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Fear City. Quando Nova Iorque foi Roma para um império criminoso

Fear City. Quando Nova Iorque foi Roma para um império criminoso

Diogo Vaz Pinto 14/08/2020 12:03

Estreou há semanas na Netflix uma minissérie documental que recua quatro décadas para nos dar uma ideia do que era a cidade que não dorme nos anos em que estava infestada pelo crime, e como o FBI, estando a perder por muitos, teve de atirar fora o tabuleiro das damas e jogar uma partida de xadrez, pondo fim ao período de ouro da máfia nos EUA.

 

Para lá de um vulgar fascínio a que estamos todos sujeitos enquanto personagens descontentes, imersas num drama que tantas vezes nos parece insosso, senão mesmo maçador, é difícil explicar a atração que a máfia tem na cultura popular norte-americana. Talvez isso se deva a uma espécie de inveja das mitologias do velho mundo, como notou o jornalista Peter Maas. “Ao contrário dos ingleses, que em caso de se depararem com uma crise de identidade podem sempre buscar consolo virando-se para Camelot, e os Cavaleiros da Távola Redonda, ou os alemães com a sua Canção dos Nibelungos, nós somos um país bastante jovem, cujos mitos ainda estão em produção e que, na sua maior parte, saem dessa grande fábrica de sonhos que é Hollywood.” 

O problema é que a indústria cinematográfica, para cativar esta espécie a que a maioria de nós pertence hoje, e isto bem para lá dos confins do seu território, esta massa de gente mole, insípida, invejosa e com pouca imaginação, não hesita em recorrer a truques baratos, e tantas vezes, para nos fazer admirar esses que se libertam da rede de regras, de cláusulas e de proibições que estão na base das nossas sociedades, acaba por inventar heróis a partir de sacripantas e até de carniceiros. O grande efeito de estilo, o toque de Midas de Hollywood é, como bem sabemos, a glamorização. E é neste aspeto que a minissérie documental da Netflix, Fear City: New York vs The Mafia, contraria de algum modo o guião mais genérico deste tipo de produções. Nos seus três episódios, o que toma forma são os antecedentes e a investigação do que viria a ficar conhecido como “O Caso da Comissão mafiosa”, um processo criminal em meados da década de 1980 que desmantelou o império criminoso que, a partir de Nova Iorque, se estendia ao resto do país. O julgamento dos chefes das cinco famílias que controlavam todos os aspetos da vida económica da cidade, e que estendiam os seus tentáculos por todo o país, começou em 1985 e terminou no ano seguinte, com oito dos doze réus sentenciados a penas de prisão, com os cabecilhas a apanhar 100 anos, pondo fim a um período de duas décadas de impunidade absoluta em que Nova Iorque foi a Roma do crime organizado.

 A série arranca no início da década de 1970, com uma sequência que parece saída de uma dessas séries televisivas vagamente inspiradas em factos reais e que logo nos faz saber que, venha o que vier, uma edição mais do que competente estará lá a cada passo para nos dar a mão, sussurrar-nos uns pavores para aguentar o suspense, ajudando-nos a fazer uma travessia de longos e penosos anos de uma investigação envolvendo escutas, horas de gravações, da qual nos são dados a ouvir brevíssimos trechos, uma ameaça aqui, algumas informações incriminadoras ali, tudo cru, envolvido nuns temperos de palavrões, e que nos dá uma ideia da maçadoria que não terá sido a vida dos investigadores do FBI, obrigados a um exame escrupuloso das pistas e detalhes, tentando levantar um fio que um dia se aguentasse em tribunal. É neste aspeto que esta série sobressai contra um panorama em que os mafiosos surgem vulgarmente como um bando de personagens, normalmente imigrantes, que se insurgem contra o que lhes é servido nos escalões mais baixos do sonho americano, e se organizam de forma a reclamar pela força uma fatia reservada aos poderosos. A este respeito, é bom destacar que os filmes que contribuíram para prestigiar os mafiosos têm já uma tradição de mais de um século, com os críticos a consideraram que a primeira fita sobre gangsters é “The Musketeers of Pig Alley”, de DW Griffith, que chegou às salas em 1912. Começa aí a desenrolar-se uma visão mais complexa da relação entre o bem e o mal, e vale a pena citar a máxima de Shakespeare em Henrique V: “Há em todas as coisas más uma essência de bem para os homens que saibam destilá-la.” Isto sugere um amadurecimento do público, que já não tinha pachorra para engolir as mais banais noções de conflito entre lados perfeitamente opostos, preferindo reconhecer que entre o preto e o branco há uma vastidão de graus de cinzento, e que, fora do campo das abstrações, “o mal e o bem formam uma terrível embrulhada, organizam uma espécie de mobile cujas figuras trocam de lugares e de réplicas ao mínimo sopro” (Gilles Lapouge).

 Para se compreender o regime de favor excecional de que goza a máfia no imaginário norte-americano é preciso notar que nem todo o crime violento é sujeito ao mesmo efeito de glamour, e isso mesmo vinca Maria Konnikova num artigo escrito há alguns anos na The New Yorker, em que lembrava que os assassinos em série como o Filho de Sam (David Berkowitz) ou Ted Bundy, ou figuras como Charles Manson estão longe de ser alvo do mesmo tipo de culto, embora não deixem de gozar de um tenebroso estatuto que, em muitos aspetos, vai a par dos efeitos de celebridade. Mas questionando-se o motivo por que Al Capone, Lansky, Arnold Rothstein e “Lucky” Luciano, entre tantos outros, são figuras que adquiram um relevo mítico junto do grande público, a jornalista aponta não só para aspectos culturais mas também de raiz histórica. De acorco com James Finckenaur, professor emérito da Universidade de Rutgers e autor de Mafia and Organized Crime: A Beginner’s Guide a glamorização da máfia começa com a Lei Seca. No princípio do século XX, os mafiosos não passavam de pequenos operadores. Mas foi então que foi promulgado o Volstead Act (1919), que proibiu a venda, importação e fabrico de bebidas alcoólicas. “Um dos efeitos secundários que a lei teve foi o de solidificar o crime organizado e promover a articulação a nível internacional de uma rede criminosa, que se aproveitou desses pequenos grupos”, explica Finckenauer. Sendo a Lei Seca uma dessas proibições resultantes de conteúdos moralistas inaceitáveis para a maior parte dos americanos, a partir daí aqueles que lhe faziam frente assumiram um prestígio como heróis populares, ficando para segundo plano a violência e os atos de extorsão em que sempre incorreram estes criminosos. Mesmo depois da revogação da Lei Seca, o prestígio não foi abalado, e estava já embalado numa série de lendas sobre façanhas em que os gangsters se irmanavam com os fora-da-lei do Velho Oeste. Mas depois surgem obras icónicas como “O Padrinho” de Mario Puzo, livro magistralmente adaptado ao cinema por Francis Ford Coppolla, e em que os mafiosos surgem como guardiães de uma cultura de antigos valores que em muitos aspetos passava por reclamar uma herança que descende da Roma Antiga e de tradições trazidas do Velho Mundo, como a noção de Omertà. É então que nos surge a imagem desses tipos que se fazem valer de um forte sentido de família, estendendo-o  o às suas comunidades, respeitando um voto de silêncio e voltando costas a todas as outras autoridades, firmando a sua disciplina num código de honra invulnerável aos balanços e à dissolução de uma sociedade que, por essa altura, embalada na abastança, embarcava em delírios e utopias sentimentais, rompendo tantas vezes com os valores familiares.

É neste aspeto que os mafiosos adquirem o prestígio de uma elite entre os criminosos, os quais desde sempre, como notou Jean Genet, construíram o seu mundo à margem, o qual nunca deixou de se reger por certas prudências e leis não escritas, muitas vezes assentes sobre princípios que tornavam os seus membros bem mais confiáveis do que essas confrarias que se reuniam à volta das mesas de café e que hoje passaram para os fóruns das redes sociais, protestando de forma abúlica e inoperante, constituindo essa farsa crítica, essa barulheira que resmunga mas goza das vantagens da sua época. Assim, tudo o que fica é uma sociedade indecente entregue ao estupor altaneiro das suas propaladas convicções. Voltando a Genet, ele diz-nos que, “salvo entre as crianças, nunca é o Mal, um encarniçamento no avesso da vossa moral, que une os fora-da-lei e forma os seus bandos... Pareceria lógico rezar ao diabo, mas nenhum ladrão ousaria fazê-lo seriamente. Pactuar com o demo seria comprometer-se mais profundamente, já que este se opõe a Deus, que se sabe ser o vencedor definitivo. O próprio assassino não ousaria rezar ao diabo.”

 A vincar o elo com a dignidade que tantos de nós reconhecem nos mafiosos, pelo menos naqueles cujas desventuras seguimos através do grande ecrã, está o facto de ser muito mais difícil, como nota Konnikova, integrar nessa forma de romantismo, as máfias de leste ou chinesas. Do mesmo modo que os cartéis mexicanos surgem quase sempre como pavorosos antagonistas, que associamos mais a uma exploração dos limites do terror, a uma ideia de ausência absoluta ou impotência do Estado, que acaba por ser consumido por essas formas de parasitismo que, aí sim, parecem representar um encarniçamento no avesso da nossa moral, com os sicários a aproveitarem a ausência de Deus para fazer o trabalho do diabo.

 Face a isto, não é que a série da Netflix venha pôr em causa todo este imaginário, mas estabelece uma narrativa mais modesta, num tom de reportagem que não abdica de certos efeitos a que nos habituaram as produções que rondam este submundo, e, de forma paciente, vai descolando, apoiando-se em entrevistas e reconstituições, para nos dar uma ideia do quebra-cabeças com que se deparam aqueles antigos agentes do FBI que tiveram de reinventar o jogo, pois estavam a perder por muitos, e tudo o que conseguiam era capturar figuras menores, sem nunca ameaçar os escalões superiores daquelas cinco famílias. Os clãs Gambino, Colombo, Bonnano, Lucchese e Genovese, que tinham passado de pequenos extorsionistas de bairro a organizações rigidamente hierarquizadas, e que, em muitos aspetos, tinham uma gestão do dia-a-dia que as colocava a par das empresas cotadas na Bolsa, com os seus tentáculos a estenderem-se aos principais serviços e negócios que operavam a partir de Nova Iorque. Assim, aquelas cinco famílias tinham filiais em todas as principais cidades, controlando os grandes sindicatos, e tirando uma fatia dos lucros em monopólios como a recolha do lixo, o transporte de mercadorias, a atividade nos portos, e, a partir da década de 1980, assumindo um papel cada vez mais decisivo no setor da construção, isto numa altura em que a cidade começou a ver o seu horizonte povoado pelos gigantescos arranha-céus.

 Sem descortinar exatamente quais terão sido os interesses, nomeadamente no setor imobiliário, que permitiram que as autoridades públicas desbloqueassem os impedimentos e as revisões que foram necessárias para que a investigação passasse a orientar-se segundo uma estratégia de ir atrás das cinco famílias, focando-se nomeadamente na Comissão, que reunia os chefes de cada um dos clãs e os seus esforços em comum para controlar a cidade, “Fear City” apresenta-nos a uma figura central na viragem que se deu na forma como o combate ao crime organizado passou a ser feito. O professor G. Robert Blakey, o principal responsável pelo diploma RICO (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act), aprovado alguns anos antes pelo Congresso, mas que não estava ainda a dar frutos, chamou os agentes do FBI à Universidade de Cornell, onde dava aulas, para lhes fazer entender como deviam atuar de forma a beneficiar das potencialidades daquele novo regime.

 E é assim que no centro da investigação passam a estar as escutas, e as várias investigações em curso passam a estar coordenadas, empenhadas em recolher as provas necessárias para levantar a trama que unia as cinco famílias, pondo a mira na “Comissão”. A partir deste momento, quando se começa a perceber a cadeia de eventos que irá levar ao desmantelamento daquele regime criminoso, começam a emergir duas figuras em lados opostos, e que, quatro décadas depois, sabemos como se tornaram próximas. Temos de um lado o procurador à frente do distrito sul de Nova Iorque, Rudy Giuliani, que se aproveitaria do caso para se lançar no plano político, tornando-se o Mayor da cidade, e do outro lado temos Donald Trump, cujos investimentos na década de 1980 o levaram a ter de negociar com a máfia, ficando no ar a sugestão de que terá aprendido alguma coisa, não apenas quanto à sua forma de fazer negócios, mas, sobretudo, no que toca a seduzir o público, a servir-se do seu ânimo de revolta, agitando a sua cólera, e ao mesmo tempo falando aos seus desejos, prometendo reinstituir o sonho americano, mas apenas para essa comunidade que se identifica pela repulsa face aos outros. Um eleitorado que está disponível para eleger um mafioso, contanto que ele não se esqueça dessa linha que separa os que merecem ser tratados como se Deus estivesse a ver e aqueles que, na sua ausência, acabam por ser levados a rezar ao diabo.

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