23/9/20
 
 
José Paulo do Carmo 14/08/2020
José Paulo do Carmo

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Avante? “Isto é gozar com quem trabalha”

Quem faz as regras devia estar na linha da frente, por uma questão ética, a mostrar que somos todos iguais. Os políticos (de todos os partidos sem exceção) têm que começar a perceber que o que vale para os outros com as leis que fazem deve valer para os próprios em primeiro lugar

Ponto prévio, este não pretende ser um artigo político. Tem a ver com justiça e a forma como ela se altera mediante os protagonistas e o quanto isso está errado. Mas comecemos pelo princípio. E pelos princípios, já agora. Não sou nem nunca fiz parte do que o Partido Comunista Português e os seus representantes usam como léxico favorito. O Grande Capital. Não nasci numa família rica, mas sim numa rica família composta por pessoas diferentes mas que sempre se regeram pelos mesmos valores e a mesma educação. Foi aí que aprendi conceitos tão diferentes como o “não faças aos outros aquilo que não gostam que te façam a ti” e que independentemente da raça, do credo ou da posição social, todos devem ser tratados da mesma forma, desde que não tenham nenhuma atitude que me faça ter opinião contrária. Lá por casa, rico e pobre, branco, preto e amarelo tanto faz e tanto fez.
Não posso, por isso, deixar de achar incompreensível o facto de o PCP levar, numa altura destas, a dele Avante. O festival sociocultural que todos os anos anima a Quinta da Atalaia merece-me todo o respeito, acho importante como movimento político e interessante como festa. E nem está em causa se, por esta altura, já deveríamos ter autorizado certo tipo de eventos mediante determinadas regras, e que eu acho sinceramente que sim. A questão está na igualdade. Não dá para ver tanta gente direta e indiretamente ligada aos eventos, sejam produtores ou técnicos de som, seguranças ou pessoal da manutenção, artistas e pessoal da limpeza, a passar dificuldades por lhes ser negado o direito a desenvolver a sua profissão e depois vem um partido político a realizar mesmo à cara podre o seu. Os partidos políticos nem sequer deviam estar em igualdade com estes últimos espetáculos de que falo. Deviam ser os últimos a dar este passo, para dar o exemplo. Quem faz as regras devia estar na linha da frente, por uma questão ética, a mostrar que somos todos iguais. Os políticos (de todos os partidos sem exceção) têm que começar a perceber que o que vale para os outros com as leis que fazem deve valer para os próprios em primeiro lugar.
Pior ainda é virem dizer que, se podem haver festas na Quinta do Lago e na Comporta, eles também podem fazer. Depois do que assistimos no 25 de Abril e no 1.º de Maio. Isto é abjeto e nojento e só tenta atirar areia para os olhos das pessoas. A típica e gasta cassete dos ricos contra os pobres. Relembro aos mais desatentos que ser rico não faz de uma pessoa aldrabona e ser pobre não a faz honrada. Conheço vários que vivem na miséria porque nem roubar souberam e estão assim devido a várias golpadas em que lhes saiu o tiro pela culatra. Não consigo entender como não existe sensibilidade para perceber que esta não é a altura certa para hastear a bandeira, gerando revolta em tantos que se encontram impedidos de trabalhar. Não quero acreditar (porque o tenho em boa consideração) que esta ideia tenha partido de Jerónimo de Sousa, mas sim de meia dúzia de meninos mimados com t-shirts do Che Guevara, sem se preocuparem com quem os rodeia, no alto da sua suposta superioridade moral de que tudo podem e que passam a vida a gritar “igualdade”, mas que nestas alturas isso só serve para os outros…
O mais triste é vermos o Governo permitir tudo isto, prevendo já a revolta da população e, sobretudo, dos que trabalham na área. Penso que a ideia deles é, prevendo que isto possa correr mal, assistir de cadeirinha à implosão de um partido que é, quer queiramos ou não, importante para o país. Mesmo não partilhando dos mesmos ideais, acho que precisamos de uma sociedade plural e onde há espaço para todos. Gosto de olhar para a história e aprender com ela e não apagar o que não me interessa. Estudei com o mesmo entusiasmo Salazar e Ribeiro dos Santos. É assim que damos passos para o futuro. Percebendo as diversas sensibilidades e escolhendo o nosso caminho. Tendo por base que, mesmo que a lei por vezes o permita, não devemos nunca esquecer a sensibilidade, a ética e os princípios. Porque somos pessoas e não autómatos. O que iremos assistir a partir de 4 de setembro é uma afronta e é revoltante para quem gostava de fazer o mesmo mas não lhe é permitido. Como diz, aliás, o fiel militante do PCP, “isto é gozar com quem trabalha”. 

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