, Mercedes empenhou uma série de pequenos eletrodomésticos – que, num tempo de vacas magras, eram as últimas coisas que lhe restavam –, entre os quais um aquecedor, um secador de cabelo e uma batedeira. Foi assim que conseguiram arranjar dinheiro para que Cem Anos de Solidão abrisse o caminho para as estrelas. 

A dança a dois no México está cheia destes episódios peculiares e preencheu grande parte das suas vidas mas, quando chegaram ao país, o casal já funcionava como uma dupla de remadores bem sincronizada. Afinal, conheciam-se desde crianças.

 

No início esteve uma farmácia

Descendente de imigrantes egípcios que partiram para a Colômbia em busca de melhores caminhos, Mercedes nasceu na cidade colombiana de Magangué em 1932. O pai dela, Demetrio Barcha, tinha uma farmácia. E o pai dele, Gabriel Eligio García, também tinha uma farmácia em Barranquilla, viajando muitas vezes para fornecer medicamentos a outros colegas. Gabriel acompanhava por vezes o pai nessas jornadas e, no início da década de 40, ela era uma menina de nove anos e ele um adolescente imberbe de 14 quando puseram pela primeira vez os olhos um no outro.
Casaram em 1958, era ele jornalista há dez anos. Nessa altura, Mercedes era já “uma mulher alta e linda com cabelo castanho até aos ombros, neta de um imigrante egípcio, o que aparentemente se manifesta em maçãs do rosto largas e olhos castanhos grandes e penetrantes”, descrevia-a assim Gerald Martin, um dos biógrafos do escritor. E apesar de Mercedes, ao longo da vida, ter tomado para si o papel de cuidadora do lar e de leitora atenta da obra do marido – Gabo dizia que só tinha sossegado quando viu a cara da mulher a ler o manuscrito de Cem Anos de Solidão, encontrando na sua expressão a validação que procurava –, o encanto pelas letras vinha-lhe também de dentro. Nos arquivos de Gabriel García Márquez da Universidade de Austin-Texas, que adquiriu o espólio à família e o disponibiliza gratuitamente online, é possível encontrar um pequeno texto que Mercedes escreveu aos 15 anos, sobre o rio Magdalena, na Colômbia, que a jovem considerou impossível de retratar. “Considero como um átomo o que a minha caneta pode escrever sobre essa longa e majestosa corrente”, dizia no texto de 1947, também citado pelo El País.
A curta passagem vinda da adolescência dá conta do interior de uma mulher que, muitos anos mais tarde, primando pela discrição, se tornou o braço-direito e a musa do escritor colombiano. Foi nela que García Márquez foi beber a inspiração para a personagem “Mercedes, a boticária”, a mulher forte e silenciosa de Cem Anos de Solidão. E, se não fosse por ela, talvez o livro no qual Márquez laborou intensamente durante 18 meses não tivesse existido, dizia o próprio autor. 

Publicamente, e nas tantas e tantas vezes que foi fotografada, mantinha quase invariavelmente um sorriso desenhado com a pena do realismo mágico: enigmático, cheio de promessas de um mundo especial. Os próximos descreviam Mercedes como uma mulher silenciosa, funcionando essa serenidade como uma espécie de triagem entre o marido e o resto de um mundo em alvoroço, naqueles anos em que a fama dele explodiu. “Quando escrevi um perfil sobre Gabo, em 1999, entendi que só com a aprovação dela conseguiria chegar até ele”, contou Jon Lee Anderson, jornalista da New Yorker que haveria de se tornar amigo de Mercedes, descrevendo-a como uma mulher que falava pouco, mas de uma forma eufemística, conta o El País. “Quando a conheci em Bogotá e conversámos, sem que ela me dissesse, senti que me havia dado a aprovação para que eu pudesse aproximar-me dele”, acrescentou. Já na peça que escreveu para a New Yorker, Gabo contou uma outra história reveladora do peso da mulher nas relações de ambos. O escritor era um bom amigo de Fidel Castro, tendo escrito certa vez que o cubano tinha a “devoção da palavra” e que gostava de longas conversas. Mas essas longas prosas não faziam com que Márquez fosse o preferido, dizendo nesse artigo que Castro confiava mais na mulher do que nele.

Viúva desde 2014, Mercedes continuou a ser a mulher discreta que sempre fora, mas nunca se alheou do mundo e era conhecida por ser uma ávida consumidora de notícias. “A sua personalidade era única, uma mescla singular de inteligência absoluta, força de caráter, pragmatismo, curiosidade, sentido de humor e hermetismo”, assim a definiu Jaime Abello Banfi, diretor da Fundação Gabo. “Querida Mercedes, foste um polo na terra, jamais te esqueceremos”.
Se na morte lhe tem sido reconhecida a importância para a obra do marido, nas linhas de despedida que agora lhe dedicam, Gabo fê-lo em vida, há muitos anos, com apenas quatro palavras escritas na primeira página de O Amor nos Tempos de Cólera: “Para Mercedes, por supuesto”.

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