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Afonso de Melo 13/08/2020
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Rua do Norte. A receita da ternura

 Desculpa, de repente, entrar outra vez na tua vida, mas senti a necessidade infinita de te escrever, desprezo, nojo e o diabo. Posso misturar tudo neste rabisco. Como na história da Alice, lembras-te? O cozinheiro tirando a sopa do fogo; o gato de Cheshire que sorria tanto até desaparecer; os machados com que a Rainha de Copas mandava cortar cabeças...

Olá!! Não falo contigo (a outra tu que foste e já morreu) há tanto tempo. Ainda de te lembras de sermos um fado? “Agarro a madrugada/ Como se fosse uma criança...” Éramos crianças: eu e tu. Mais tu que eu, claro, vivíamos à distância de 15 anos. Desculpa, de repente, entrar outra vez na tua vida, mas senti a necessidade infinita de te escrever, desprezo, nojo e o diabo. Posso misturar tudo neste rabisco. Como na história da Alice, lembras-te? O cozinheiro tirando a sopa do fogo; o gato de Cheshire que sorria tanto até desaparecer; os machados com que a Rainha de Copas mandava cortar cabeças...
São três e meia da manhã. Nesse tempo, não iríamos sequer a meio da conversa. Não sei se alguma vez te disse a realidade profunda de um afeto: “O sexo é apenas um carinho que foi até ao fim!” Erguíamo-nos doridos da insistência da noite. “O Gato apenas sorriu largamente quando viu Alice”. O gato que amava a falsidade. Gasta, se conseguires, rapariga infeliz, mulher medíocre, dois minutos para pensar na nossa filha. Daria a vida para a ver sorrir, como sorria quando a ensinei a voar; daria a vida para nunca a ver chorar. Foi aí que me contaste que o Gato te tinha dito: “Oh, isso, você não pode evitar: todos somos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca!” 

 

 

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