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Campeões. Paco Gento: a Ventania da Cantábria despenteava a Europa

Campeões. Paco Gento: a Ventania da Cantábria despenteava a Europa

Afonso de Melo 13/08/2020 22:32

Continua a ser, até aos dias de hoje, o único jogador a ter ganhado seis Taças dos Campeões – perdeu uma final contra o Benfica, em 1962. Pastor de vacas na infância, a sua velocidade estonteante destruía por completo as defesas adversárias.

Não, de todos os campeões da Europa, nenhum como Paco Gento! Uma frase sobre ele ficou presa na memória daqueles que gostam de futebol: “Gento corre mucho, pero lo peor no es cómo corre, lo peor es cómo se para!” Havia o mito: é impossível parar Gento, o cantábrico. Francisco Gento López nasceu em Guarnizo, uma pequena aldeia da zona de El Astillero, no dia 21 de outubro de 1933.

Quando se fala em Taças dos Campeões Europeus, é fundamental falar de Paco Gento – o único que ganhou seis, tendo participado em sete finais. A única que perdeu foi frente ao Benfica, em Amesterdão, 1962 (3-5). De resto, conquistou as cinco primeiras consecutivas, de 1956 a 1960, e a de 1965-66 frente ao Partizan de Belgrado (2-1). Irrepetível? Muito provavelmente, embora sejam insondáveis os caminhos do futebol.

Filho de um chofer de camiões, Paco Gento não teve grande paciência para os estudos. Com 14 anos, deixou a escola por completo. Preferia ficar na quinta que o pai possuía, guardando vacas e sonhos de vir a ser, um dia, uma personagem do jogo que adorava. Esforçou-se por isso. Começou na equipa de cadetes do Sociedad Deportiva Nueva Montaña. Não era nenhum luxo, mas ele também nunca foi dado a luxos. Além do mais, podia conciliar o futebol com o atletismo e era um estupendo corredor de distâncias curtas, como os 100 e os 200 metros. De alguma forma, pode dizer-se que estava a aprender a voar...

 

Ilusões e certezas

Para um rapazinho da Cantábria, o sonho da época era jogar pelo Racing Santander. Havia degraus a trepar até lá. Subiu de categoria quando assinou contrato com o Unión Club de El Astillero e, um ano mais tarde, chegou à III Divisão de Espanha com a camisola do Sociedad Deportiva Rayo Cantabria – um passo feliz para ele, já que era o clube filial do Racing. A sua hora tinha chegado: em 1952-53 cumpriu dez partidas com oSantander na iDivisão, marcando dois golos. Aos 20 anos, parecia que tudo na sua existência tinha decorrido à velocidade da luz. Foi recrutado pelo Real Madrid. Batia certo: afinal, PacoGento corria a cerca de 3000 quilómetros por segundo. Era o jogador mais veloz que se vira em Espanha.Ganhou a alcunha de Ventania Cantábrica (La Galerna del Cantábrico). Os títulos vinham aí aos borbotões para fazerem dele uma figura absolutamente única.

Francisco jogou 18 anos no Real Madrid antes de pôr fim à carreira, no final da época de 1970-71, a sua pior de sempre – jogou apenas 7 encontros. Foi 12 vezes campeão de Espanha, ganhou duas Copas doRei, duasTaças Latinas e uma Taça Intercontinental, além de ter sido campeão da Europa pela Espanha, em 1964. Hoje, à beira de cumprir 87 anos, é provável que já não tenha pachorra para polir todos os seus troféus. Mas ganhou um estatuto de inesquecível que nem a morte poderá tirar-lhe.

A sua entrada no Real foi de arromba: os madridistas ganharam o campeonato pela primeira vez ao fim de 20 anos. Paco Gento esteve na génese da equipa extraordinária que encantou o universo com os seus Di Stéfano, Puskás, Rial, Kopa, Muñez...

Héctor Rial, de nome completo José Héctor Rial Laguía, nascido em 1928, em Pergamino, Argentina, chegou a Chamartín em 1954 vindo do Nacional de Montevidéu. Já tinha sido parceiro deDi Stéfano nos Millionarios, da Colômbia, e era um avançado móvel e inteligente que acabou por ter uma importância fundamental na carreira de Paco Gento. Seria Héctor a cumprir o papel de treinador, ensinando o seu ponta-esquerda a dosear a forma como tinha tendência para sair disparado para o ataque, como um foguete, deixando muitas vezes a equipa desequilibrada por não ser capaz de acompanhar a sua velocidade. Além disso, Gento foi obrigado a evoluir muito com a bola nos pés, algo para o qual nunca fora trabalhado antes de chegar a Madrid. Em Santander, equipa mais pequena, queriam que ele corresse para lhe colocarem bolas à distância, esperando que o seu forte remate com a canhota resolvesse os jogos. 

Vivaço como poucos, Paco decidiu aceitar as críticas dos companheiros e transformou-se num importantíssimo jogador de equipa. No Real marcou um total de 126 golos em 427 jogos, um número muito aceitável para um extremo esquerdo. Depois da retirada, manteve-se ligado ao clube como treinador de classes mais jovens. A Ventania da Cantábria já não soprava mais.

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